ARTIGO - Uma história de 75 anos que precisa ser cantada
POR PAULO BERNARDI
Fonte: Paulo Bernardi, vereador, postado por Natali Galvão
· Leitura de 7 min
Foto: Acervo A Comarca

Neste ano de 2026, o Hino ao Senhor Bom Jesus de Matão completa 75 anos. São três quartos de século desde aquela noite de 8 de junho de 1951, quando, diante de uma Igreja Matriz repleta de fiéis, foram ouvidos pela primeira vez os versos escritos por Abel Newton de Oliveira Penteado e a música composta por Heitor de Carvalho. É, portanto, um verdadeiro Jubileu do Hino ao Senhor Bom Jesus de Matão. E acredito que uma data tão significativa não poderia passar despercebida, especialmente porque esse hino não conta apenas uma história religiosa. Ele conta, de certa forma, a própria história de Matão. Para compreendê-lo, precisamos voltar às origens de nossa cidade.
Na formação dos antigos vilarejos era comum que proprietários rurais destinassem áreas de terra a um santo de devoção. Essas terras serviam para a construção e manutenção das capelas e, em seu entorno, surgiam as primeiras comunidades. Muitas eram dadas em enfiteuse, sendo os valores arrecadados com foro e laudêmio utilizados na manutenção da própria povoação. Foi assim também em Matão. Nossa história está profundamente ligada à devoção ao Senhor Bom Jesus. A documentação histórica registra a destinação das terras, a construção da capela e o surgimento da comunidade que posteriormente se transformaria na cidade que conhecemos. Por isso sempre gostei de dizer que Matão foi construída sob as bênçãos do Senhor Bom Jesus.
Décadas depois, essa ligação entre Matão e seu padroeiro ganharia música e poesia. Em 1951, enquanto se discutiam os festejos do Senhor Bom Jesus e a construção da nova Igreja Matriz, o padre Nelson Antonio Romão conversava com amigos, entre eles o promotor de Justiça Abel Newton de Oliveira Penteado, que atuava em São Carlos. Abel manifestou o desejo de colaborar com aquele momento vivido pela comunidade matonense. Padre Nelson, conhecendo sua generosidade e capacidade, fez-lhe um pedido bastante especial: que escrevesse um Hino ao Senhor Bom Jesus de Matão. Abel aceitou prontamente e escreveu a letra. A música foi confiada a Heitor de Carvalho, cirurgião-dentista e talentoso músico autodidata, que dirigia coros e orfeões e possuía intensa participação na vida musical de São Carlos. A própria partitura daquele trabalho chegou aos nossos dias e constitui hoje documento precioso de nossa memória.
Poucas semanas depois, Abel retornaria a Matão acompanhado de uma caravana sancarlense. Na noite de 8 de junho de 1951, o hino foi executado pela primeira vez. O padre Nelson registraria posteriormente que a Igreja Matriz estava tomada por fiéis que ouviram aquela composição. O episódio foi publicado pelo jornal A Comarca em sua histórica edição nº 1.355, de 24 de junho de 1951, e posteriormente recuperado pelo saudoso historiador Azor Silveira Leite no livro ‘Uma História para Matão – Volume 2’.
Passados 75 anos, vale a pena voltar aos versos do hino, porque eles dizem muito sobre aquilo que seus autores enxergavam em Matão. Quando começa dizendo “Matonenses, a terra que temos”, o hino fala diretamente a cada um de nós. Existe nessa frase um profundo sentimento de pertencimento. A cidade não pertence a uma geração apenas. Nós a recebemos daqueles que vieram antes e temos o dever de transmiti-la àqueles que ainda virão. “Foi erguida na bênção da Cruz” reúne fé e história. A devoção ao Senhor Bom Jesus está presente desde os primeiros tempos de Matão e participou da própria formação de nossa comunidade.
“Genuflexos ao chão confirmemos” utiliza uma expressão pouco comum atualmente. Genuflexos significa ajoelhados. É um gesto de humildade, respeito e reverência. E completa: “Nossa fé no Senhor Bom Jesus”, sintetizando a devoção que durante gerações esteve presente na vida das famílias matonenses. O refrão diz: “Vós que assim nos olhais, descobri-vos”, numa linguagem poética própria de seu tempo, fazendo uma súplica para que o Senhor Bom Jesus se revele e permaneça próximo de seu povo. “Esta imagem que o povo conduz” nos faz recordar imediatamente as procissões e celebrações. É o povo conduzindo pelas ruas a imagem do seu padroeiro e, ao fazê-lo, conduzindo também uma tradição recebida de seus antepassados.
“É a esperança de todos os vivos” talvez seja uma das passagens mais bonitas. A esperança não distingue idade, riqueza ou condição social. Todos necessitamos dela. A segunda estrofe reforça justamente essa igualdade. “Tanto o rico senhor como o pobre” coloca todos no mesmo plano diante da fé. “Nos palácios, nas chocas sem luz” contrapõe riqueza e pobreza para mostrar que a devoção alcança igualmente a todos. “Sua humilde cabeça descobre” lembra o antigo gesto de retirar o chapéu como demonstração de respeito. E todos se encontram “Ante a fé no Senhor Bom Jesus”.
Mas é a última estrofe que, particularmente, considero mais significativa neste Jubileu de 75 anos. “Praza às luzes do Céu que Matão” é uma oração. “Praza” significa algo como “queira Deus”, “permita o Céu”. “Esta terra que a todos seduz” é uma declaração de amor a Matão, esta cidade que cria raízes profundas naqueles que aqui nasceram e também naqueles que aqui escolheram viver. “Possa ter sempre no coração” talvez seja a chave de todo o hino. É no coração que um povo guarda aquilo que considera precioso: seus afetos, seus valores, sua história e sua memória. E, então, a composição termina desejando que Matão tenha “Um altar ao Senhor Bom Jesus”. Um altar que existe fisicamente em nossa Igreja, mas que também representa algo maior: que a devoção, a história e a memória do Senhor Bom Jesus permaneçam no coração da própria cidade.
PROJETO DE LEI
Foi justamente preocupado com a preservação dessa história que, em 2022, como vereador, tive a iniciativa de apresentar o Projeto de Lei nº 95/2022, declarando o Hino ao Senhor Bom Jesus de Matão como Patrimônio Cultural Imaterial de nossa cidade. Tenho especial orgulho dessa iniciativa. Entre tantas matérias que passam pelo Poder Legislativo, algumas resolvem questões circunstanciais. Outras têm o propósito de proteger aquilo que deverá sobreviver às próprias gerações que aprovaram a lei. Foi exatamente esse o espírito daquele projeto: garantir que Matão reconhecesse oficialmente, como parte de seu patrimônio, uma obra que já pertencia à memória de seu povo havia mais de sete décadas.
O projeto foi aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal, reconhecendo Abel Newton de Oliveira Penteado como autor da letra e Heitor de Carvalho como autor da música. Hoje, quando comemoramos os 75 anos do hino, percebo ainda mais a importância daquela iniciativa. Mas uma lei, por mais importante que seja, não consegue sozinha manter viva uma tradição. Hino precisa ser cantado. História precisa ser contada. Memória precisa ser transmitida.
Por isso, aproveito este Jubileu para fazer um pedido muito especial à comunidade católica de Matão, aos nossos sacerdotes, às paróquias, aos catequistas e às famílias. Que o Hino ao Senhor Bom Jesus volte a ser cantado com frequência. Que não fique restrito apenas às festividades do Padroeiro. Que seja conhecido nas paróquias, nas comunidades e nas celebrações em que sua execução seja apropriada.
E faço um pedido ainda mais especial: que ele seja ensinado em nossas catequeses. Que nossas crianças e nossos jovens aprendam não somente a cantar sua melodia, mas conheçam também sua história. Que saibam quem foram Abel Newton de Oliveira Penteado e Heitor de Carvalho. Que conheçam padre Nelson Antonio Romão e o trabalho de preservação histórica de Azor Silveira Leite.
Imaginem o significado de uma criança matonense, em 2026, aprender a cantar os mesmos versos que foram apresentados pela primeira vez diante dos fiéis de Matão em 1951. São 75 anos separando essas duas gerações, unidas pela mesma música. É exatamente isso que significa preservar patrimônio imaterial.
Um prédio pode ser conservado porque suas paredes permanecem de pé. Um documento pode ser preservado dentro de um arquivo. Mas uma música somente permanece viva se houver alguém para cantá-la. Uma tradição só continua existindo se houver alguém disposto a ensiná-la. E uma história somente atravessa gerações quando alguém decide contá-la novamente.
A lei que tive a honra de idealizar e propor fez sua parte ao reconhecer oficialmente o Hino ao Senhor Bom Jesus como patrimônio de Matão. Neste Jubileu de 75 anos, cabe agora a todos nós fazer algo ainda mais importante: mantê-lo vivo. Que ele volte às vozes de nosso povo. Que chegue às nossas crianças. Que atravesse outros 75 anos. E que Matão continue, como desejava Abel Newton de Oliveira Penteado em 1951, a ter “sempre no coração, um altar ao Senhor Bom Jesus”.
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