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Cultura e Variedades

ARTIGO - O paradoxo do crédito jovem

POR MURILLO TREVISANELLO PINOTTI

Fonte: Murillo Trevisanello Pinotti é formado em Administração Pública pela Unesp-Araraquara, especialista em Gestão de Projetos pela USP-Piracicaba (Esalq), diretor municipal de Programas Sociais e diretor, postado por Natali Galvão

Foto: Acervo A Comarca

Murillo Pinotti. "Os jovens são, hoje, os mais inadimplentes do Brasil quando comparados a adultos e idosos"
Murillo Pinotti. "Os jovens são, hoje, os mais inadimplentes do Brasil quando comparados a adultos e idosos"

Na sala de aula do cursinho comunitário do Grupo Pró-Estudar ou nas mesas de planejamento da gestão pública municipal, eu vejo diariamente o mesmo brilho nos olhos da juventude. É a vontade de conquistar o primeiro emprego, entrar na universidade e alcançar a tão sonhada independência. No entanto, um dado recente do Banco Central me chamou a atenção e acendeu um alerta vermelho para nós, educadores e gestores. A idade média em que o brasileiro inicia seu relacionamento com o sistema financeiro caiu drasticamente nas últimas décadas, chegando a apenas 20 anos de idade em 2024.

Hoje, os jovens entram no mercado financeiro muito mais cedo. Mas será que estão preparados para isso?

O Relatório de Cidadania Financeira 2025 nos mostra que estamos diante de uma faca de dois gumes, que expõe tanto o brilho do acesso quanto o peso da inadimplência. Não podemos negar que a facilitação do crédito democratizou o consumo e fomentou a nossa economia. Nos últimos oito anos, o número de jovens de 15 a 29 anos com acesso a crédito no Brasil deu um salto impressionante de 101%, passando de 13,7 milhões em 2016 para 27,6 milhões em 2024.

Essa expansão tem um papel inegável como motor econômico. Ter acesso ao crédito significa, na prática, que o jovem pode parcelar um curso profissionalizante, comprar um computador para estudar ou dar os primeiros passos para empreender. O crédito, aliado às inovações digitais, insere a juventude no mercado e promove uma autonomia financeira que as gerações passadas demoravam muito mais para conquistar.

O problema surge quando esse limite de crédito pré-aprovado encontra uma geração com graves lacunas de educação financeira de base. A falta de preparo transforma a facilidade em uma armadilha, e os dados do relatório são muito claros: os jovens são, hoje, os mais inadimplentes do Brasil quando comparados a adultos e idosos. Entre aqueles que ganham até dois salários mínimos, 17,4% terminaram 2024 no vermelho.

O grande vilão dessa história já é um velho conhecido das famílias brasileiras: o cartão de crédito. Dos 17 milhões de jovens que o utilizaram para compras à vista, impressionantes 13 milhões (cerca de 79%) acabaram recorrendo ao rotativo ou ao parcelamento com juros.

Sem planejamento, a facilidade de um clique vira uma bola de neve. O jovem paga o ‘mínimo’ da fatura sem ter a real dimensão do custo desse dinheiro, caindo nas taxas do crédito rotativo que fecharam 2024 na assustadora média de 430% ao ano.

O impacto disso vai muito além da matemática financeira; ele corrói a saúde mental e o planejamento de vida. O mesmo documento do Banco Central aponta que as preocupações financeiras são motivo de estresse dentro de casa para 49% das famílias e chegam a prejudicar a saúde de 45% delas.

Como diretor de programas sociais, vejo na prática como a ansiedade de uma dívida asfixia as perspectivas de quem está apenas começando a vida adulta. Onde falhamos e o que podemos fazer?

A verdade é que estamos entregando uma ‘ferramenta de alta potência’ nas mãos da nossa juventude sem o devido ‘manual de instruções’. Nossos jovens apresentam um baixo desempenho global em letramento financeiro, ficando em 12º lugar dentre os 14 países avaliados no exame do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa).

A inclusão financeira não se atinge apenas distribuindo cartões ou abrindo contas pelo celular. É preciso discutir a qualidade dessa inclusão. Para que o mercado seja verdadeiramente justo, a oferta de crédito por parte das instituições financeiras deve ser transparente, responsável e adequada ao perfil e à capacidade de pagamento de cada cliente.

Como professor e cidadão, reitero que a saída passa, obrigatoriamente, por levar a educação financeira para dentro das escolas, dos projetos comunitários e da rotina das famílias. Precisamos ensinar a lógica por trás dos juros, a importância do orçamento e o perigo do consumo por impulso.

Só a educação é capaz de garantir que o acesso ao crédito seja uma ponte sólida para o futuro da nossa juventude e não uma âncora que a afunde antes mesmo de sua decolagem profissional.

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