Uma música sobre a vinda dos Rolling Stones
Zé Paulo Panegossi eterniza a visita (em 1969) com 'Stones em Matão'
Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão
· Leitura de 5 min
Foto: Tatiana Paiolo

José Paulo Gandini Panegossi compôs uma música para resgatar a passagem de dois integrantes da lendária banda britânica The Rolling Stones por Matão, fato ocorrido em janeiro de 1969, quando Mick Jagger, Keith Richards, suas duas mulheres na época (Marianne Faithfull e Anita Pallenberg), Nicholas (filho de Jagger e Marianne, com três anos) e a babá da criança estiveram na sede da Fazenda Boa Vista.
‘Stones em Matão’ integra um trabalho que o guitarrista, cantor e compositor matonense prepara. A música foi lançada como ‘single’, ou seja, é partilhada de forma exclusiva. O lançamento dela ocorreu no último dia 22, no programa ‘Nosso Som’, apresentado por Cleber Dantas na Saudades FM, todo domingo, há 34 anos.
A música também está disponível por ‘streams’ (transmissão contínua de áudio e vídeo via internet). Sobre o processo criativo, a divulgação e a expectativa com relação à sua música, A Comarca entrevistou Zé Paulo.
Quando você soube que os Stones estiveram em Matão?
Quando comecei a me interessar por rock’n’roll, em 1982, minha tia Maria Aparecida Ortiz Gandini, a Tia Cida, me relatou que tinha encontrado dois Rolling Stones e suas companheiras comprando pomada para se recuperarem de queimaduras solares, na Farmácia Central, então propriedade do saudoso Walter Cicogna. Ela me disse que eles estavam cobertos por lençóis – devido às queimaduras – e isso chamou bastante a atenção dela e das pessoas que estavam na farmácia. No começo da década de 1990, outro tio, o saudoso Antonio Carlos de Oliveira Bueno, me contou que viu Mick Jagger e Keith Richards tentando subir numa moita de bambus, mas eles escorregavam e caiam em gargalhadas. Outros relatos se sucederam ao longo dos anos.
Como surgiu a vontade de fazer esta música para registar a vinda deles?
Há depoimentos, há matérias, entrevistas, videodocumentário sobre a vinda deles a Matão. Não havia uma música.
E quando você começou essa composição?
No começo desse ano, iniciei um trabalho musical, um disco, que terá de dez a 12 músicas. No meu álbum ‘Nas Ruas’, lançado em 2011, fiz homenagem ao nosso rio, com a música ‘São Lourenço River’, que será regravada neste novo trabalho. Também decidi me expressar mais sobre fatos e pessoas de Matão. É nesse contexto que desenvolvo este novo disco. A primeira música que ficou pronta foi ‘Stones em Matão’.
Como foi o processo criativo?
Foi complexo, porque tive que sintetizar de forma bem direta e poética, de uma forma alegre. Pensei num blues com elementos de country e até um pouco de forró num ‘bridge’, uma ponte que liga estrofe e refrão, porque soube que eles fizeram uma festa junina numa das noites, ao redor da piscina da sede da Fazenda Boa Vista. Fiz a música em duas semanas e a gravei no meu estúdio, o JP Records.
Por onde a música é divulgada?
Comecei no último dia 22, através do programa ‘Nosso Som’, na Saudades FM, apresentado pelo amigo Cleber Dantas. Na sequência, enviei para plataformas digitais, os ‘streams’, como Spotify, Deezer e YouTube Music. Para você entrar nos streams é necessário cumprir requisitos, como originalidade, ineditismo e boa qualidade sonora. A música ‘Stones em Matão’ está nos streams.
Além de ‘Stones em Matão’, você já tem trabalhos divulgados nos streams?
Sim, o disco ‘Nas Ruas’, assim como os singles ‘Nos encontramos lá’ – feita em parceria com João Carlos Cicogna Paiolo (Ju Paiolo) –, ‘Olhos Azuis’, ‘Rodovias’ e a instrumental ‘Noites Urbanas’.
Qual a repercussão da música?
No ‘Nosso Som’, o Cleber afirmou que recebeu, via WhatsApp, muitas comunicações de Matão, da região e até de outras cidades do país. Quem ouviu a música, a elogiou para mim.
Qual a sua expectativa com relação à divulgação da música?
Espero que ela consiga abranger a maior quantidade possível de pessoas, contando um fato histórico, de maneira poética, tentando convencer pessoas que ainda duvidam. Tanto que uso o verbo ‘jurar’ três vezes na música.
Tua música sobre a vinda dos Stones tem situações reais e imaginárias.
Sim. Um dos exemplos é que a letra traz a informação de que eles vieram de trem para Matão. Não vieram. Contudo, o simbolismo do trem está afeto ao blues, ao interior do Brasil, no caso o ‘Grande Mato’, que é a nossa Matão. Outro aspecto é a musicalidade da palavra ‘trem’ e o seu encaixe no verso da música. Há outras situações imaginárias, como a parte do taxista, ‘que jurou que era banda de rock estrangeiro aqui no sertão’. Por outro lado, também usei fatos reais, como a criação em Matão da música ‘Honky Tonk Women’ e o uso da guitarra reafinada em acorde aberto como a viola caipira.
Como você sentiu essa música que fez para a memória da estadia dos Stones em Matão?
Me senti realizado. Sinceramente, me emocionei durante a composição da letra e o processo de gravação e interpretação vocal. Consegui, de uma forma direta, enfatizar um grande fato histórico.
‘Stones em Matão’
(Zé Paulo Panegossi)
Dizem que um dia o trem parou no grande mato em pleno verão
Desceu um bando de inglês perdido com cara de quem era confusão
Taxista jurou que era banda de rock estrangeiro aqui no sertão
Levaram direto para Boa Vista, fazenda de bacana chão de chão
Foi quando os Stones vieram pra Matão
Viraram a noite bagunçaram o quarteirão
Na Boa Vista ninguém dormiu, não
Na terça-feira parecia um carnaval fora de estação
Na sala pequena móvel rangendo, vitrola chiando e o copo entornando
Cerveja morna em garrafa marrom, cigarro na mão, riso voando
Velha da esquina fazendo sinal, padre fingindo que não viu nada
Mas, lá na rua o povo se juntou pra ver gringo dançar moda de guitarra reafinada
Foi quando os Stones vieram pra Matão
Viraram a noite bagunçaram o quarteirão
Na Boa Vista ninguém dormiu, não
Na terça-feira parecia um carnaval fora de estação
Teve gente dizendo que era pecado, teve gente jurando que era salvação
A cidade pequena nunca mais foi igual depois de ‘Honky Tonk’ no seu quintal
Foi quando os Stones vieram pra Matão, viraram história, viraram canção
Na Boa Vista o tempo parou então e até o hoje o povo jura que viu rock sacudir Matão
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