HOMENAGEM: O homem que inventava - e não era só histórias
POR SAMANTA TREVISAN COELHO
Fonte: Samanta Trevisan Coelho, postado por Natali Galvão
· Leitura de 4 min
Foto: Acervo A Comarca

Um nome forte, raro, quase inusitado. Quantos Milones existem? Pouquíssimos. E isso combinava com ele. Não havia outro igual. E não haverá. Por curiosidade, fui buscar o significado do seu nome. E, de alguma forma, tudo fez sentido.
Milone: o gracioso, o amado e o forte – o vigoroso, pela sua raiz histórica. O nome Milone tem origem italiana, derivado do latim Milo / Mil?, que por sua vez vem do grego antigo e está relacionado a Milo de Crotona, um dos atletas mais famosos da Grécia Antiga, conhecido por sua força, disciplina e resistência.
E ele era tudo isso mesmo. No jeito de contar histórias, nas piadas fora de hora, nas tiradas inesperadas que arrancavam riso antes mesmo da gente entender completamente. Havia leveza nele. Uma leveza que não ignorava a vida, mas que sabia atravessá-la.
Aliás, suas histórias eram a marca registrada – e que pena eu não ter documentado como elas mereciam. Tantos personagens desconhecidos que, graças à sua habilidade, eu tranquilamente conseguiria descrever ou identificar na rua.
Mas, no caso dele, inventar histórias nunca foi o suficiente. Ele inventava coisas. Dava jeito em tudo. Era um engenheiro sem diploma, mas com uma lógica própria que muitas vezes chegava mais rápido às soluções do que qualquer teoria. Sempre havia uma saída, mesmo que improvável, construída ali, na hora, com o que estivesse disponível.
Era também conhecido pelo cuidado quase obsessivo com os carburadores que ajustava. Afinava cada peça com precisão milimétrica, ouvindo o motor como quem escuta uma história, atento a cada detalhe até tudo encontrar o seu ponto exato. Nada era feito de qualquer jeito.
E talvez nenhuma dessas soluções represente melhor quem ele foi do que o jipe que construiu.
Sim, meu avô – além de muitas outras engenhocas, como um elevador e um barco – fez um carro.
De um motor de Fusca (se não me engano, ou de algum outro VW), uma lataria abandonada em ferro-velho, um painel de Fiat 147, um chassi de DKV e inúmeras outras peças, ele fez o seu próprio protótipo de um DKW-Vemag Candango, um jipe robusto produzido no Brasil entre 1958 e 1963, baseado no modelo alemão DKW Munga. Teve cerca de 5 mil unidades produzidas e hoje é considerado um item raro de coleção – além dessa versão, única, criada por ele.
Um carro barulhento, de mecânica peculiar, nada de 4x4 como o original, com uma buzina que funcionava conectando dois fios e um jeito único de existir.
O motor fica atrás. O porta-malas, na frente, se você for olhar lá hoje, talvez ainda guarde um galão extra de gasolina e algumas estopas. Aliás, eu nunca vi um carro com tanta estopa.
Cada detalhe foi pensado por ele. Cada peça, construída com as próprias mãos, muitas vezes depois do expediente, em noites, finais de semana, meses e anos de dedicação. Testes, erros, ajustes, novas tentativas e pequenas voltas no quarteirão para comemorar cada avanço.
O jipe não foi feito para velocidade, mas para a felicidade. Quem dirigia aprendia rápido que era preciso entender o carro: segurar o volante do jeito certo, compensar na freada, aceitar que o marcador de combustível podia falhar e que, por isso, o galão extra sempre fazia parte do plano.
Foi com esse carro que empurrei, que ri, que passei raiva, que fiquei na rua sem gasolina mais vezes do que consigo contar. Foi com ele que aprendi a pegar no tranco. Nossa, quanta memória ali.
Chamava atenção por onde passava, pela estética ousada, pelos detalhes únicos, pela capota pesada feita à mão, pelos raios pintados nas portas que abriam ao contrário. Mas, mais do que isso, chama atenção pela história que carrega.
Aquele carro não é só um carro. Ele ainda existe, tem documento – óbvio, já não paga mais IPVA – mas está na ativa. E talvez seja isso que mais impressiona. Não apenas porque continua inteiro, mas porque continua carregando tudo o que ele colocou ali: tempo, esforço, ideia, insistência.
Existe um plano. Um sonho que sempre foi dele e agora é nosso: levar esse carro para o Guarujá. Vamos fazer isso acontecer. Porque algumas histórias não terminam. Elas continuam rodando. A dele chegou ao fim aqui neste plano. Mas foi linda, com muitos quilômetros, e seguirá reverberando em cada estrada da vida que pegarmos.
Meu avô viveu 93 anos, com um sorrisão no rosto. Foi ele quem me ensinou, sem dizer, que sempre existe um jeito.
Estamos por aqui, cuidando de tudo, especialmente da D. Ivone, com quem viveu mais de 60 anos dessa vida feliz. Suas sete mulheres (Ivone, Marly, Elaine, Andrea, eu, Samara e Salete) sentirão sempre sua falta e agradecem o carinho de todos que estiveram por perto nesses últimos meses, seja cuidando dele ou segurando nossa mão. Tudo sempre fez a diferença, assim como sei que ele fez a diferença na vida de muita gente.
Merci beaucoup para cada “quar”, Vô lindo! Descanse em paz!
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