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Pastoral da Sobriedade completa 18 anos de atuação em Matão

Desde 2008, iniciativa ligada à Igreja Católica atende dependentes e codependentes químicos

Fonte: Natali Galvão - free lancer, postado por Natali Galvão

· Leitura de 5 min

Foto: Natali Galvão

Na Vila Pereira. Reuniões na Sala de Catequese da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro acontecem às terças-feiras
Na Vila Pereira. Reuniões na Sala de Catequese da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro acontecem às terças-feiras

A Pastoral da Sobriedade de Matão completou, neste mês de janeiro, 18 anos de atuação no acolhimento e na recuperação de pessoas em situação de dependência química. Fundada em 2008 por Maria Inês Furtado André, a Pastoral surgiu a partir de uma experiência vivida fora da cidade e, ao longo dos anos, consolidou-se como um importante apoio para dependentes e codependentes químicos.

A história dessa Pastoral em Matão começou quando Maria Inês conheceu o trabalho desenvolvido na Paróquia Imaculada Conceição, em Catanduva, por meio do padre Osvaldo Rosa e do agente da Pastoral da Sobriedade, Alcides Franco. Encantada com o Programa de Vida Nova, baseado em 12 passos, ela teve a ideia de trazer a iniciativa para Matão.

Maria Inês procurou o então pároco da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Vila Pereira), padre Sérgio Paravani, a quem apresentou a proposta. “Ele disse que, se houvesse algo na nossa Diocese sobre a Pastoral da Sobriedade, me avisaria”, lembra. Menos de um mês depois, a paróquia recebeu um convite para conhecer a Pastoral da Sobriedade em um encontro diocesano realizado em São Carlos.

Maria Inês participou da reunião, o que reforçou sua ideia de implantar o trabalho em Matão. Com a autorização do padre Sérgio, a primeira reunião ocorreu em 9 de janeiro de 2008 com o apoio das pastorais de Ibitinga e Tabatinga. Posteriormente, Maria Inês realizou o curso de agente da Pastoral da Sobriedade, o que a capacitou para seguir à frente do trabalho até os dias atuais.

A motivação para iniciar a Pastoral, segundo a fundadora, surgiu da necessidade de lutar pela vida de pessoas que sofriam com a dependência do álcool e das drogas, realidade que também estava presente em sua própria família. No início, o principal desafio foi encontrar voluntários dispostos a se comprometer com o Programa de Vida Nova (método utilizado).

Com o passar dos anos, a Pastoral se expandiu, ganhou reconhecimento da comunidade e passou a ser respeitada também por órgãos públicos. Entre os momentos marcantes dessa trajetória, Maria Inês destaca a atuação no Horto de Silvânia e a condução da Novena de Natal na Praça da Vila Pereira, experiências que fortaleceram a missão e o vínculo com a população.

Atualmente, a Pastoral atende a diversos tipos de dependência química – como álcool, tabaco, drogas e medicamentos –, além de dependência comportamental – jogos, compras e internet – e dependência emocional. O acompanhamento ocorre por meio de reuniões semanais, em formato de grupo de autoajuda, com orações, reflexões e partilhas em ambiente sigiloso.

AS REUNIÕES

Os encontros acontecem às terças-feiras, às 20 horas, na Sala de Catequese da Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (Vila Pereira), e às quintas-feiras, no mesmo horário, na Paróquia Santa Luzia (Jardim Popular). Além do dependente, a Pastoral envolve ativamente os familiares – codependentes –, considerados parte fundamental do processo de recuperação.

Cerca de 30 pessoas são atendidas atualmente. A espiritualidade, conforme explica a fundadora, é um dos pilares do trabalho, assim como o acolhimento sem julgamentos, inclusive nos casos de recaída, entendida como parte do processo. A Pastoral também realiza visitas domiciliares, acompanhamento individual quando necessário e encaminhamentos para comunidades terapêuticas. Embora ligada à Igreja Católica, a iniciativa acolhe pessoas de outras religiões.

Ao celebrar 18 anos de atuação, Maria Inês ressalta a fidelidade e o sustento de Deus ao longo da caminhada e aponta como principal desafio atual a falta de perseverança e de novos voluntários. “A messe é grande, mas os operários são poucos”, resume. A comemoração do aniversário da Pastoral foi marcada por uma Missa em Ação de Graças, na Paróquia Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, seguida de confraternização na Área de Lazer dos Comerciários, ambas realizadas no último dia 11.

A mensagem final deixada pela fundadora é de esperança. “A dependência química é frequentemente vista como falha de caráter ou falta de força de vontade, e não como uma doença reconhecida pela medicina. Para quem enfrenta a dependência, o primeiro passo é admitir a necessidade de ajuda e acreditar que tudo pode ser transformado pela fé. Aos familiares, a orientação é de terem coragem para enfrentar a realidade sem desespero, mas com amor”, conclui Maria Inês.

RELATOS

O impacto do trabalho desenvolvido ao longo dessas quase duas décadas pode ser percebido nos relatos de quem encontrou um espaço de acolhimento e transformação. “A Pastoral da Sobriedade apareceu na minha vida em 2010, no momento em que eu estava passando por dificuldades para entender o problema do vício em drogas e como ele afeta a família. Eu tinha muita vergonha de saber que tinha um marido dependente químico e não sabia lidar com a situação. A Pastoral veio me mostrar que a minha família não era diferente de muitas outras que passavam pelo mesmo problema”, relata Eliana Franhan, agente da Pastoral da Sobriedade.

“A Pastoral me ensinou a conviver com essa realidade de uma forma mais leve, sabendo que há sempre uma solução para a nossa vida, porque Deus nos segura nos momentos de aflição e nos ajuda a levantar e enfrentar os problemas do dia a dia. A nossa Pastoral é uma família; um sempre apoia o outro nos momentos difíceis. Quando muitos se afastam, a Pastoral nos acolhe. É um grupo de apoio no qual sabemos que podemos conversar, desabafar e partilhar nossas dificuldades sem medo e sem constrangimento, porque todos ali passam pela mesma dificuldade. E quando estamos juntos, podemos mais”, completa.

Marilene Rodrigues Bastos relata que a Pastoral da Sobriedade teve papel fundamental em um momento difícil vivido por sua família, marcado por problemas de dependência química envolvendo o cunhado e, posteriormente, o irmão. Com o acompanhamento e o acolhimento oferecidos, ela conseguiu compreender melhor essa dependência como uma doença. “Meu cunhado, que participou da Pastoral por muitos anos, está sóbrio há mais de três anos. Meu irmão está se encontrando e está muito bem”, disse.

Participante desde 2023, ela destaca que a Pastoral a ajuda a lidar também com suas próprias dificuldades emocionais. “O espaço de partilha, reflexão e vivência contribui para tratar meu Transtorno de Ansiedade Generalizada; além disso, o trabalho voluntário que faço na Pastoral deu novo sentido à minha vida. O acolhimento sem julgamentos é determinante para a superação das dores familiares. A Pastoral continua sendo uma presença constante de apoio e transformação”, conclui Marilene.

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