ARTIGO - Um horizonte de modernização para a indústria de Matão
POR WALTER BALDAN FILHO
Fonte: Walter Baldan Filho, empresário e diretor titular do Ciesp-Matão, postado por Natali Galvão
Foto: Divulgação

O início de 2026 marca um ponto de inflexão histórico para a indústria brasileira. Após mais de três décadas de negociações, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia deixa de ser uma promessa diplomática para se tornar uma realidade operacional. Mais do que uma mudança tarifária, este avanço representa um convite definitivo à modernização da base produtiva nacional com impactos diretos sobre polos industriais estratégicos como Matão.
A relevância do acordo é sustentada por números que não permitem hesitação. A União Europeia consolidou-se como o maior investidor estrangeiro no Brasil e como o segundo principal parceiro comercial do país. Para a indústria, esse capital representa acesso à tecnologia, infraestrutura e integração produtiva. Do outro lado, o bloco europeu enfrenta desafios demográficos, além de uma demanda crescente por segurança alimentar e energética, o que torna o Mercosul um parceiro estratégico indispensável.
Estamos diante de um comércio baseado em previsibilidade e complementaridade de cadeias de valor. Esse cenário cria condições para que a indústria brasileira, especialmente os setores metalmecânico e agroindustrial, avance na agregação de valor e dispute mercados globais em patamares de igualdade técnica, e não apenas por custo.
Com a implementação gradual dos protocolos e a redução das barreiras alfandegárias a partir de 2026, a competitividade nacional passa a ser medida por uma nova régua. Estimativas de organismos internacionais indicam que o acordo pode gerar um incremento de até 2% no PIB brasileiro ao longo dos próximos anos. No entanto, é fundamental destacar: esse crescimento não será automático.
O acesso facilitado a um mercado de centenas de milhões de consumidores, com alto poder aquisitivo e rigor técnico, exige uma resposta interna à altura. O acordo não se limita à troca de bens. Ele abre caminhos para cooperação tecnológica, intercâmbio educacional e avanços em áreas onde Matão e região já demonstram protagonismo, como economia circular, eficiência energética e desenvolvimento de biocombustíveis.
Esta conquista é resultado de um esforço de Estado que atravessou diferentes governos e visões diferenciadas, sustentado pela resiliência técnica e pelo compromisso com a segurança jurídica. Ainda assim, o otimismo precisa ser pragmático. O custo Brasil, a burocracia e os gargalos logísticos seguem presentes. O acordo Mercosul–União Europeia não elimina esses entraves, mas oferece o ambiente de previsibilidade necessário para enfrentá-los com base em regras internacionais claras e parcerias globais sólidas.
A indústria de Matão, reconhecida por sua capacidade de inovação, robustez produtiva e forte conexão com o agronegócio, recebe esse novo cenário com a sobriedade de quem entende o valor do trabalho consistente. Não podemos nos limitar ao papel de exportadores de commodities. Temos agora as ferramentas para inserir nossos componentes, máquinas e produtos industrializados nas cadeias de valor mais sofisticadas do mundo.
O momento exige visão de longo prazo. Ao assumirmos esse compromisso com o futuro, garantimos que a indústria regional não permaneça isolada, mas integrada ao que há de mais avançado no comércio global. É hora de transformar vantagens comparativas em vantagens competitivas reais e consolidar Matão como um elo tecnológico, sustentável e estratégico nesta nova arquitetura comercial entre os dois continentes.
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