ARTIGO - A luta quixotesca de Lygia
POR JULIANO JACOPINI
Fonte: Juliano Jacopini, pós-doc e PhD em Artes da Cena; mestre em Educação, Linguagem e Arte; artista residente e produtor cultural da Casa Pipa e da Cia. Labirinto de Teatro, postado por Natali Galvão
· Leitura de 7 min
Foto: Rogério Bordignon

“Sonhar o sonho impossível; Sofrer a angústia implacável; Pisar onde os bravos não ousam; Reparar o mal irreparável; Amar um amor casto à distância; Enfrentar o inimigo invencível; Tentar quando as forças se esvaem; Alcançar a estrela inatingível. Essa é a minha busca”.
Dom Quixote de La Mancha – Miguel de Cervantes
Há algo de incômodo – e profundamente político – na ideia de uma luta quixotesca. Afinal, é virtude ou é sintoma? Talvez o quixotismo não seja uma qualidade a ser exaltada em si, mas a forma ética que emerge quando o mundo falha em garantir o que deveria ser direito. No campo da cultura, ser Quixote é insistir onde faltam políticas, recursos e reconhecimento; é sustentar o sonho não por ingenuidade, mas por responsabilidade. Lygia foi Quixote não porque acreditava em moinhos como gigantes, mas porque se recusou a aceitar um mundo onde a arte fosse tratada como ornamento e não como necessidade vital, e essa virada de compreensão foi fundamental para colocar essa Terra de Saudade em um lugar no mapa para além do agronegócio, das igrejas, do fundamentalismo: nossa Quixotesca abriu a brecha para a poesia ter lugar, afinal, essa terra é feito saudade alhures?
Conheci Lygia nos corredores da Escola ‘Henrique Morato’; ela, professora primária; eu, aluno que sonhava fazer teatro. O destino tramou um jeito de que eu não fosse seu aluno na sala de aula, mas seu aluno na vida, afinal, se tem passos que segui, foram os da Lygia. No contexto de minha pesquisa de doutorado, entrevistei-a, e ouvi uma narrativa de vida que, mais do que memória individual, revelou-se como uma verdadeira cartografia afetiva, desde a experiência da educação pública para uma escuta sensível que desemboca no compromisso com a democratização das dimensões culturais.
Nascida em Bragança Paulista e criada em Vargem, cidade aos pés da Serra da Mantiqueira, Lygia trazia da infância uma relação íntima com o imaginário, as histórias e o simbólico. Entre a soleira da casa da avó, os relatos bíblicos e populares contados pelo pai, o teatro improvisado de Dona Carmem e o cinema cuidadosamente editado pelo padre Eugênio, formou-se uma sensibilidade rara: aquela que reconhece, desde cedo, o poder da arte como experiência fundadora do humano. Foi professora por décadas e, na sala de aula, o teatro, a poesia, a mitologia, o jogo, não eram acessórios, mas caminhos pedagógicos centrais. Mesmo sem formação específica em Artes Cênicas, Lygia intuía o que muitos sistemas educacionais ainda relutam em reconhecer: que a arte forma pessoas mais críticas e sensíveis às diferenças e ao mundo. Sua prática, muitas vezes vigiada e incompreendida, foi, desde então, um ato de resistência cotidiana.
Essa inquietude guiou sua atuação junto ao saudoso Grupo Pegando N’Arte e à frente da política cultural de Matão, a partir de 1998, quando assumiu a Diretoria de Cultura do município, a convite de Adauto Scardoelli, prefeito à época. Em um contexto marcado por conservadorismo e disputas partidárias, Lygia abriu portas, ouviu artistas, criou conselhos, formou público, levou teatro, cinema e música às praças, às periferias, valorizou linguagens marginalizadas e apostou na cultura como direito, na máxima de Gilberto Gil, na “cultura como algo ordinário, e não extraordinário”, então, colocando-a no centro da discussão. Lutou, argumentou, convenceu e protagonizou sempre de cabeça erguida, com a bandeira da cultura em riste, porque foi por ela – pela cultura – que enxergou novos horizontes.
O caminhante se faz do caminho, o moinho se faz do vento, o Quixote se faz de luta, mas também de sonho, e talvez seja justamente no encontro com o Festival Fronteiras Brasil que a dimensão quixotesca da trajetória de Lygia se revele com mais nitidez – e com mais complexidade. Ao acolher a proposta de Khosro Adibi, artista multidisciplinar iraniano, Lygia reconheceu, desde o início, uma ética que lhe era profundamente familiar: a crença na arte como linguagem capaz de atravessar fronteiras geográficas, políticas, linguísticas e afetivas. Apostou no encontro entre vozes diversas, artistas locais e internacionais, na troca horizontal de saberes, na força do corpo e da presença como formas de comunicação anteriores à palavra e ao poder. Defendeu o ‘Fronteiras’ porque ele materializa aquilo em que sempre acreditou: a arte como lugar de partilha, de escuta e de transformação – mesmo quando isso exigia insistência, negociação e uma perseverança muitas vezes solitária. Nesse sentido, sua luta não foi delírio, mas responsabilidade diante de um mundo que insiste em tratar a cultura como exceção, e ainda na ousadia de deslocar o encontro de pessoas do mundo inteiro dos centros urbanos para uma cidadezinha do interior, esse algum lugar de saudade, essa Terra-Matão.
Daí o desdobramento que se tornaria símbolo maior de sua visão de mundo: a Casa Pipa – Plataforma Internacional de Produção Artística. Nascida da recuperação da antiga Escola da Boa Vista, prédio centenário que estava abandonado há mais de uma década, a Casa tornou-se espaço de formação, difusão, residência e resistência artística. Mantida pela Ong Ocara – associação que Lygia fundou –, através de concessão pública, é hoje Ponto de Cultura certificado pelo Ministério de Cultura da Rede de Cultura Viva do Brasil, e abriga a Cia. Labirinto de Teatro, além de ações de outros grupos e coletivos como o Grupo Coro e Osso e artistas independentes, de outras cidades e regiões, sendo, em Matão, o espaço cultural mais equipado da cidade, com salas de ensaio, marcenaria, dormitórios, refeitório, biblioteca, ateliês e um teatro (!) capaz de receber cerca de 110 pessoas. Em 15 anos de exercício passaram pela Casa Pipa mais de 200 apresentações artísticas de diversos lugares do mundo, firmando-a como polo cultural exponencial na América Latina. Ao definir a Casa Pipa como espaço de “residência e resistência artística”, especialmente necessário em tempos desesperançosos, Lygia deixou um testamento poético e político para que a arte siga alcançando voos cada vez mais altos com o desafio de que a linha não arrebente – porque é justamente essa linha tênue que sustenta o encontro, os múltiplos encontros.
Lygia foi diretora de cultura por 15 anos, durante gestões do Partido dos Trabalhadores, período em que a cultura em Matão conheceu continuidade, escuta e projeto. Sua partida acontece, no entanto, em um tempo paradoxalmente frágil: mesmo sob um governo progressista e após uma recente ascensão das políticas públicas culturais – como o Programa Teia (2022–2025), abruptamente interrompido, deixando mais de 50 fazedores de cultura sem trabalho –, o município permanece há seis meses sem Diretoria à frente da Pasta da Cultura. Esse vazio institucional não é detalhe administrativo; é sintoma. Talvez seja aí que a metáfora quixotesca se imponha com mais força. Como em ‘Dom Quixote de la Mancha’, o sonho insiste mesmo quando o mundo vacila, mas não deveria depender apenas da coragem solitária de quem se recusa a abandonar o campo. A morte de Lygia nos confronta com essa pergunta incômoda: até quando será preciso que a cultura sobreviva apenas pela obstinação de seus Quixotes? A pipa que ela idealizou lançar, as fronteiras que ela atravessou, as redes de afeto e criação, seguem se tramando, sustentadas por uma linha impalpável, invisível, pois, como ela mesma dizia, “não se pega a cultura com a mão”; ela – a cultura – é matéria-prima que constitui gente! E gente funciona em bando, especialmente para garantir que legados sejam perpetuados, já que desmontar políticas públicas também podem ser projetos; mas ideias... essas não morrem!
Durante sua despedida, ensejou-se um entrave final: quando Livia, sua filha, convidou todos os presentes para cantar uma ciranda – porque para Lygia tudo acabava em ciranda – sempre alguém insistia que o fim precisava ser uma oração: e foi ciranda; e foi pai-nosso; e foi lua branca; e foi pai-nosso; e findou-se, enfim, uma bendita ciranda! Tão difícil entender que quem canta reza duas vezes? Tão difícil entender que Lygia nos ensinou, preparou caminhos, formou pessoas, plantou sementes e nos deixou encorajados para seguirmos de cabeça erguida e cantar e sonhar e lutar mesmo que seja contra os moinhos de vento, mas lutar porque é indispensável a luta, e cirandar, e de mãos dadas porque não adianta nada, nem mesmo chegar aos céus, se for sozinho?
Lygia Nicolucci está em mim e em cada um de nós que acredita na cultura do interior paulista; que passou pelos ventos dos moinhos da Terra da Saudade. Seguimos seu sonho, porque é pelos sonhos que vamos!
"Tá caindo fulô, ê, tá caindo fulô
Tá caindo fulô, ê, tá caindo fulô
Lá do céu cá na terra, ê tá caindo fulô"
Para ler a entrevista com Lygia na íntegra, acesse a tese de doutorado de Jacopini ‘Teatro Horizontal’ (2018) em www.repositorio.unicamp.br
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