Beto Mastropietro viveu maior desafio
Ciclista matonense superou a Ultramaratona da Travessia do Deserto do Atacama, no Chile
Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão
· Leitura de 8 min
Foto: Acervo A Comarca

No período de 2 a 9 de novembro, o ciclista matonense Roberto José Mastropietro participou da Ultramaratona de Mountain Bike da Travessia do Deserto do Atacama (Chile). O ‘Super Beto’ se superou como nunca em cima de uma bicicleta e conquistou o terceiro lugar na categoria Master Acima de 60 anos.
Foi a melhor colocação nesta faixa etária de um ciclista latino-americano na sétima edição anual da ultramaratona. Em segundo lugar chegou o espanhol Santiago e, em primeiro lugar, o italiano Rafaelli. No geral, o desafio reuniu 77 ciclistas de 18 países, pedalando da cidade de Calama, na Cordilheira dos Andes, até Mejillones, no Oceano Pacífico.
“É a prova de ciclismo que ocorre na maior altitude entre todas as disputadas no planeta, sendo que 5.700 metros podem ser atingidos no Vulcão Sairecabur, no qual atingi 4.700 metros. Para se subir no vulcão, a tradição é deixar uma oferenda na base de uma cruz, para receber a permissão do vulcão e fazer o trajeto com segurança”, comenta Beto Mastropietro, que enfrentou temperaturas extremamente frias, chegando a seis graus negativos (-6º C).
No total, para quem optou por subir ao Sairecabur, foram 650 quilômetros em seis dias de competição. O dia 2 foi reservado para reconhecimento de 40 quilômetros do Atacama e o dia 9 marcou o encerramento do evento que, segundo os ciclistas, é realizado no local mais difícil do planeta para se pedalar, considerando os lugares onde as provas ocorrem. Sobre a extraordinária façanha do ‘Super Beto’ em cima da bicicleta Specialized, A Comarca o entrevistou.
Como chegou a informação desta ultramaratona?
Assisti a um vídeo pelo YouTube, por acaso, no dia 7 de janeiro. No mesmo momento, tive vontade de participar dessa ultramaratona no Chile e pedi para minha esposa Angela pesquisar. Ela conseguiu o contato do diretor da prova, Christian Téllez, que passou todas as informações pelo WhatsApp. Fiz a inscrição no dia 26 de junho.
Houve uma preparação especial?
Me preparei muito para essa prova! Pedalei 19 mil quilômetros de 7 de janeiro a 28 de outubro, me esforçando em todas as subidas que percorri em nossa região, atingindo velocidades maiores nelas. A nutróloga Laíza Martucci mudou a minha alimentação e minha suplementação antes, durante e após os esforços físicos. A cardiologista Adriana Bellini também acompanhou os exames durante todo esse período da minha preparação. Outro ponto muito importante foi o apoio da Angela, pois, além de sempre me ajudar, ela atendeu minha solicitação para que nossos familiares não soubessem. Dissemos que eu iria participar de um pedal com amigos e demoraria uns dias a mais.
E foi parar no meio do Deserto do Atacama.
Fui! Com a Angela muito aflita. Ela montou um altar em casa e acendeu uma vela em todas as vezes que saí para pedalar na ultramaratona. Cheguei a telefonar pra ela de madrugada para informar que tinha concluído mais uma etapa e que estava tudo bem. Isso tranquilizava em meio ao silêncio, às orações, enfim, deixava a Angela menos angustiada.
O que aconteceu no dia 2 de novembro?
Cheguei lá no dia 30 de outubro e, por três dias, fui fazendo amizades e adaptações ao ar rarefeito. No dia 2 de novembro, fizemos o reconhecimento de um trecho de 40 quilômetros do Deserto do Atacama, na cidade de Calama, de onde partimos a 2.400 metros acima do nível do mar. Já foi assustador, porque passamos por estradas que sequer em filmes eu vi. Ali já nos deparamos com areião, pedras, ‘costelas de vaca’, valetas e outros entraves. Mas isso só me motivou mais.
Estes 650 quilômetros foram divididos em quantas etapas?
Em seis etapas, com variação de 40 a 134 quilômetros, repletas de subidas íngremes, rios, encostas de montanhas com areia fofa, cânions e outros desafios perigosos. Percorremos trechos surpreendentes! Teve ciclista que quebrou dentes e outro que fraturou a clavícula.
Qual foi o momento mais difícil?
Ao longo das etapas, fomos aconselhados a mastigar folha de coca para suportar a pressão atmosférica e o ar rarefeito. Subir o Vulcão Sairecabur e atingir 4.700 metros com frio de 9º C a 10º C, falta de oxigênio no organismo e muito vento foi muito difícil. No entanto, o desafio mais extremo foi percorrer os 100 quilômetros da quinta etapa, entre Maria Helena e Chacabuco. Essa jornada começou às 16 horas e foi percorrida na sua maior parte à noite, com temperatura negativa de -6º C. Tive algumas variações na minha consciência, mas sabia que não podia parar, porque poderia sofrer hipotermia. Fiz amizades com dois brasileiros – Matsuda e Aílton – e com uma uruguaia, Nancy. Disse a eles que, se fosse necessário, pararíamos e nos abraçaríamos para nos aquecer. No entanto, não paramos! O tempo todo, eu os motivava – para motivar a mim mesmo! – a não parar de pedalar. Foi a forma que encontrei para não desistir! Seguimos adiante. Foi alucinante! Após percorrermos 73 quilômetros, atingimos um frio cortante. Não senti as minhas mãos e os movimentos do corpo se reduziram! Mais ou menos na altura dos 79 quilômetros, encontramos a ambulância com médico e enfermeiro, que deram mantas térmicas para meus três amigos; eu preferi colocar luvas cirúrgicas nas mãos e uma bandana para proteger o rosto. Este frio de -6º C nos acompanhou por toda a etapa, aumentando nos últimos quilômetros até o check point final, onde descemos das bicicletas e entramos numa caminhonete de apoio para nos aquecer. Eram 3h30, em plena madrugada... Foi a mais bruta das etapas! Vivemos o terror!
A última etapa foi a mais extensa?
Sim. Começamos a descer 15 quilômetros a partir de Chacabuco, segurando no freio, num terreno de muitas pedras, muito propício a tombos. Depois, há a parte plana, rumo ao Oceano Pacífico, numa estrada menos problemática, mas extremamente cansativa, porque o Pacífico ainda estava muito longe. Foram 134 quilômetros muito desgastantes nesta última etapa, sendo que estávamos extenuados.
E como foi a alimentação?
Deram quantidades generosas de comida, mas nem tudo eu sabia o que era, porque era uma alimentação variada e típica daquela região. Numa situação, perguntei o que eu iria comer e me responderam que era carne; porém, até agora não sei de qual animal era. Suspeito que foi carne de lhama. O sabor foi agradável. O que mais me sustentou foi o pão com omelete no café da manhã.
Onde vocês dormiam e tomavam banho?
Na maioria das noites, em barracas, revestidos por sacos de dormir. Também dormimos em galpões, em camas que pareciam aquelas usadas pelo exército. Nunca tomei tantos banhos gelados... cheguei a perder o fôlego! Deixei de tomar banho duas vezes.
Os desafios aproximaram os ciclistas?
Sem dúvida. Com o passar das etapas e as dificuldades aumentando, nos aproximamos mais. Eu, por exemplo, na terceira etapa, entre Calama e Maria Helena, parei para ajudar um uruguaio que tomou um tombo, mas não se machucou. A aproximação se torna mais forte porque um sabe que pode precisar do outro em determinado momento, pois o caminho é árduo para todos. Enfrentamos verdadeiras batalhas, todas superadas com muita união, reforçando a afirmação de que sozinho se chega mais rápido, mas em grupo se chega mais longe. Outro ponto a se destacar é o respeito que 70 homens competidores tiveram por somente sete mulheres que também participaram da prova.
É uma prova somente de resistência física? Como ela pode ser resumida?
É uma ultramaratona muito bem planejada e organizada por sua direção, com uma logística muito bem sucedida. A prova é um desafio extremo, que exige grande preparo físico e mental. Pedalar quilômetros intermináveis na imensidão do deserto proporciona uma sensação de liberdade e conquista, enquanto as condições adversas testam a determinação. O clima quente e seco durante o dia despenca para frio intenso à noite, exigindo muitos sacrifícios. É essencial estar em excelente forma física, muito bem concentrado, focado e com uma vontade inexplicável de querer concluir cada uma das etapas. No deserto, cada pedalada é narrativa de superação e cada respiração é testemunho da indomável vontade humana. A imensidão do deserto foi o maior desafio que enfrentei, repleto de obstáculos inimagináveis. Consegui me superar muito mais do que esperava. Fiquei muito feliz com o término de cada uma das etapas, pois concluí-las já era uma grande vitória. Não esperava que usaria tanto o meu poder físico para conseguir chegar ao final de cada uma das etapas. Cito uma frase que ouvi de um ciclista, que não me lembro o nome: “Não é apenas uma prova de resistência física, mas uma jornada de descoberta pessoal e superação”. O diretor da prova, Christian Téllez, também nos trouxe uma frase marcante: “Uma vez aqui, você nunca será o mesmo”. Eu sou prova viva dessa afirmação, pois tudo o que enfrentei lá me faz dar mais valor à vida. Essa experiência de autoconhecimento mudou muito o meu comportamento, o meu físico e meu modo de pensar. Agora, sou um ‘Espírito do Atacama’. Ganhei uma medalha com esta frase e tatuei a imagem desta medalha na minha panturrilha esquerda.
A quem agradecer?
À equipe do Atacama Spirits, liderada pelo diretor Christian. Muito obrigado à minha esposa Angela, aos meus saudosos familiares que partiram e, de alguma forma, me ajudaram de onde estão. Obrigado, sobretudo, à Deus!
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