Passagens de Lô Borges por Matão são relembradas
Ícone do Clube da Esquina, músico falecido no domingo (2) esteve na cidade em 1994 e 2024
Fonte: Natali Galvão - free lancer, postado por Natali Galvão
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Foto: Divulgação

A morte do cantor e compositor Lô Borges, aos 73 anos, no último domingo (2), em Belo Horizonte, trouxe à tona lembranças especiais em pessoas de Matão, cidade que o recebeu em duas ocasiões: a primeira, em 1994, no Pantheon, e a segunda, 30 anos depois, em 2024, quando o artista se apresentou em uma festa particular. Músicos e admiradores locais relembram, com emoção, momentos vividos ao lado de um dos nomes mais sensíveis e inventivos da música brasileira.
AILTON PONTES
Ex-sócio do Pantheon relembra o sonho realizado
“A música mineira sempre me cativou, especialmente o LP Clube da Esquina, parceria de Lô Borges com Milton Nascimento, que marcou um tempo de incrível riqueza musical. Quando comecei a trazer artistas para o Pantheon, eu sonhava em receber o Milton, o Lô e o João Bosco; o Bituca não veio, mas realizar o show do Lô, em 1994, foi um sonho. Consegui o contato do empresário dele e acertamos pessoalmente a vinda. O Pantheon tinha espaço para 400 pessoas sentadas, com ótima acústica, boa comida e um clima acolhedor. Lotamos a casa naquela noite. Lembro de um empresário que me perguntou se ele iria gostar e, no final, me abraçou dizendo que conhecia as músicas, mas não sabia quem era o Lô Borges – e ficou encantado. Depois do show, ainda nos encontramos outras vezes. Lô sempre dizia que nunca se esqueceria de Matão, porque aqui, da janela do Hotel Leiria, viu um disco voador e contou essa história no palco, arrancando risadas da plateia. Trazer Lô Borges foi uma realização profunda. Suas canções tocaram o coração de todos e, desde então, o Trem Azul me levou a Minas conhecer a famosa janela lateral do quarto de dormir”.
GERSON BRUNO
Músico fala da influência e da amizade
“Sempre acompanhei o trabalho dos artistas do Clube da Esquina, e todos eles influenciaram meu modo de compor, tocar e cantar. Lô Borges sempre foi uma referência, um resumo de tudo o que me inspira: a bossa nova, o samba, os Beatles e essa mistura única de poesia e harmonia. Suas melodias são surpreendentes, e muitas das minhas canções carregam algo dessa influência. Em 1994, eu era músico do Pantheon quando ele se apresentou lá. Os donos sabiam que eu o admirava e contaram a ele. Conversamos antes do show e, para minha surpresa, ele anunciou no microfone: ‘Quero dedicar este show ao Gerson’. Foi um momento inesquecível. Depois mantivemos contato pelo Orkut, e criamos uma amizade afetuosa. Para mim, o legado de Lô Borges é imenso. Tom Jobim, que gravou O Trem Azul, sabia o valor daqueles acordes e daquela poesia leve de Ronaldo Bastos. Quando eu soube da morte do Lô, senti tristeza, mas também serenidade. Ele deixou uma herança eterna – porque a arte, como ele mostrou, nunca morre. A vida passa, mas os sonhos, esses, não envelhecem”.
FERNANDO MACHADO
Corretor de seguros viveu um encontro inesquecível
“Em 2024, vivi uma das maiores surpresas da minha vida: Lô Borges cantou na festa dos meus 60 anos. Meu irmão Ricardo teve a ideia e minha esposa Dinah organizou tudo em segredo. A comemoração foi no espaço do Boi Brabo. Quando terminou um vídeo com fotos e lembranças minhas, Lô apareceu na tela me dando os parabéns e dizendo que viria me cumprimentar pessoalmente. Logo depois, ele entrou no salão e a emoção tomou conta de mim. Era um show intimista, só ele e outro músico ao violão, e parecia que cada acorde tocava minha história. Conversamos bastante no camarim e fiquei impressionado com sua simplicidade e gentileza. Ter o Lô Borges ali, tão perto, foi um presente que a vida me deu. Hoje, depois da sua partida, aquele momento tem ainda mais significado. Foi uma chance única de celebrar a música e a emoção junto a um artista que marcou gerações – e que seguirá vivo em cada canção”.
Elio Floriano destaca influência marcante
“Em 1980, eu morava em São Paulo e trabalhava como desenhista em um escritório de engenharia. Lá, o rádio ficava sintonizado numa emissora que só tocava MPB. Foi assim que comecei a ouvir Lô Borges, Beto Guedes, Fagner, Belchior e tantos outros. O disco A Via-Láctea, de Lô Borges, me marcou profundamente. No ano seguinte, influenciado por colegas de trabalho, aprendi a tocar violão – eles eram fãs dos Beatles, e eu fui juntando essa sonoridade à nova MPB. Nessa época, os barzinhos e as rodas de violão eram ‘febre’, e foi nelas que nasceram minhas primeiras composições, simples, mas cheias dessa influência. O Clube da Esquina se tornou nossa escola, com harmonias desafiadoras e letras poéticas. Sempre cantei Paisagem da Janela nos meus repertórios. Lembro que o Lô esteve em Matão, no Pantheon, nos anos 1990, mas não consegui ir. A obra dele sempre me acompanhou – é atemporal, emocionante e essencial. Quando soube da sua morte, senti um misto de tristeza e gratidão. A vida segue, e a chama precisa continuar acesa. Afinal, os sonhos não envelhecem”.
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