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Cidade

ARTIGO - Velocidade não pode mais custar vidas nas ruas

POR MARCELO MANCINI

Fonte: Marcelo Tadeu Mancini, arquiteto urbanista e mestre em Engenharia de Transportes, postado por Natali Galvão

Foto: Divulgação

Marcelo Mancini. "Não é por acaso que a velocidade é considerada o principal fator de risco no trânsito"
Marcelo Mancini. "Não é por acaso que a velocidade é considerada o principal fator de risco no trânsito"

As avenidas largas que cortam Matão nasceram em uma época em que se acreditava que o futuro das cidades estava em abrir espaço para os automóveis. O que foi visto como marca de progresso e modernidade acabou se transformando em verdadeiras rodovias urbanas, um convite à velocidade e vias de difícil travessia, sobretudo para crianças e idosos. Por outro lado, observe que nas ruas estreitas, o ritmo força os carros a trafegarem de forma mais lenta; já em avenidas largas, a sensação é de pista livre para acelerar. O desafio agora é adaptar e transformar essas vias, para que deixem de ser locais de acidentes e se tornem espaços mais seguros e humanos.

Segundo o Infosiga-SP, até 31 de julho de 2025 já foram registradas 9 mortes no trânsito em Matão, quase o total de 2024, quando ocorreram 11. Com os óbitos das últimas semanas, é provável que já tenhamos superado essa triste marca. Em termos proporcionais, a situação é ainda mais grave: a taxa de mortes em vias urbanas é de 20,25 por 100 mil habitantes, contra 7,69 no Estado de São Paulo. Ou seja, as ruas de Matão são 2,6 vezes mais letais que a média estadual. Na Europa, a política da Visão Zero parte de um princípio simples: nenhuma vida perdida no trânsito é aceitável. Para despertar consciência, as campanhas perguntam: “E se fosse alguém da sua família?”. Por isso é urgente encontrarmos ações que ajustem a questão da velocidade em nossas ruas. A largura das avenidas e o convite à velocidade são uma situação já posta, por isso mesmo, exige respostas imediatas, enquanto outras mudanças estruturais avançam no médio e longo prazo.

Não é por acaso que a velocidade é considerada o principal fator de risco no trânsito: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um pedestre atropelado a 30 km/h tem quase 90% de chance de sobreviver; a 50 km/h, essa chance cai para a metade; e a 70 km/h, o atropelamento tende a ser fatal. Esses números também ilustram a gravidade dos choques entre veículos, especialmente envolvendo motocicletas. Para enfrentar essa realidade, algumas medidas já consolidadas no mundo precisam ser adotadas por aqui, assim como algumas já anunciadas pela Prefeitura. São elas:

• Redução dos limites de velocidade, como diversas cidades pelo mundo têm adotado, onde áreas residenciais têm 30 km/h e avenidas principais, no máximo, 50 km/h.

• Radares educativos, medida eficaz para redução de velocidade na prática, que acabam funcionando porque doem no bolso. Devem ter sua arrecadação reinvestida em medidas para maior segurança no trânsito. Sair alguns minutos mais cedo para os compromissos será essencial.

• Blitz da Lei Seca, coibindo a combinação fatal de álcool e direção.

• ‘Dieta de vias’, conceito que reduz a largura das faixas de rolamento e reaproveita o espaço para dar mais segurança a pedestres e ciclistas, com medidas como travessias e cruzamentos elevados, alargamento de calçadas, ciclovias protegidas e lombofaixas. Muitas dessas mudanças podem ser feitas de forma simples e barata, apenas com pintura e sinalização.

Assim como no exemplo do combate à obesidade, não se resolve o problema afrouxando o cinto, mas mudando hábitos. Quanto mais a cidade se espalha, mais difícil se torna andar a pé, pedalar ou oferecer ônibus eficientes. A elaboração do próximo Plano Diretor pode ser a oportunidade para definir novas prioridades, como: criar uma cidade mais adensada, reduzir seu espalhamento e grandes distâncias, com ruas mais humanas, incentivo à caminhada e à bicicleta e melhorar o transporte coletivo.

Matão já tem muitas destas soluções em seu Plano de Mobilidade Urbana (PlanMob), aprovado em 2023 e válido até 2033. Ele prevê medidas que ajudam a distribuir melhor o espaço nas vias e a redução de velocidade com externalidades positivas, como sinalização com ciclovias integradas, calçadões e calçadas acessíveis, corredores verdes e reorganização do transporte coletivo. Em pesquisa feita com os matonenses em 2023 para o PlanMob, 58% apontaram a falta de calçadas adequadas, 51% pediram ciclovias e 43% denunciaram a insegurança para pedestres e ciclistas. Agora restam 8 anos para que o Plano avance em sua execução, e acompanhar esse prazo é fundamental, apresentando as metas e projetos através dos sites da gestão municipal para mudar a rota e poupar vidas já no futuro próximo.

Matão já tem as ferramentas. Cabe agora adotar medidas práticas para uma cidade mais humana e calma, escolhendo o caminho que priorize a vida em nossas ruas e avenidas.

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