ARTIGO - A arte de parar
POR JULIANO JACOPINI
Fonte: Juliano Jacopini, doutor em Artes da Cena (Unicamp), produtor cultural da Casa Pipa e artista da Cia. Labirinto de Teatro, postado por Natali Galvão
Foto: Divulgação

“Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros
Cai o rei de paus, cai, não fica nada!”
Ivan Lins e Vitor Martins
Na tumultuada arena da política, a ambição e? frequentemente louvada e a perseverança celebrada como a base do sucesso. No entanto, em meio a? busca implacável por poder e influência, existe uma virtude menos discutida, mas igualmente crucial: saber a hora de parar. Essa sabedoria, muitas vezes adquirida através da experiência e, às vezes, por meio de lições amargas, e? vital não apenas para políticos individuais, mas para a saúde do próprio processo democrático.
Parar para continuar! Porque de certa maneira – e falo do lugar de artista que ocupo na cidade há quase três décadas – e? preciso continuar o movimento artístico e cultural da cidade de Matão na guinada que ele catapultou dos últimos anos pra cá e essa força motriz e? civil. A nacionalização das políticas culturais com leis de fomento, como Paulo Gustavo e Aldir Blanc, levantou o estandarte da cultura a um nível que sua popularização extrapolou a ideia de que sua presença – da cultura – estaria apenas em grandes teatros, mas também na feitura cotidiana das bases comunitárias, na notoriedade dos mestres e mestras do saber. Daí que o desafio na contemporaneidade e? dessacralizar cânones convencionais enquanto no tempo e espaço abrem-se frestas para o que historicamente foi silenciado, e que muitas vezes nunca foi visto como cultura, mas que esta? impresso e carregado no corpo das pessoas, em sua maioria a? margem da sociedade: pretas, mulheres, indígenas, com deficiência, transsexuais. Uma cultura plural!
Durante nossa passagem pelo poder público – falo nossa porque estive diretor de Cultura junto a duas grandes companheiras de longa estrada: Simone Marcondes, ativista cultural e liderança comunitária; e Mabe? Henrique (in memorian) – mexemos com o mais plural que esteve ao nosso alcance, porque sabíamos que daí reverberaria a diferença, e ja? que por base democrática “Todos são iguais perante a lei” (art. 5º da Constituição de 1988), apostamos que pela diferença a beleza em suas dimensões éticas e estéticas também poderia se instaurar em um município interiorano do estado de São Paulo, que acompanha, inclusive, em sua trajetória política, uma coleção de cinco vitórias pelo Partido dos Trabalhadores, portanto, marcado por uma governabilidade progressista.
A Cultura foi uma bandeira hasteada em Matão, com força tamanha para construir e dar visibilidade para tanta gente: empregou mais de 50 artistas numa conquista pioneira com direitos trabalhistas garantidos em um programa de colaboração entre poder público e terceiro setor; lotou praças, bases comunitárias, espaços alternativos, ruas, com eventos, exposições, apresentações, festivais de arte populares para todos os gostos e famílias e idades; gerou debates críticos com escolas, centros de referência social e comunidades através de fóruns afirmativos de culturas marginalizadas; popularizou um prefeito metalúrgico, vindo do povo, que se identificava com ele quando apresentado ao lado de uma mulher preta e gorda e de um homem homossexual, com respeito, espelhados, porque isso e? representatividade: quando a população se vê – e se via, enfim – representada no outro. E isso não e? milagre, tampouco sorte. Isso e? muito trabalho de quem trabalha há quase três décadas com cultura em Matão.
As entranhas da máquina pública são surpreendentes e de repente, tudo muda, mesmo que tudo parece demasiadamente igual, muda.
Daí que manter uma adesão obstinada a uma estratégia falha, impulsionada pela pureza ideológica, pode corroer a confiança pública e partidos políticos também enfrentam esse desafio, especialmente quando se (es)forçam em darem as mãos. Um exercício reside em movimentar quando tudo parece inerte. Esse contexto exige uma bussola moral que priorize a integridade e o bem-estar de longo prazo da comunidade em detrimento da vantagem política de curto prazo.
Em última análise, também e? uma arte saber a hora de parar na política. O que não significa ser fácil, mas condiz com um testemunho de maturidade, humildade e uma profunda compreensão da natureza transitória do poder. Trata-se de priorizar princípios sobre posições, o serviço sobre o eu e o futuro, sobre os triunfos efêmeros de um momento. Em um mundo onde a longevidade política e? frequentemente o objetivo final, a coragem de se afastar, de mudar de curso, de retomar o lugar junto aos seus para lutar nas trincheiras pelos direitos outrora conquistados e? talvez o ato de liderança mais poderoso de todos. E? o reconhecimento silencioso de que a verdadeira medida de uma vida política não está apenas no que se alcança, mas também na sabedoria de saber quando o suficiente e? realmente o bastante. E sempre um ato coletivo.
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