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Cultura e Variedades

Revista Internacional de Espiritismo celebra 100 anos

Casa Editora O Clarim realizará evento comemorativo no próximo dia 15

Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão

· Leitura de 9 min

Foto: Rogério Bordignon

Equipe da Casa Editora O Clarim. Em pé: Cláudia Costa, Gabriel Antônio e Fabiana Siqueira; sentados: José Luiz Marchesan, Lúcia Helena Marchesan e Cássio Carrara
Equipe da Casa Editora O Clarim. Em pé: Cláudia Costa, Gabriel Antônio e Fabiana Siqueira; sentados: José Luiz Marchesan, Lúcia Helena Marchesan e Cássio Carrara

A Revista Internacional de Espiritismo (RIE) completará 100 anos de existência. No próximo dia 15, das 15 às 19 horas, será realizado um evento no auditório do Centro Espírita O Clarim para celebrar esta marca expressiva, que só comprova a sua importância e a magnitude de sua aceitação entre o público espírita. Destaca-se que o irmão da RIE, o Jornal O Clarim, continua ativo e completará 120 anos no próximo dia 15 de agosto.

Com transmissão ao vivo no canal do YouTube ‘TV O Clarim’, o evento contará com palestras de 50 a 60 minutos de Luciano Klein (de Fortaleza - CE), Artur Valadares (São Carlos) e Antonio Cesar Perri de Carvalho (São Paulo, Capital). Sobre o centenário da RIE, o também centenário Jornal A Comarca entrevistou José Luiz Alberto Marchesan (presidente do Centro Espírita O Clarim) e o jornalista Cássio Leonardo Carrara (editor-chefe da Casa Editora O Clarim). Além deles, a equipe da Casa Editora O Clarim conta com Lucia Helena Bambozzi Marchesan, Cláudia Helena Mendes Costa, Fabiana Cristina de Lima Siqueira e Gabriel Alves Antônio.

São 100 anos da RIE!

Cássio - Sim. Tanto a RIE como o Jornal O Clarim, seu irmão mais velho, deixaram ‘marcas’ no coração e nas memórias de muitos leitores ao longo dessas décadas, o tipo de conexão que só observamos com instituições ou atividades que conseguem reverberar as aspirações que temos no nosso íntimo, muitas vezes não expressas em palavras, mas sentidas verdadeiramente. Afirmo isso não como uma mera especulação que vise a um enaltecimento vazio. O próprio tema a que se dedica a revista – a Doutrina Espírita – exige que se estabeleça este vínculo mais profundo e comprometido com a nossa essência, com o nosso ser, com o objetivo do autoaprimoramento. Logo, o Espiritismo não nos convida a exaltações vazias, a endeusamentos; ao contrário, estimula ao trabalho e à renovação constante, com responsabilidade e comprometimento doutrinário. E estas sempre foram as bases que guiaram a trajetória da RIE, desde o seu número inaugural, em fevereiro de 1925, o que continua a cativar o seu público leitor.

Você também é testemunha da essência da RIE.

Cássio - Sim, pois pude e posso constatar isso ao longo destes últimos 13 anos dedicados a colaborar com a publicação, quando testemunhei incontáveis manifestações de carinho e reconhecimento de leitores e do movimento espírita, em diversas ocasiões, exaltando sobretudo o caráter pioneiro e a grande contribuição à difusão do Espiritismo dada por Cairbar Schutel. Contudo, Schutel, que entre outras denominações ficou conhecido como ‘Bandeirante do Espiritismo’, ainda que permanecesse espiritualmente ligado às atividades da RIE e de O Clarim, não poderia responsabilizar-se eternamente pelas publicações. Chega um momento em que é necessário ‘passar o bastão’ e delegar às futuras gerações o compromisso de continuidade do trabalho. E quantos não foram, ao longo dessas dez décadas, os tarefeiros que se dedicaram a honrar o propósito de Schutel, sem dúvida inspirados pelo exemplo ímpar de seu intimorato pioneiro, buscando humildemente seguir e honrar seus passos.

Algumas destas histórias foram destacadas num livro de sua autoria.

Cássio - A história de alguns destes igualmente valentes homens e mulheres, pude conhecer e compilar quando escrevi o livro ‘O Som da Nova Era: O Clarim e seus maestros’, publicado em 2018 para homenagear os 150 anos de nascimento de Schutel. Naquelas páginas e nesta, já me desculpando pela impossibilidade de citar todos que mereceriam lembrança, registramos a importância de Luís Carlos de Oliveira Borges (de Dourado - SP, admirador do trabalho de Schutel e que financiou a estrutura necessária para viabilizar a fundação do novo periódico), Ismael Gomes Braga, Severiano Ivens Ferraz, Watson Campello, José da Costa Filho, as irmãs Antoninha (presidente após Cairbar) e Zélia Perche, João Leão Pitta, o também centenário Wallace Leal Rodrigues, Joaquim Alves, Apparecido Onofre Belvedere, Laudicéia Tereza Torquato Lucca Belvedere, Lucia Helena Bambozzi Marchesan, Enéas Rodrigues Marques, Ivan Costa, os presidentes José da Cunha, Carlos Vital Olson e José Luiz Alberto Marchesan, assim como vários articulistas, sem os quais as sucessivas edições não seriam possíveis.

Que diretrizes devem nortear a imprensa escrita espírita?

Cássio - O capítulo 15 do livro ‘Conduta Espírita’, de André Luiz e Chico Xavier, traz as diretrizes do que deve entregar a imprensa espírita, cumprindo o seu papel para a edificação da humanidade. Cito, resumidamente, os pontos principais: escrever com simplicidade e clareza, concisão e objetividade, esforçando-se pela revisão severa e incessante; empregar com parcimônia e discernimento a força da imprensa, não atacando pessoas e instituições; selecionar atentamente os originais recebidos para publicação, em prosa e verso, de autores encarnados ou de origem mediúnica, segundo a correção que apresentarem quanto à essência doutrinária e à nobreza da linguagem; despersonalizar, ao máximo, os conceitos e as colaborações, convergindo para Jesus e para o Espiritismo o interesse dos leitores. A imprensa espírita cristã representa um veículo de disseminação da verdade e do bem. Nossos parabéns à Revista Internacional de Espiritismo. Que permaneça iluminando caminhos.

Como definir a RIE?

José Luiz - Eduardo Carvalho Monteiro, ilustre historiador espírita, na biografia ‘Cairbar Schutel, o Bandeirante do Espiritismo’, definiu a importância da RIE em um sucinto parágrafo: “Não diríamos ter sido mais um órgão de divulgação espírita no Brasil, mas a Revista Internacional de Espiritismo foi, na realidade, um capítulo todo da história do Espiritismo, já que representou um marco na proclamação das virtudes da nova Doutrina em seu tríplice aspecto: religioso, científico e filosófico”. Cássio Leonardo Carrara, jornalista e editor contemporâneo da RIE, em seu livro ‘O Som da Nova Era: O Clarim e seus maestros’, complementa esta assertiva ao refletir que a RIE “de fato tornou-se uma das revistas mais respeitadas no meio espírita, tanto por sua tradição – pois foi fundada em 1925 – como pela qualidade e profundidade de seus textos, expandindo o conteúdo religioso para explanações filosófico-científicas. Sua fundação veio complementar o propósito do Jornal O Clarim, que se destinava a esclarecer didaticamente pessoas mais simples”. Nada poderíamos acrescentar às palavras destes dois escritores no que tange ao significado da RIE para o movimento espírita brasileiro, potencializado, agora, quando este relevante veículo de divulgação espírita descortina a trajetória de seu segundo século de existência.

O que foi a RIE em sua aurora e como evoluiu?

José Luiz - Fundada aos 15 de fevereiro de 1925 por Cairbar de Souza Schutel, na pacata Matão, a RIE apresentou-se como proposta de expansão das fronteiras espíritas, um verdadeiro marco na proclamação de suas ideias, englobando e aglutinando religião, ciência e filosofia; mais que isso, desde sempre corroborou seu caráter internacional, publicando traduções de importantes pesquisadores da época, que confirmavam, a partir do critério científico, a imortalidade da alma e a comunicabilidade dos Espíritos, bem como dando espaço a notícias do estrangeiro, algo que se tornou corriqueiro nos anos vindouros da publicação. Diz Schutel no editorial inaugural, em fevereiro de 1925: “O título e o subtítulo – Publicação Mensal de Estudos Anímicos e Espíritas – que adotamos para esta publicação compreendem uma vasta área de trabalhos e conhecimentos que marcam na hora atual um movimento de acentuado progresso na marcha da humanidade (...). Por toda parte do mundo congregam-se esforços para a divulgação da Ideia Espírita. Associações, federações de associações, congressos nacionais e internacionais, dão conta dos progressos que o Espiritismo vai realizando”. Lembremos que o Espiritismo ainda não completara 70 anos quando surge a Revista Internacional do Espiritismo, título alterado posteriormente para Revista Internacional de Espiritismo; logo, a época era de plena efervescência das disruptivas ideias codificadas por Allan Kardec e os fenômenos espirituais se sucediam em profusão, demandando a análise criteriosa de mentes que pudessem traduzir, com bom senso e embasamento, aqueles eventos aparentemente místicos e inexplicáveis. Cássio registra em seu livro que: “Em suas primeiras edições, a RIE transcrevia artigos traduzidos do francês, espanhol, alemão, inglês e italiano, de grandes periódicos, como: Light, La Revue Spirite, Vie d’Outre Tombe, Hoy, The Harbinger of Light, City News, Kálpale, Luce e Ombra, The Two Worlds, La Luz del Porvenir, La Tribune de Genéve, Ghost Stories e Psychic Science. Tais artigos eram assinados por grandes escritores e pesquisadores da época, como Sir Oliver Lodge, Camille Flammarion, Ernesto Bozzano e Sir Arthur Conan Doyle, entre outros. Muitos deles frequentemente trocavam cartas com Cairbar Schutel”. São somente alguns exemplos das marcantes personalidades a que Schutel deu voz, possibilitando que conclusões inovadoras sobre as verdades espirituais se tornassem acessíveis ao público brasileiro.

A RIE encontrou resistência?

José Luiz - Sim. É natural que toda iniciativa que desafie paradigmas encontre resistência. Imaginemos isto no primeiro quarto do Século 20, quando a intolerância religiosa era escancaradamente ‘permitida’, até mesmo ‘incentivada’ em algumas situações. Pois não foi diferente com Cairbar Schutel, que, a exemplo de muitos outros pioneiros espíritas, teve de sustentar-se com firmeza e convicção para não sucumbir às pressões que se faziam sobre ele, que antes era católico, mudança contestada socialmente e sobre os princípios do Espiritismo em si, que apresentavam um cenário de justiça e igualdade a um mundo acostumado com hierarquia e privilégios aos poderosos, aqui e na vida além. O próprio Jornal O Clarim, fundado duas décadas antes da RIE, já introduzira este ideal de defesa, evidenciando a urgência de levar ao mundo um conhecimento especializado para que se coloquem ‘os pingos nos is’ e se difunda o Espiritismo com os devidos respeito e seriedade. Aliás, respeito e seriedade representam o legado incomparável de Cairbar Schutel deixado a seus continuadores, que o sucederam neste século de luzes esparzidas aos quatro cantos do mundo. Sem dúvida, são merecedores de nossas homenagens, dignos de reverência e por isso faço das palavras de Cássio as minhas, quando, na edição anterior da RIE, de janeiro, em seu texto ‘Às portas do centenário’, lista alguns desses inesquecíveis colaboradores. Naquelas páginas e nesta, já me desculpando pela impossibilidade de citar todos que mereceriam lembrança, registramos a importância de nomes citados anteriormente nesta entrevista pelo próprio autor do mencionado livro.

O compromisso com a RIE está renovado?

José Luiz - Renovado. Chegando ao fim destas reflexões, carregadas de emoção e gratidão, externamos nosso compromisso perene com as mensagens de Cairbar Schutel, nosso patrono, Allan Kardec, nosso mestre, e Jesus, nosso guia e modelo maior. São os faróis que trazem significado e traduzem o propósito de nosso trabalho, singelo, mas sempre criterioso e com o fim maior de auxiliar a humanidade a progredir. Parabéns, Revista Internacional de Espiritismo, pelo seu primeiro centenário! E obrigado, Cairbar Schutel, por seu incomparável legado e incorruptível amor à causa espírita! Informo que até janeiro de 2026, a RIE trará percepções de outros onze articulistas a respeito desta importante efeméride. Sigamos!

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