A contribuição de A Comarca à historiografia da educação matonense
POR CARLOS ALBERTO DINIZ
Fonte: Carlos Alberto Diniz, doutor e mestre em História da Educação, coordenador pedagógico e professor na Etec ?Sylvio de Mattos Carvalho?, postado por Natali Galvão
· Leitura de 8 min
Foto: Divulgação

Para reconstituir e manter viva a história de uma instituição ou de uma comunidade, os historiadores se utilizam de diversos procedimentos metodológicos para o levantamento de dados e/ou informações que embasarão suas pesquisas, cotejadas por uma revisão bibliográfica. No caso da história da educação – campo onde desenvolvo minhas pesquisas desde 2010 –, dentre essas abordagens, destacamos o jornal como fonte privilegiada, mas também a legislação educacional, livros de atas de reuniões, documentos oficiais, manuais, entrevistas, fotografias, audiovisuais, etc.
Contudo, considerando que o município de Matão ainda, lamentavelmente, não conta com um acervo histórico e/ou um arquivo público que possibilite aos seus munícipes conhecerem a história da sua cidade, essa lacuna tem sido preenchida em boa medida pelo perseverante jornal A Comarca, cujo centenário estamos celebrando em 2025. Dos quase 127 anos de Matão (que serão comemorados em 27 de agosto próximo), 100 anos foram retratados de maneira indelével por esse periódico, graças ao trabalho incansável iniciado pelos seus fundadores e que continua sendo desenvolvido pelos seus atuais gestores, a quem reiteradamente agradecemos pela oportunidade que nos foi dada de pesquisar seu acervo.
Logo, não poderíamos deixar de registrar aqui o nosso apelo ao poder público local para que promova ações efetivas em torno de um espaço onde os matonenses possam conhecer a sua própria história. É urgente e necessário que fique claro que o jornal é uma fonte valiosíssima para a história, mas para ser bem explorada ela necessita ser confrontada com outros tipos de fontes que devem estar devidamente organizadas e catalogadas em um espaço adequado e propício de salvaguarda da memória.
Tendo dito isso, trago para os assíduos leitores desse periódico duas – dentre outras – experiências acadêmicas que tive nas quais o jornal A Comarca foi fundamental. Em primeiro lugar, na dissertação de mestrado em educação intitulada A educação secundária no interior paulista: estudo histórico sobre o Ginásio Estadual de Matão (1940-1965), de minha autoria e sob orientação da Profa. Dra. Rosa Fátima de Souza Chaloba, disponível em https://repositorio.unesp.br/items/a9934703-1f17-4cb7-b2f1-9d80874da88c, as edições de 1925 a 1945 nos permitiram compreender um pouco sobre como estava organizada a sociedade matonense que, de acordo com o primeiro censo feito pelo IBGE em 1940, contava com 22.907 habitantes (11.625 homens e 11.282 mulheres), distribuídos em uma área territorial de 687 quilômetros quadrados a qual englobava os distritos de Dobrada (atualmente município) e de São Lourenço do Turvo. Desse contingente populacional: 83% residiam na zona rural; 98% se declararam católicos romanos; 10% eram estrangeiros (especialmente italianos, portugueses, espanhóis, japoneses e alemães); 45% dessa população era analfabeta e, desse percentual, 25% pertenciam à faixa etária dos 10 aos 19 anos e outros cerca de 25% tinham entre 20 e 29 anos.
Da população alfabetizada, 24% se encontravam na faixa etária de 7 a 14 anos (1.096 homens e 1.059 mulheres) e, com idade entre 15 e 19 anos, esse número diminuía para 711 homens e 666 mulheres, perfazendo um total de algo em torno de 16%. O jornal nos permitiu compreender tal conjuntura, ou seja, as atividades econômicas, tanto agrícolas quanto industriais que já se desenvolviam em Matão, bem como o comércio local que, por conseguinte, pressionava por melhorias das condições infraestruturais do município como, por exemplo, calçamento das ruas, iluminação pública, rede de esgoto, etc., visando a urbanização que ocorria em âmbito nacional e que, por sua vez, indicava também para a oferta do ensino público de nível secundário que ainda não havia em Matão, fator esse que obrigava os alunos que concluíam o curso primário a se deslocarem até Araraquara ou outros poucos municípios de maior porte que dispunham de escolas ginasiais ou colégios.
No que tange ao campo educacional, as edições de 1940 a 1965 foram imprescindíveis para entendermos a negociação existente entre o Poder Executivo Municipal com o Estadual manifestada no apoio à concepção da primeira escola pública de ensino secundário (termo atribuído ao antigo curso ginasial e que atualmente se refere ao segundo ciclo do ensino fundamental). Tão somente pelo jornal foi possível mapear desde a fase embrionária do então Ginásio Municipal ‘Dr. Adhemar de Barros’, criado em 1940, e que ficou sob administração do Colégio Anglo Latino entre 1944 e 1947, ou seja, até a promulgação do Decreto-lei estadual nº. 16.871 em 10 de fevereiro de 1947, que criava o Ginásio Estadual em Matão, bem como as transformações institucionais ocorridas nos anos seguintes e que culminaram com a instalação do Instituto de Educação ‘Professor Henrique Morato’ ao final de 1965 – atual Escola Estadual ‘Professor Henrique Morato’.
Nesse estudo também pudemos verificar que o jornal A Comarca ainda teve um papel importante em reforçar a representação social do Ginásio Estadual de Matão enquanto estabelecimento de ensino destinado a uma pequena parcela de matonenses, seja noticiando cerimônias promovidas pela escola, ou ainda transmitindo comunicados sobre exames de admissão e descrição detalhada dos modelos de uniforme escolar (de uso obrigatório), entre outros. Estudar no Ginásio Estadual de Matão era motivo de orgulho, uma verdadeira conquista, tanto para os alunos como para seus familiares, conferindo-lhes certo ‘status’ social perante a comunidade local.
Notamos essa conotação, sobretudo a partir da imprensa que, por sua vez, descrevia com detalhes alguns eventos escolares promovidos, em especial as formaturas, informando inclusive os nomes dos formandos que eram, na maioria das vezes, em número muito reduzido se comparado ao número de ingressantes. Por outro lado, verificamos que o jornal, naquele momento, não abordava o enorme déficit educacional que se mantinha no município, aspecto esse que, em nosso entendimento, a imprensa tinha por dever fazê-lo junto à população.
Outro trabalho em que recorremos ao jornal A Comarca consistiu na pesquisa sobre a criação e a trajetória da Etec ‘Sylvio de Mattos Carvalho’, criada em 3 de junho de 1986, para a comemoração do seu trigésimo aniversário de fundação. Nesse trabalho, realizado em conjunto com Cristina Munaretti de Oliveira, professora de História nesse estabelecimento de ensino, mapeamos 129 reportagens veiculadas pelo jornal sobre essa escola técnica entre 1986 e 2015 e as organizamos em formato de coletânea.
Por esse viés, a coleção de textos jornalísticos utilizada nesse estudo até o momento – e vale destacar que temos dado continuidade à atualização de tal coletânea, que já se encontra no seu quarto volume – tem nos levados a perceber as relações que permeiam a Etec ‘Sylvio de Mattos Carvalho’, o município de Matão e circunvizinhos, permitindo-nos compreender a sua importância em meio a essa comunidade em termos de representação social, patrimônio cultural e memorial nesses últimos 30 anos.
Ao mesmo tempo, a representação construída dessa instituição permite concluir que a mesma está de fato inserida positivamente no cotidiano em âmbito local, sobretudo a partir de práticas escolares adotadas pela equipe escolar, notadamente: realização de palestras com profissionais de diversas áreas; eventos abertos à comunidade como, por exemplo, a Feira Tecnológica, Semana Paulo Freire, Semana da Enfermagem, Festa Junina e Festa da Primavera; excursões e visitas técnicas a instituições e empresas de diversos segmentos produtivos; ritos escolares, especialmente cerimônias de colação de grau. Nesse tocante, constatamos também a veiculação de um número razoável de notícias para informar da realização de concursos públicos e/ou processos seletivos para a contratação de docentes e/ou funcionários técnico-administrativos, ou ainda para informar sobre o Vestibulinho realizado semestralmente.
Por esse viés, o projeto em questão culminou na publicação do texto intitulado A coletânea de reportagens sobre a Etec Sylvio de Mattos Carvalho publicadas do jornal A Comarca (1986-2015): uma contribuição historiográfica, em formato de capítulo para o livro Espaços, Objetos e Práticas: memórias e história da educação profissional, organizado pela Profa. Dra. Maria Lúcia Mendes de Carvalho, disponível gratuitamente em http://www.cpscetec.com.br/memorias/arquivos/EspacosObjetosPraticas2018.pdf, que se preocupou em refletir, entre outros aspectos, as relações que permeiam a Etec ‘Sylvio de Mattos Carvalho’ e o seu entorno, permitindo-nos compreender a sua importância em meio a essa comunidade em termos de representação social, patrimônio cultural e memorial nesses quase 40 anos de existência.
Com efeito, o jornal enquanto fonte de pesquisa nos permite conhecer, no caso da história da Etec ‘Sylvio de Mattos Carvalho’, a rotina e as práticas que permeiam o seu cotidiano. Mais do que isso, possibilita-nos compreender a cultura impregnada na função social pela qual ela foi pensada e criada e, do mesmo modo, como esta instituição foi incorporando a nova dinâmica verificada no mundo do trabalho e nas relações sociais, bem como as transformações dela decorrentes que têm desafiado a educação profissional, ao mesmo tempo se adequando às novas exigências da sociedade mundial, principalmente em tempos atuais, nas quais são perceptíveis o paradigma das inovações tecnológicas e a necessidade do desenvolvimento de competências e habilidades para o atual modo de produção de bens e/ou serviços.
Logo, inferimos o proeminente papel do jornal enquanto fonte de pesquisa historiográfica, especialmente em estudos da área de História da Educação, revelando-se assim um recurso potencial para uma melhor compreensão da função que as Escolas Técnicas exercem nos municípios onde se encontram instaladas, independentemente do recorte histórico que se pretende analisar, possibilitando a reconstituição da história da educação profissionalizante no Estado de São Paulo.
Com efeito, não resta dúvida de que o manuseio do jornal – enquanto fonte em pesquisas em educação – é uma das maneiras de aproximação mais profícuas encontradas pelos historiadores da educação, uma vez que os impressos têm ocupado, sobretudo no século XX, um papel capital no processo civilizador em curso no Brasil que buscou homogeneizar gostos, valores e comportamentos.
Parabéns ao jornal A Comarca pelos seu centenário e pela contribuição incomensurável à história de Matão. Que venham mais 100 anos!
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