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Cultura e Variedades

"Ver homens pretos na televisão era muito difícil"

O ator Samuel de Assis conta como superou as dificuldades para conquistar seu espaço

Do acervo · publicada originalmente em 22 de novembro de 2024

Fonte: Emílio Paganin, postado por Natali Galvão

· Leitura de 4 min

Foto: Divulgação

Emílio Paganin com Samuel de Assis. "Criamos uma companhia de teatro porque eu estava cansado de receber 'não', de dar com a cara na porta", revelou o atorAcervo · 2024
Emílio Paganin com Samuel de Assis. "Criamos uma companhia de teatro porque eu estava cansado de receber 'não', de dar com a cara na porta", revelou o ator

No último dia 13, o ator Samuel de Assis – que interpreta o personagem Daniel Fischer na novela ‘Mania de você’, da Rede Globo – apresentou a peça ‘E vocês, quem são?’ no teatro do Sesc Araraquara. A seguir, A Comarca publica a entrevista exclusiva que Samuel concedeu a Emílio Paganin.

Fale um pouco sobre a peça ‘E vocês, quem são?’. E o Samuel de Assis, quem é?

O Samuel é um cara em construção, na luta do dia a dia. ‘E vocês, quem são?’ é um reflexo disso, um espetáculo que saiu de muitas questões, de muitas perguntas, de quem sou, do que estou fazendo, qual o meu papel nesse mundo, nessa vida, e qual o papel das pessoas que violentam nossos corpos negros o tempo inteiro. É um questionamento à branquitude, um questionamento ao nosso lugar nesse mundo, o que a gente significa, o que significa estar aqui, por que estamos aqui, tendo como fio condutor a história verídica do nosso país.

Você passa a imagem de um artista que não se deixou iludir pela fama.

Acho que isso é fruto de uma história. Me preocupa muito quem chega no estrelato, seja lá o que for isso, tão jovem, sem nenhuma bagagem, porque é muito difícil chegar num lugar de autorreconhecimento, mas muito mais difícil é você permanecer. Por milhões de questões assim, por falta de privacidade, de vida pessoal e de um monte de coisas, isso dá uma pirada na cabeça. Mas acho que quando você tem toda uma história por trás, toda uma vida – tenho 23 anos de carreira e 42 anos de idade –, isso te dá uma base. O meu alicerce é muito bem estruturado pela minha história, pela minha espiritualidade, então acho que quem tem essa base não tem como pirar, como deixar subir pra cabeça.

No início da carreira, você recebeu muitos ‘nãos’? Passou por situações de preconceito?

Milhões, milhões! O meu primeiro ‘sim’, de verdade, acho que foi na novela ‘Vai na fé!’. Fiz coisas muito pequenas na televisão. Há muitos anos, minha primeira novela inteira de fato foi ‘Vai na fé’. Nesses 23 anos de carreira, eu tive que aprender a me produzir; criei uma companhia de teatro em São Paulo e tenho uma produtora (Morena) que trabalha comigo até hoje. Criamos uma companhia de teatro porque eu estava cansado de receber ‘não’, de dar com a cara na porta, de ser três vezes mais difícil para mim do que para pessoas brancas, mesmo sabendo que elas tinham um pouco menos de talento que eu. Então, eu tive que aprender a me virar.

O Sesc Araraquara tem um ótimo teatro. Você já conhecia?

É a primeira vez que me apresento aqui. Quase não dava certo, mas deu e aqui estamos. Queríamos muito vir para cá e está sendo muito bom rodar pelos Sesc’s do interior, conhecer essas cidades. Já tinha passado por Araraquara, mas não para me apresentar, só de passagem mesmo, e estou amando estar aqui. Esse teatro é uma delícia! Está lotado, você viu? Eu fiquei tão feliz! Cheguei na bilheteria e disse que queria um ingresso; me disseram que só tinha dez. Voltei lá agora e já não tem mais.

Você é inspiração para muitos jovens. Quem foi a sua inspiração?

Eu tive pouquíssimas inspirações. Na minha infância, os homens pretos da televisão eram os comediantes; o Mussum, que era um comediante bêbado, o Grande Otelo, que já havia perdido espaço... Então, ver homens pretos na televisão era muito difícil. Não temos essa referência, mas eu tive muitas pessoas pretas que me inspiraram de formas diferentes. A Elza Soares me ensinou uma coisa; a Nina Simone, outra; o Tony Tornado me ensinou outra... Cada um desses artistas que eu via em evidência na televisão, no rádio, no cinema, nos shows musicais, me ensinavam e me davam forças para continuar. Eles devem ter sofrido milhões de vezes mais do que eu, tiveram carreiras dificílimas; a minha também foi muito difícil, mas um pouco menos por conta deles. Espero muito que quem venha depois tenha em mim essa inspiração, essa referência. Fico muito feliz e emocionado quando vou aos lugares e as crianças pretas me falam: “o Brigadeirão, o Brigadeirão!”. Eles estão se vendo na televisão, coisa que eu não tive na infância, então isso para mim é de uma honra imensa. Acho que esse é o meu maior desejo. Espero estar fazendo muito bem esse trabalho, deixando muito forte esse legado de que você pode, você deve continuar, você tem forças, você é especial. Vai em frente!

Tem projetos para 2025?

Muitos. Estou em turnê com a peça ‘E vocês, quem são?’, estou na novela ‘Mania de você’, estou lançando o ‘Rensga’ e estou fazendo o carnaval do Samuca, que vai bombar até março. No ano que vem, continuaremos essa turnê e teremos peça nova.

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