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Cultura e Variedades

Onde há fumaça, há homem; não, bicho!

POR FABRÍCIO ZAFALON

Do acervo · publicada originalmente em 2 de setembro de 2024

Fonte: Fabrício Aparecido Zafalon, professor, postado por Natali Galvão

Foto: Divulgação

Fabrício Aparecido Zafalon é professorAcervo · 2024
Fabrício Aparecido Zafalon é professor

Em agosto, mês do Folclore Brasileiro, tivemos tardes sombrias, seguidas por noites sufocantes. Não foram os mitos do folclore que nos atormentaram, medos incutidos na infância de quatro décadas atrás, pois nem eles mesmos resistiriam ao fogo e à fumaça que devastaram milhares de hectares da nossa região, a de Ribeirão Preto. Não só estamos destruindo nossos mitos infantis, como o futuro do planeta.

Dados preliminares do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélite da Universidade Federal de Alagoas mostram que o crescimento no estado de São Paulo foi de 338%, com 3.175 focos nos 25 primeiros dias do mês. O recorde paulista para o mês de agosto era de 2.444 em 2010, sendo que em 2023 foram 352 focos.

A natureza tem muitas formas de nos apresentar suas respostas. Entretanto, parecemos não entender nenhuma de suas metodologias, pois saímos de uma tragédia provocada por chuvas torrenciais e constantes no Sul para o calor e o fogo no interior do país em pleno inverno. Quando vamos parar de acreditar em mitos? Quando deixaremos a infância da lógica consumista/financeira para adentrar a racionalidade científica?

Quando fizermos alguma coisa! Sim, quando deixarmos de perguntar e agirmos. A natureza não plantou a cana, tampouco lucra com ela. Também não joga pontas de cigarro pela janela do carro ou queima lixo na beira de estradas e matas. O fogo é tão natural quanto nós o somos. Não somos o fim do mundo, mas podemos ser o nosso próprio fim. Sombrias previsões? Cremos que mais sombrias são a indiferença e a ignorância juntas a articular desculpas em seu ambiente predileto: uma nuvem de fumaça.

Estamos enfrentando a nós mesmos e estamos perdendo. Cada dia de fogo e fumaça pode significar mais meses de seca, ou propensas tempestades avassaladoras no verão. A biodiversidade que foi aniquilada pelo fogo na semana passada fará muita diferença na próxima safra, consequentemente nos preços dos produtos alimentícios, ampliando assim a desigualdade social. O ciclo vicioso está se fechando, mas ainda há muitas saídas, porém, nenhuma delas está disponível nos seus canais de streaming prediletos. É preciso promover a transformação, não esperar por ela.

Escrevemos com os olhos embaçados, lacrimosos pela fumaça, e com a respiração ofegante que não encontra vida no ar que respira. Vamos observar os vídeos na internet dos incêndios pela região, engavetamentos, destruição de lavouras, mortes de animais e toda degradação ambiental, para ficarmos pasmos e ter o que comentar no trabalho. Ou então, agiremos na prática, para realizar nossa função de ser racional do planeta e assim fazer fluir a vida e a biodiversidade para as próximas gerações.

Não basta colocar uma mensagem na rede social de apoio à natureza, um emoji chorando como resposta ao vídeo aterrador que apresenta a dimensão da destruição ambiental. Temos que nos organizar e seguir as recomendações propostas nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODSs) da Organização das Nações Unidas (ONU) elaborados em 2012.

Reduzir o consumo, exigir certificações ambientais de fornecedores, reduzir o desperdício, racionalizar a alimentação, redistribuir renda, cobrar autoridades, fiscalização eficiente, planejamento, ações de mitigação de riscos e promoção da educação ambiental associada à financeira. São muitas as possibilidades que temos para contribuir.

Já ocorreram sete prisões de suspeitos por provocarem incêndios na região e possivelmente teremos um número bem maior, haja vista que foram observados pelas imagens de satélites que vários focos surgiram em pontos diferentes na mesma tarde. Esperamos que a população denuncie tais crimes, pois viver em sociedade é um exercício de responsabilidade pelo coletivo; cidadania é o equilíbrio entre direitos e deveres de todos para com todos.

A Terra não precisa ser salva, precisa ser respeitada! Ter a nossa gratidão pela vida no cotidiano de nossos atos.

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