Samie Elias relata sua experiência em Paris
Ele foi o biomecânico da Comissão Técnica da Natação Portuguesa nos Jogos Olímpicos
Do acervo · publicada originalmente em 10 de agosto de 2024
Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão
· Leitura de 6 min
Foto: Divulgação
Acervo · 2024Tudo começou com uma brincadeira entre três amigos e companheiros de equipe em uma mesa de café numa das áreas das quadras de tênis no Esporte Clube Pinheiros (ECP), em São Paulo, após uma rotineira reunião de monitoramento do processo que avalia a carga da semana e os resultados dos últimos testes pré-mundial de 2019.
Um destes três amigos disse que “tínhamos que juntar nossas coisas e revolucionar em outro lugar, de preferência próximo ao mar para equilibrar melhor a vida”. E foram eles para o além-mar, chegando a disputar as Olímpiadas da Paris como membros da Comissão Técnica da Seleção de Natação de Portugal. Nesta entrevista, o matonense Samie Elias, assistente técnico e biomecânico, resume como foi esta epopeia.
Muitas coisas aconteceram depois daquela conversa no Pinheiros.
Sim, após aquela conversa, muitas coisas aconteceram: medalhas nos mundiais de 2019, tribunais, pandemia, Jogos Olímpicos de 2021 e o convite para nos mudar a Portugal em 2021. Aceitamos e esses últimos anos foram incríveis. Jamais imaginávamos o que seríamos capazes de alcançar dentro e fora das piscinas.
O Mundial de Fukuoka em 2023 foi marcante.
Foi. Diogo Ribeiro conquistou medalha de prata nos 50 Metros Borboleta com recorde nacional na final, sendo esta a primeira medalha em mundiais para Portugal. Ele ainda fez semifinais nos 100 Borboleta, 50 Livre e 100 Livre na mesma competição. O atleta João Costa bateu o recorde nacional nas eliminatórias e se classificou para os Jogos Olímpicos de Paris na prova dos 100 Costas, passando também para as semifinais em Fukuoka. Já classificada para as Olimpíadas de Paris, Camila Rebelo chegou às semifinais no Japão, nos 200 Costas. Miguel Nascimento, o quarto nadador classificado para Paris 2024, não esteve nas semifinais em Fukuoka mas teve participação importante no revezamento português de 4x100 Medley masculino, onde João Costa, Gabriel Lopes, Diogo Ribeiro e Miguel Nascimento bateram o recorde nacional e ficaram em 13º lugar. Em Fukuoka, mais uma vez fizemos história com uma campanha histórica para Portugal, somando-a às outras competições históricas como o Europeu de 2022 e os Jogos Mediterrâneos 2022.
Mas teve também o Mundial de Doha.
Sim. O plano era aproveitar a qualificação antecipada e ganhar ainda mais experiência nestes grandes palcos. No Qatar, as coisas não podiam acontecer melhor. Diogo entra como favorito e ganha os 50 Borboleta contra Michel Andrew (Estados Unidos) e Cameron McEvoy (Austrália), dois dos maiores velocistas da atualidade em uma final apertada. Nos 100 Borboleta, Diogo foi aprimorando os detalhes e batendo o recorde nacional a cada fase; e na final, ele nadou em 51 segundos e 17 centésimos (51’’17), recorde nacional, sendo campeão mundial absoluto mais uma vez. Não é preciso afirmar que estes dois títulos mundiais do Diogo foram feitos históricos para Portugal.
Quando a ‘reta final’ para as Olimpíadas de Paris teve início?
No último mês de março, iniciamos nossa Preparação Olímpica. Foram vários percalços, doenças no Diogo e no João Costa, compromissos publicitários a todo momento... A concentração do time ficou bastante comprometida, mas ainda assim conseguimos cumprir a maioria dos nossos objetivos de treinos, pois eles alcançaram excelentes marcas nos testes preliminares. Nas competições preparatórias, os tempos totais não apareciam com regularidade, mas nas análises sempre houve evolução nos pontos que colocamos como principais.
Quando chegaram em Paris?
No dia 24 de julho, sendo que a competição para nós começou no último dia 27 com João Costa nos 100 Costas. Ele tinha sofrido uma lesão em dezembro, foi operado em janeiro, fez excelente recuperação e estava apto a competir com os melhores. No entanto, não conseguiu avançar às semifinais, o principal objetivo. Diogo Ribeiro competiu no dia 30, mas infelizmente também ficou na fase eliminatória. No dia 31 nadaram Camila Rebelo (200 Costas), que em Belgrado havia sido campeã europeia e tinha a semifinal como objetivo, com perspectiva de final, mas terminou em 19º lugar, fora das semifinais; Miguel Nascimento (50 Livre), que ficou nas eliminatórias; e Diogo Ribeiro (50 Livre), que conseguiu avançar com 21’’91’. Na tarde do mesmo dia 31, Diogo tinha uma tarefa complicada, pois estava nas semifinais mais rápidas do 50 Livre e precisava superar o seu melhor tempo da vida para ter alguma chance de fazer a final olímpica, mas, no entanto, piorou um décimo e ficou em 16º lugar. A última oportunidade seria no dia 2, também com Diogo, na sua prova principal, 100 Borboleta. Estava na primeira série forte das eliminatórias e não conseguiu impor seu ritmo. Uma prova um pouco abaixo das expectativas o deixou na 20º colocação.
Além de você como treinador assistente e biomecânico, quais os outros integrantes da Comissão Técnica da Natação de Portugal nas Olimpíadas?
Rui Costa (treinador), Rui Escaleira (médico), Daniel Moedas (fisioterapeuta) e Alberto Silva (Albertinho, head coach).
Que resumo pode ser feito da sua participação nos Jogos Olímpicos de Paris?
Em síntese, chegamos a Paris para um patamar muito difícil de ser alcançado, pois precisávamos estar além das nossas capacidades para atingir os objetivos. Nos acostumamos a nos superar nestes eventos, mas performar para além das capacidades em momentos como este de extrema exposição e pressão interna é algo especial. Conseguimos repetir este feito várias vezes neste ciclo, mas infelizmente não no momento em que todos esperavam. Os resultados não apagam toda a alegria deste período, mas fica uma dor, que se une a uma grande vontade e isso nos motiva.
A quem agradecer?
Agradeço imensamente a camaradagem, o espírito e o profissionalismo dos meus companheiros de equipe: Alberto Silva – o mestre – e Igor Silveira – a rocha. De 2021 até agora, afirmo que foram os anos mais felizes, tanto profissionalmente como na vida pessoal. Mudar de país e estilo de vida é algo fascinante, mas, assim como no esporte, a mudança não se constrói somente de momentos felizes. A distância da família e várias dificuldades fizeram parte dessa jornada. Ter ao lado a minha esposa, Ana Paula, e os nossos cães, Zeca e Rebeka, certamente fizeram isso tudo ser possível. Registro o quanto amo a Paulinha e como ela me ajuda a ser melhor a cada dia. Obrigado à minha mãe, Eliana, e ao meu pai, Kemmell, por tudo o que fizeram por mim – todos esses anos – e pela paciência que tiveram nas vezes em que demorei para dar notícias. A verdade é que me lembra muito da saudade que tenho deles quando os vejo. Meus irmãos, Yussef e Dib, também me inspiram sempre pelas carreiras lindas que estão trilhando.
Orientado por você, seu pai conquista excelentes resultados como nadador master. Como foi tê-lo ao seu lado nessas Olimpíadas?
Foi a concretização de um sonho que sempre tivemos em família. Ele que nos iniciou no esporte; assistíamos a tudo dos Jogos Olímpicos desde que eu tinha idade suficiente para me sentar em frente a uma tevê. Ele tinha fitas em VHS com a história das Olimpíadas de 1896 até 1996, uma coleção de comemoração ao Centenário Olímpico. Todas as lendas do esporte nos foram apresentadas logo cedo. Devo ter assistido algumas dezenas de vezes as dez fitas (risos). Depois, o ‘plano’ era ir aos Jogos Olímpicos como atleta, mas infelizmente não foi possível. Mas fomos juntos aos Jogos Pan Americanos do Rio de Janeiro, uma verdadeira aventura em família. Em Tóquio foi a primeira vez que um Elias esteve nos Jogos Olímpicos – eu, no caso. Mas agora, ter meu pai como atleta e dos melhores do mundo na natação master – meus atletas profissionais se espantam com os resultados dele –, o fato dele poder ir a Paris, pela primeira vez na Europa, ter ele por perto, foi sensacional. Não pude ficar com ele e a Paulinha muitas vezes, mas quando estivemos juntos foi muito especial. Lembrarei para sempre dessa nossa Semana Olímpica.
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