Brasil líquido ou estrelado?
POR GUILHERME FRANCO
Do acervo · publicada originalmente em 3 de julho de 2024
Fonte: Guilherme Athayde Ribeiro Franco, promotor de Justiça de Campinas e especialista em Dependência Química, postado por Natali Galvão
Foto: Rogério Bordignon
Acervo · 2024A descriminalização do THC nos levará a passos largos à RCB: ‘República Canábica do Brasil’. É o esperado pavimento para a legalização de mais uma droga que infelizmente será ‘pediátrica’.
Entretanto, sinceramente, não creio que se trata de um projeto de poder de qualquer corrente partidária. Parece-me - salvo melhor juízo e com supremo respeito - equivocada leitura de um complexo fenômeno biopsicossocial.
Refiro-me ao crescente consumo de substâncias psicoativas - lícitas ou não - que leva milhões ao uso abusivo e à dependência química, com nefastas consequências à família, à saúde, à segurança e à economia.
É ignorar, por melhor que seja a intenção de seus proponentes, as não só complexas como também perversas engrenagens invisíveis que visam a destroçar toda uma nação, a partir do que há mais precioso: suas crianças, adolescentes e jovens.
É colocar um telhado - experimental, diga-se por oportuno, sem nenhuma garantia de ‘fábrica’ - em construção assentada sobre um movediço terreno. Paredes desalinhadas erguidas em solo contaminado e não bastasse, sem os elementares alicerces da prevenção.
Deveras, em um país no qual a cerveja não é considerada álcool, onde temos de lutar para demonstrar que cigarro eletrônico é cigarro - sob pena de inimaginável retrocesso -, soa prematuro e imprudente se ampliar o cardápio de psicoativos.
Pior: em um tempo de ‘self service’ e ‘delivery’ para os ‘filhos do quarto e dos celulares’.
Algo como: ‘escolha do sabor de bergamota ao de açaí; que chegam em minutos 39,99 gramas/39.999 miligramas de puro THC - em um ‘vape’ ou em um pacotinho de jujuba/gummie.
Procure no ‘Gúgou’: ‘perto de mim’.
Peça por ‘nome de fruta’, afinal, só se comercializaria uma inocente e benfazeja planta...
E nem precisa escrever. Use as figurinhas do ‘zápi’ que o diligente e astuto fornecedor saberá do que se trata.
Saudade do tempo em que éramos uma Bananolândia, ‘Banana Republic’.
Pelo menos produzíamos triptofano, substância associada ao bem-estar e não a psicoses.
E o que faremos diante de tal anomia que virá como um dilúvio ou tsunami?
Tempo de crise é tempo de ação profética e cidadã, de não assumirmos a forma disforme e liquefeita deste século.
A propósito, Zygmunt Bauman, ao escrever sobre modernidade/sociedade/vida líquidas, teria imaginado que nós todos viraríamos ‘suco’ adocicado e venenoso - o ‘e-juice’ de um ‘vape’?
Mais atual que a narcomídia de amanhã é um pensador/teólogo africano de priscas eras.
"A esperança tem duas filhas lindas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las", Santo Agostinho de Hipona.
E “é proibido pecar contra a esperança"! Foi o que escreveu o artista plástico Elifas Andreato, abaixo de sua emocionante tela - na qual um garoto de pele negra e pés descalços, em linda noite de Natal, empunha a bandeira do Brasil, enquanto semeia estrelas na noite azul.
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