Amigos nonagenários recordam serviço militar
Há 70 anos, Marcilio Polito e Antonio Bovio Filho davam baixa da Cavalaria do Exército Brasileiro
Do acervo · publicada originalmente em 8 de julho de 2024
Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão
· Leitura de 6 min
Foto: Rogério Bordignon
Acervo · 2024De 1º de setembro de 1953 a 31 de maio de 1954, Marcilio Polito e Antonio Bovio Filho serviram ao 17º Regimento de Cavalaria do Exército Brasileiro. Contudo, por integrarem esquadrões diferentes, não compartilharam atividades em Pirassununga (SP). O encontro de ambos ocorreu recentemente devido a uma pessoa em comum a eles: Denise Gregório Polito, sobrinha de Antonio e nora de Marcilio. Segue o registro deste encontro, no momento em que os dois protagonistas são nonagenários.
Onde os senhores trabalharam?
Marcilio - Aos 12 anos de idade, me mudei ao bairro da Penha em São Paulo (Capital) com minha irmã Luiza. Trabalhei numa ourivesaria e tive outros empregos. Voltei para Matão aos 16 anos e fui trabalhar na Baldan. Naquele mesmo 1950, ingressei na Oficina Brasil, a atual Marchesan Máquinas e Implementos Agrícolas ‘Tatu’, onde trabalhei até 1970. Sou o ex-funcionário com registro profissional mais antigo da Marchesan, em vida. Em 1971, eu e os saudosos Ary de Barros, Cezare Graziosi e Mário Machado adquirimos uma pedreira em Araraquara. Dissolvemos a sociedade e, em 1982, eu e o Mário Machado estruturamos uma madeireira, a Tarumã, na esquina da Rua José Bonifácio com a Avenida Santo Antonio. Em meados da década de 1980, vendi minha parte da Tarumã e passei a gerenciar outra pedreira em Araraquara, onde fica o atual Parque do Basalto. Em meados da década de 1990, comecei a ajudar os filhos Edson e Eduardo na Poli Plantas. Atualmente, ocupo meu tempo cuidando do paisagismo dos residenciais Guaporé 1 e Guaporé 2 pela Poli Flora, empresa do meu filho Eduardo. Em algumas atividades, dirijo o trator.
Antonio - Cheguei a Matão em 1936, com dois anos de idade. Aos 14 anos, fui trabalhar como auxiliar de escritório na antiga Fazenda Boa Vista. Em 1953, a Companhia Inglesa Fazendas Paulistas, do grupo Cambuhy Coffee & Cotton State, cuja administradora brasileira era a Brazilian Warrant Company, passou a desmembrar propriedades e em 1957 comecei a trabalhar como almoxarife na extinta Fábrica de Óleos Cambuhy, onde fiquei até 1972, quando ingressei na Expedição do atual Grupo Bambozzi e lá permaneci até 1989. De 1991 a 1996, trabalhei no Controle de Estoque da Confecções Emmes. De um tempo para cá, assisto a telejornais e esportes.
Os senhores serviram ao 17º Regimento de Cavalaria do Exército Brasileiro em Pirassununga no mesmo ano, mas não compartilharam as atividades juntos, no mesmo esquadrão. Como isso ocorreu?
Marcilio - Minha nora Denise não tem o sobrenome Bovo, mas a mãe dela, Regina, é da família Bovo. Disse para a Denise que um Bovo serviu em Pirassununga comigo, mas eu não sabia quem era ele. Então, ela me mostrou a fotografia de um tio. Observei que havia algo na boina que ele usava e pedi para expandir a imagem digital, o que me fez ver que se tratava do distintivo do 17º Regimento de Cavalaria do Exército Brasileiro. Então, o Bovo tio dela, o Antonio, somente poderia ser o Bovo que serviu em Pirassununga comigo.
Antonio - Me lembrava vagamente do nome Marcílio Polito, mas acredito que somente permanecemos no mesmo ambiente no dia do Exame Médico. Logo na sequência, fui servir ao 3º Esquadrão e o Marcílio, ao 2º Esquadrão. Portanto, não estivemos no mesmo grupamento lá em Pirassununga. Os dois esquadrões eram vizinhos no 17º Regimento de Cavalaria, mas exerciam atividades de modo separado. Eram três esquadrões no total, que somavam cerca de 600 homens, sem incluir os integrantes mais graduados como subtenentes, aspirantes a oficiais e oficiais.
Em qual período vocês serviram? Havia mais matonenses por lá?
Antonio - Havia a possibilidade de irmos para o estado do Mato Grosso do Sul, mas definiram nossa ida para Pirassununga, onde servimos de 1º de setembro de 1953 a 31 de maio de 1954.
Marcilio - Outros matonenses serviram por lá, naquela mesma época: Anésio Scutti, Ariosto Mochetti, Elzio Gonçalves Ramos, Ernesto Fecchio, Geraldo Moura Leite, José Dias Fernandes, Laert Mancini (China), Roberto Pecorari (Neguinho) e Rudinei Gualini, que me lembre, mas outros também serviram.
Os senhores já montavam a cavalo?
Marcilio - Desde garoto, montei a cavalo, mas o Antonio não sabia o que era isso.
Antonio - Sinceramente, transpirei bastante, porque havia muitos homens para tirar sarro, caso eu caísse. Para azar deles, não cai e me dei bem em cima do cavalo.
No geral, como era a rotina?
Marcilio - A Alvorada era às 6 horas, seguida do café da manhã, educação física, instruções orais e outras atividades, como prática de tiro na montaria. O almoço ia das 11 horas às 12h30.
Antonio - A janta era servida das 17 horas às 17h30 e, depois, tínhamos horário livre até o Toque de Recolher, às 22 horas. Somente quem ‘Tirava Guarda’ não tinha o horário livre.
E o lazer?
Marcilio - Havia o futebol e uma piscina de água corrente. Somente oficiais e funcionários ouviam rádio.
Antonio - Assisti a filmes no cinema de Pirassununga e fomos algumas vezes para Cachoeira de Emas, no Rio Mogi Guaçu.
Em 1954, o então presidente Getúlio Vargas se suicidou. Quais as vossas lembranças deste episódio?
Antonio - Demos baixa em 31 de maio de 1954 e o Getúlio Vargas se suicidou no dia 24 de agosto de 1954; portanto, já éramos reservistas quando ele tirou a própria vida.
Marcilio - Ficamos com medo de sermos convocados como reservistas; afinal, foi um momento de instabilidade no país.
O que significou servir ao 17º Regimento de Cavalaria do Exército Brasileiro?
Marcilio - Uma parte boa, gostosa da vida, onde aprendemos muito e convivemos com pessoas que se tornaram amigos.
Antonio - Uma novidade, onde aprendi bastante. Mas, sinceramente, não gostei, sobretudo de ter que montar a cavalo.
As famílias
Marcilio: “Nasci em Matão, no dia 7 de junho de 1934. Sou filho de Jordão Polito e Ernestina da Silva; e irmão de Atílio, Luiz, Amélia, Zulmira, Luiza, Olga, Lídia, Altino, José e Ernesto, dos quais somente José está vivo. Me casei no dia 11 de junho de 1961 com Lourdes Pereira da Costa Polito e tivemos Edson (Té), Éder (Dinho), Eduardo (Dado), Elis, Edílson e Ernani – sendo o Ernani, filho que tive com Luiza. Dado e Gisele Bottura Maccagnan tiveram Luiz Eduardo e Henrique; Elis e Nilton Boiatti são pais de Guilherme, que se casou com Giovana Pádua e me deram a bisneta Eliza. Edílson e Denise Gregório Polito são pais de Cecília. Ernani e Natali Santili Polito são pais de Liz e Maitê”.
Antonio: “Tenho o sobrenome Bovio, pois foi assim registrado, mas originalmente é Bovo. Nasci em Pirassununga, no dia 12 de junho de 1934. O Marcilio é cinco dias mais velho do que eu, então eu o chamo de senhor (risos). Sou filho de Antonio Bovo e Maria Fuzaro Bovo. Meus irmãos são Hildebrando, Rosa, Alfredo, Lourdes, José, Salvador, Vera e Elza, sendo Hildebrando e Salvador falecidos. No dia 20 de maio de 1972, me casei com Anna Rodrigues e tivemos o Adalberto (Beto) e a Ana Maria. Beto é casado com Giovanna Cristina Marcatto Bovio, pais de Marina. Ana é casada com Edemir Felício de Souza, pais de Felipe”.
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