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Esporte

ARTIGO: Memórias do Clube de Xadrez de Matão

POR EDUARDO KFOURI

Do acervo · publicada originalmente em 23 de maio de 2024

Fonte: Eduardo Vitor Kfouri, engenheiro civil, com pós-graduação em Engenharia de Transporte e Trânsito, postado por Natali Galvão

· Leitura de 5 min

Foto: Divulgação

Eduardo Vitor Kfouri é engenheiro civil, com pós-graduação em Engenharia de Transporte e TrânsitoAcervo · 2024
Eduardo Vitor Kfouri é engenheiro civil, com pós-graduação em Engenharia de Transporte e Trânsito

Quando estive em Matão, na solenidade na Câmara Municipal para entrega da Medalha ‘Prefeito Laert José Tarallo Mendes’ ao Mario Silas Biava, pelo reconhecimento às conquistas do enxadrista, o Mario me convidou para que eu fosse conhecer as novas dependências do Clube de Xadrez de Matão (CXM) na Sociedade Recreativa Matonense (Sorema) e conhecer o trabalho que estava sendo realizado com as novas gerações.

Ao entrar nas dependências do CXM, observando a estante dos troféus, as fotos marcando historicamente as conquistas, os jovens jogando e estudando, me emocionei e voltei ao passado, quando aos domingos de manhã ia ao clube para jogar, conversar sobre vários assuntos. Era uma segunda família. Naquela visita, me lembrei da citação de um autor que disse: “A vida não é o que se viveu, mas sim o que se lembra e como se lembra de contar isso”.

O xadrez promove o desenvolvimento do pensamento estratégico; foco e concentração; criatividade e imaginação; paciência e perseverança; inclusão e diversidade. É um jogo acessível a todas as idades, gêneros, culturas e origens socioeconômicas. Por isso, promove a igualdade de oportunidades.

Aprendi a jogar xadrez com meu pai, Victor. Também jogavam xadrez o meu irmão Silvio e o João Bocchi, que trabalhava com meu pai na Casa Guarani. Jogávamos entre nós, tínhamos em casa o ‘Primeiro Livro de Xadrez’, de Fred Reinfeld, que ensinava o básico. Para aprimorarmos, começamos a frequentar o CXM, a receber os ensinamentos do mestre Alzir Biava, a participar de torneios internos. Com o tempo, o Silvio e o João Bocchi diminuíram o ritmo e eu continuei me aprimorando.

O CXM me proporcionou o bicampeonato dos Jogos Regionais de 1974 e 1975. Ficamos invictos – tanto no individual como por equipes – nos Regionais de 1974, quando vencemos na final uma equipe de profissionais que tinha, inclusive, jogadores da Argentina e da Bolívia. No Troféu Bandeirantes de 1972, vencemos as fases no Interior do Estado de São Paulo e fomos à final na Capital Paulista, enfrentando as melhores equipes de xadrez do Estado.

Nos idos da década de 1970, houve um ano em que não ocorreu os Jogos Abertos do Interior, quando houve um desentendimento entre municípios e a Grande São Paulo fez o seu próprio torneio. O Xadrez contou com a participação de jogadores de até 18 anos. Convocaram uma Seleção do Interior com base no Campeonato Paulista Sub-18 para enfrentar as equipes da Grande São Paulo e eu fui convocado devido a minha classificação no torneio.

Ficamos concentrados no Parque Estoril, em São Bernardo do Campo, em frente à represa Billings. Nas outras modalidades, convidaram seleções de países da América Latina, inclusive com jogadores que disputavam as Olimpíadas, bem como grandes atletas do Brasil. Foi um grande evento, uma experiência marcante.

Em 1977, o Mario e eu fomos convidados a jogar por Araraquara. Eu aceitei, mas o Mario estava em Itápolis, onde desenvolvia um programa de xadrez e lecionava Educação Física. Foram contratados também o Mestre Internacional Cícero Nogueira Braga e Herbert Abreu de Carvalho, um grande jogador.

Independentemente das conquistas, as amizades e o convívio no CXM tiveram influência na formação do meu caráter, sobretudo quanto ao respeito ao próximo. O mestre Alzir Biava foi um brilhante jogador de xadrez. Homem de cultura vasta, adorava música clássica, sendo uma das suas preferidas ‘O Barbeiro de Sevilha’, de Rossini.

Ele também apreciava cinema, gostava de conversar e analisar o enredo dos filmes, tinha visão e análise política refinada, gostava de pintura. Certa vez, a caminho de Franca, para a disputa dos Jogos Abertos, ele solicitou que parássemos em Brodowski para conhecermos a Casa Portinari, com suas obras. E depois paramos em Batatais, onde o pintor fez pinturas da Via Sacra e cenas bíblicas na Igreja Matriz central.

O Geraldino de Oliveira Simão (Dinho) era um irmão. Sempre se preocupava com todos. Quando falava de política, se mostrava indignado com a ditadura militar daqueles anos, ficava chocado com as injustiças sociais e a miséria de milhões de brasileiros.

Mario Biava é um jogador de xadrez brilhante. Recebeu o título de Mestre Internacional de Xadrez Postal pelos seus triunfos. Gostava dos poetas românticos, declamava versos de Castro Alves, admirava a beleza das plantas e da natureza, sobretudo das orquídeas, pelo exotismo de suas flores, tornando-se posteriormente um orquidófilo.

Paulo Franchetti é tido como o último enxadrista romântico do CXM, um jogador extremamente criativo. Foi campeão matonense de 1974. Poeta de mão cheia, tem poesias lindíssimas. Gostava de Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges, Pablo Neruda, declamava as poesias muitas vezes em nossas reuniões. Aprendi muito com ele, que se tornou professor universitário na área de Letras na Universidade de Campinas (Unicamp).

João Faria, um jogador de xadrez posicional, tido como clássico, procurava sempre o jogo menos complicado e buscava as pequenas vantagens posicionais. Gostava de Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Aprendi Gramática e Literatura com ele no cursinho preparatório para o vestibular. Tornou-se professor universitário de Literatura Brasileira e de Teatro Brasileiro na Universidade de São Paulo (USP).

A minha convivência no CXM era com pessoas ligadas à área de Humanas. Abracei a área de Exatas, mas esta convivência me ensinou a ler sempre, me ajudou a ver os projetos de uma forma não só cartesiana, mas sempre pensando em impactos sociais positivos, muitas vezes em realidades diversas e complexas.  Ao conhecer a Sala ‘Alzir e Mario Biava’, na Sorema, fiz uma volta emocionante ao passado, mas um passado sempre presente dentro de mim, lembrando-me de como o xadrez foi importante em minha formação.

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