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Cultura e Variedades

ARTIGO: Drenagem cerebral

POR FABRÍCIO ZAFALON

Do acervo · publicada originalmente em 17 de maio de 2024

Fonte: Fabrício Aparecido Zafalon, professor, postado por Natali Galvão

Foto: Divulgação

Fabrício Aparecido Zafalon é professorAcervo · 2024
Fabrício Aparecido Zafalon é professor

Drenagem cerebral é um dos termos usados para explicar o processo causado pelo uso excessivo de tecnologia digital de telas, cujo uso cada vez maior tem afetado de crianças a idosos. Mas tratamos aqui da educação formal, algo instituído, que deveria ser criado e analisado por especialistas na área. ‘Gente’, isto é, de seres humanos para seres humanos.

Infelizmente, temos interpretações equivocadas tomadas por governanças que acreditam que a desumanização é uma ‘saída técnica’ para o ‘negócio’ da educação. A escola deve e precisa ser um espaço social de convivência e aprendizagem sistematizada e adaptada à realidade local. Esta não pode ser usada como laboratório de experiências com seres humanos.

Ao tempo em que países como Holanda e Suécia – que já implantam o uso de tecnologias digitais educacionais há 20 anos – recuam na implementação de ensino digital, o Estado de São Paulo atropela professores e alunos na criação de dados em plataformas que custam milhões de reais e que provocam um cansaço mental jamais visto nos estudantes.

Houve um tempo em que a prioridade do Programa de Ensino Integral (PEI) era formar jovens autônomos, competentes e solidários, com foco na realização de seus projetos de vida. Nesse contexto, o celular aparecia como uma ferramenta de grande potencial em alguns momentos do processo de aprendizagem. Hoje, a aula é ‘fazer plataformas’; tudo virou uma meta empresarial, uma fábrica de mentes estafadas, que se hiper aceleram com uma tempestade intensa de dados e informações desconectadas entre si.

Voltamos ao cinema mudo de Chaplin, só que a ameaça não são mais as máquinas mecânicas, mas as plataformas de Inteligência Artificial (IA) que degeneram as relações humanas em prol de uma ilusão numérica, de horas conectadas. Não somos os luditas do Século 21, mas profissionais da educação, com muita experiência e resiliência para estarmos atuantes, defendendo as interações humanas como ferramentas de aprendizagem mais eficientes na formação de cidadãos.

Não produzimos máquinas ou produtos em série; somos professores, trabalhamos com pessoas; crianças e jovens que têm sonhos, emoções, ideias, escolhas e dúvidas diferentes, mas que terão as mesmas respostas frias e sem um sorriso de incentivo, um olhar acolhedor ou qualquer outro toque de humanidade.

O uso da tecnologia na educação sempre foi bem-vindo; afinal, a escola é uma instituição social e, portanto, sofre influência de seu entorno, seja essa positiva ou negativa. Pedimos uma análise mais criteriosa sobre o fato do uso de IA, pois ainda temos grandes ‘sequelas emocionais’ pós-pandemia a serem tratadas, além da grande defasagem de aprendizagem.

Muitos estudantes tiveram experiências negativas com a ‘escola remota’ montada às pressas naquele fatídico período. Agora, expô-los a uma imersão profunda nas plataformas digitais pode criar um gatilho para uma evasão escolar em massa ou epidemias de ansiedade e frustrações que afetarão a vida de muitas famílias, uma realidade que já começou a emergir, como podemos observar nos afastamentos médicos apresentados por estudantes e professores neste ano.

O tempo médio de uso de smartphones entre os estudantes do Ensino Médio varia entre duas e 16 horas por dia, segundo pesquisas realizadas pelo Hospital Pediátrico CS Mott, da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. Outro dado importante está nas notificações, que chegam a bater a marca de 5 mil por dia, o que as tornam viciantes. Atrelado a isso, temos já em operação sete plataformas para estudantes do 3º Ano do Ensino Médio, que, segundo o próprio Governo Estadual, deverão chegar a uma para cada disciplina, o que totalizaria por volta de 14.

É como jogar mais combustível no incêndio. Jovens que estão prestes a passar pelo maior desafio emocional de sua vida acadêmica e profissional são submetidos a salas superlotadas, equipamentos obsoletos, internet congestionada e metas curtas de resultados, que não traduzem a realidade.

A drenagem cerebral já ocorria fora da escola em ritmo crescente, onde os professores orientam sobre o uso das tecnologias no momento certo. Agora, trabalhamos no templo de contemplação da virtualização da vida. A função da educação é produzir bons cidadãos, que dividem o mundo real com outros iguais em direitos e deveres, diferente da individualização que o mundo virtual oferece. Observem, analisem o que está ocorrendo com seus filhos, sobrinhos e netos, pois eles precisam é de gente, mais do que qualquer outra tecnologia virtual.

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