A essência de Corpus Christi nas fotos de Rogério Bordignon
Ao completar 25 anos de cobertura do evento, jornalista e fotógrafo apresenta a exposição 'Entregas'
Do acervo · publicada originalmente em 25 de maio de 2024
Fonte: Natali Galvão - free lancer, postado por Natali Galvão
· Leitura de 6 min
Foto: Gerrá Studio
Acervo · 2024O jornalista e fotógrafo matonense Rogério Bordignon lançará na segunda-feira (27), na Casa da Cultura ‘Prefeito Armando Bambozzi’, a exposição ‘Entregas’, com 30 fotografias de sua autoria sobre a tradicional Festa de Corpus Christi de Matão, feitas no período entre 1998 e 2023. Neste ano, Rogério completará 25 edições do evento – que não ocorreu em 2020 e 2021, devido à pandemia de covid-19.
‘Entregas’ traz artes coletivas que emanam de centenas de pessoas voluntárias dedicadas aos ornamentos elaborados por sobre o asfalto das ruas para a Procissão de Corpus Christi. Rogério entrega, com essa exposição, registros fotográficos da maior de todas as artes que brotam das mãos de matonenses, num contexto plural, entrelaçado com a fé expressa nos rostos da multidão durante a Celebração Eucarística.
A produção da arte que dura um dia, da aurora ao crepúsculo, é registrada por olhares atentos de Rogério, expressos em detalhes das suas fotografias, sendo que 70% das imagens selecionadas para a exposição são inéditas, sem destacar artistas, tapetes, quadros e altares. Trata-se de um registro andante, de entregas voluntárias de crianças, jovens, adultos e idosos – artistas natos ou não – que renovam a tradição e a fé do evento, ano após ano.
A mostra fotográfica ficará aberta para visitação pública até o dia 7 de junho, de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas. No feriado da quinta-feira (30), dia de Corpus Christi, ela poderá ser apreciada durante toda a festa. Sobre os detalhes da exposição, A Comarca entrevistou Rogério Bordignon, que agradece ao prefeito Cido Ferrari e ao diretor municipal de Cultura, Juliano Jacopini.
Quais foram os maiores desafios enfrentados ao longo desses anos de cobertura fotográfica?
Considerando todas as milhares de pessoas que contribuem voluntariamente na feitura dos ornamentos, quadros, altares, na organização do evento ou nas atividades religiosas, acredito que sou eu quem mais anda no dia do evento. Teve edições em que passei sete vezes por determinado local, algumas das quais indo direto ao ponto para saber, por exemplo, se um quadro estava finalizado, para fotografá-lo. Faço o percurso completo, no mínimo, três ou quatro vezes. A locomoção é o maior desafio, pois tenho um peso corporal bem elevado, o que faz doer mais as solas dos pés. Nos últimos dez anos, pelo menos, sinto dores nas solas; parecem que vão descolar dos pés. Além disso, há o cansaço físico, somado ao esforço, pois o equipamento fotográfico pesa dois quilos na aurora e uns quatro quilos ao meio-dia.
Qual critério foi adotado para se definir as fotos da exposição?
Procurei selecionar as fotografias por critério artístico, considerando a minha visão de um dia de entregas, da aurora ao crepúsculo, da iluminação artificial na madrugada até a pá-carregadeira – agitada, nervosa – atuar no recolhimento de considerável quantidade de dolomita tingida, já com lâmpadas dos postes novamente acesas. São fotos que trazem uma leitura atenta do que as pessoas transformam na arte mais vista, mais registrada por imagens e mais contemplada que Matão produz. Nada artístico do que Matão faz supera a arte coletiva dedicada a Corpus Christi. Isso resultou em 30 fotografias da exposição, mas poderiam ser 120 ou mais. Das 30 fotografias, cerca de 70% são inéditas, ou seja, não estão no meu DVD ‘Um dia... Corpus Christi!’ – lançado em 2010, com imagens fotográficas digitais de 13 anos da minha cobertura – e não foram publicadas por A Comarca.
Quais técnicas fotográficas são essenciais para capturar a essência das celebrações de Corpus Christi?
O fotógrafo sempre precisa ter previsão para usar seu domínio técnico em bons equipamentos. Qualquer bom trabalho fotográfico traz consigo as leituras, os aprendizados, as vivências, as mensagens que o fotógrafo quer partilhar, provocar. É necessário ter uma visão pormenorizada, atenta aos detalhes, que vise não ser repetitiva. Tem que se tentar fazer o que outros não fizeram e, se isso não for possível, fazer melhor do que já foi feito.
Como você expressa ‘as entregas’ dos artistas voluntários em suas fotografias?
O voluntariado não tem preço, mas tem um valor incomensurável. Registrar o evento de Corpus Christi é prestar uma homenagem a estas pessoas que contribuem de forma desapegada a uma arte alicerçada na fé. Artistas natos ou não e religiosos se entregam a algo que acreditam, mantendo uma tradição ininterrupta desde 1948, mas que teve edições anteriores desde a década de 1920. Antes havia uma só paróquia e as famílias transformavam a terra, os paralelepípedos, os blocretes em arte. As famílias do Centro e dos bairros mais antigos foram deixando os enfeites, assumidos por entidades e as demais paróquias, sendo que hoje temos 11 delas. Vejo famílias inteiras ainda pelas ruas e as registro, assim como crianças, jovens, adultos e idosos. As pessoas se agacham, ajoelham, deitam para o fazer da arte, tudo sem nada cobrar. É para estas pessoas que dedico meus registros fotográficos.
Qual é a sua foto favorita da exposição?
Há uma fotografia na qual registrei faces de diferentes pessoas no momento da celebração eucarística principal, antes da procissão. É uma foto da fé expressa nos semblantes. É impossível não concordar que a fé está ali naquelas pessoas. Quisera eu ter a fé da nossa gente.
Sobre o autor
Jornalista e fotógrafo, Rogério Bordignon (MTb 27.106) nasceu em Matão, no dia 13 de maio de 1972. Filho de Norival Angelo Bordignon e Dalva Vidal Bordignon, é irmão de Ricardo e Raquel. Formado em Comunicação Social (ênfase em Jornalismo) pela Universidade de Ribeirão Preto (Unaerp), em dezembro de 1994, criou e desenvolveu o Jornal Espaço.10 para a Espaço Matão Comunicações, de março de 1995 a abril de 1996. Passou por três experiências como assessor de imprensa no meio público. Está em atividade profissional no Jornal A Comarca desde março de 1996.
Exposições fotográficas e obras literárias:
1) ‘A Matonense no Paulistão - 1998 e 1999’ (2000).
2) ‘Há Vida’ - homenagem a Segundo Massocato (2004).
3) ‘Corte Atemporal’ (2006).
4) ‘Um dia... Matão!’ (2008), lançando simultaneamente o DVD homônimo.
5) Mostra fotográfica no Centro de Apoio a Juventude (Caju, 2009).
6) Mostra fotográfica no Senai ‘Oscar Lúcio Baldan’ (2009).
7) Participações em três livros organizados por Eduardo Waack (‘O Boêmio’), coletâneas de diversos temas e autores.
8) Livro comemorativo ao Centenário do Grupo Bambozzi (texto e fotografias, 2010).
9) Em dezembro de 2010, lançou o DVD ‘Um dia... Corpus Christi!’.
10) ‘Noite, Água e Luz’ (2012).
11) ‘Que saudade, padre Marcos!’ (2014).
12) Livro ‘Abra as portas, Gargalo! - Histórias da Terra da Saudade’ (2019).
13) Livro ‘O importante é o que vem depois - Ademar Antonio de Toledo’ (2022).
Premiações:
- Obteve ‘Menção’ no Mapa Cultural Paulista 2005-2006 (Artes Visuais - Fotografia), com o conjunto ‘Há Vida’ (Segundo Massocato).
- Foi vencedor do Mapa Cultural Paulista 2009-2010 (Artes Visuais - Fotografia), com o conjunto ‘Chove Lava’.
- Foi vencedor do Mapa Cultural Paulista 2013-2014 (Artes Visuais - Fotografia), com o conjunto ‘É pênalti! O artilheiro, o goleiro e a mídia’.
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