ARTIGO: A renovação da Casa de Acolhimento
POR PAULO BERNARDI
Do acervo · publicada originalmente em 6 de janeiro de 2024
Fonte: Paulo, advogado, é presidente da 82ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-Matão) e vereador pelo MDB (2020/2024), postado por Natali Galvão
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Foto: Divulgação
Acervo · 2024Em 1999, ao assumir a presidência do Comcriama (Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Matão), deparei-me com uma realidade desafiadora: a Casa Abrigo, na época, consistia em dois quartos, uma pequena cozinha e um pequeno banheiro, um espaço adaptado para acolher crianças em situação de vulnerabilidade. A querida Laila El Kadre, mãe de tantas crianças da Casa Abrigo, a hoje conselheira Ana Maria, a sempre conselheira tutelar Ermelinda Maria Rossi Chiozzini, as maravilhosas colaboradoras da Casa Abrigo, são algumas das testemunhas desses e de tantos outros fatos.
O Comcriama, em parceria com o dedicado conselheiro Roberto Rossi, meu braço direito durante muitos anos no Comcriama, concebeu a inovadora Campanha do Tijolinho. A ideia era simples, mas a solidariedade do povo matonense a tornou grandiosa. Cem mil tijolinhos simbólicos foram vendidos a R$ 1,00 cada, um gesto coletivo para erguer a nova Casa Abrigo. Com o apoio essencial da Prefeitura e da comunidade, conseguimos concretizar esse sonho. O resultado foi uma estrutura moderna, espaçosa, com apartamentos, ampla cozinha e espaços que possibilitavam maior mobilidade e interatividade para as crianças. Um ambiente muito mais acolhedor e com aspecto de lar.
Registro o papel fundamental do Fabio Marques Martins, meu querido amigo Maguila, que acompanhou toda a obra, juntamente com o inesquecível conselheiro Roberto Rossi. Ao longo dos anos, a Casa Abrigo infelizmente precisou crescer. E digo infelizmente porque o mundo ideal não deveria ter casas que servem para abrigar crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade e vítimas de toda a sorte de violência. Um crescimento marcado pela triste constatação de que, em um mundo ideal, não haveria a necessidade de casas para proteger crianças da violência.
Em 2012, deixei o Comcriama. Soube depois, com pesar, que a Casa Abrigo foi desativada daquele local e as crianças foram abrigadas em um imóvel locado. No início de 2023, ao conversar com o Dr. Ricardo Rinhel sobre recursos provenientes de multas para obras sociais, o que já tínhamos feito na época da pandemia de covid-19, vislumbramos a oportunidade de reerguer a Casa Abrigo. Em conversa com o prefeito Cido Ferrari e o secretário Willian Di Gaetano Bassi, obtivemos o apoio necessário.
Em reuniões com o juiz Dr. Ricardo Rinhel, os promotores Dr. Cleber Defina e Dra. Daniela Baldan Rein, o prefeito Cido Ferrari, o secretário Willian Bassi e eu, a Prefeitura se comprometeu a ceder o terreno, elaborar a planta e liderar a execução da obra, com significativa complementação de recursos. O Poder Judiciário e o Ministério Público liberaram R$ 500 mil e a Prefeitura já licitou o início das obras.
Compromissos familiares me privaram da assinatura da Ordem de Serviço, mas minha gratidão transborda ao Dr. Ricardo Rinhel, Dr. Cleber Defina, Dra. Daniela Baldan Rein, prefeito Cido Ferrari e secretário Willian Di Gaetano Bassi. Juntos, construímos a esperança de um abrigo renovado para as crianças vítimas de violência. Graças a esse esforço conjunto, em breve, Matão terá uma Casa de Acolhimento renovada, pronta para receber e oferecer um lar seguro e acolhedor às crianças vítimas de diversas formas de violência. Quem compartilhou comigo quase 15 anos na gestão da Casa Abrigo compreende a importância vital dessa obra. Não é apenas um edifício; é um refúgio de esperança, moldado por oportunidades para os que mais necessitam.
Um dia, pouco antes da pandemia – se a memória não falhou –, tive um problema com um aparelho de ar condicionado em minha residência. Era uma sexta-feira, finalzinho da tarde e comecei a ligar para as empresas especializadas. Algumas fechadas, outras sem condições de me atender. Pedi auxílio e me indicaram dois ou três técnicos. O primeiro me atendeu e disse que estava em Silvânia, mas garantiu que em meia hora estaria em minha casa.
De fato, em meia hora, ele chegou. Na porta de casa deparei-me com um jovem extremamente educado e que, em poucos minutos, arrumou o aparelho. Estranhei a forma como ele me olhava. E ele me disse: “O senhor não se lembra de mim”, e me disse o seu nome. Claro que não lembrei, não nego. E ele continuou: “Eu sou o Fulano, irmão do Beltrano, e moramos muitos anos na Casa Abrigo com você e a Tia Laila” (nomes omitidos propositadamente).
Pela narrativa de um fato peculiar ocorrido com o irmão dele, minha memória foi recobrada na hora. Foi um fato muito grave, que colocou o irmão dele entre a vida e a morte, necessitando de uma cirurgia em hospital de outra cidade. E ficamos meia hora, na sala de casa, na presença dos meus filhos Rodolpho e Neto, ouvindo as histórias de vida dele.
E para nos fazer emocionar, ele disse textualmente – e esse contexto, eu nunca vou esquecer: “Se não fosse você e a Tia Laila terem me acolhido na Casa Abrigo, me feito estudar, eu não teria conseguido ser nada na vida ou talvez teria ido para as drogas. Hoje, eu cuido do meu irmão, tenho uma empresa de prestação de serviços, casei e constituí família, e ainda cuido do meu pai”. Só por esse fato, digo: Valeu a pena!
Apesar dele ter se referido a mim, transfiro a menção e minha gratidão a todos os conselheiros do Comcriama pelo apoio incondicional durante todas as minhas gestões, aos conselheiros tutelares, aos prefeitos e secretários com os quais convivi como presidente do Comcriama e que nunca faltaram às nossas iniciativas (Casa do Pequeno Cidadão, destaco, dentre outras); às colaboradores da Casa Abrigo, dedicadas ao extremo e transmitindo às crianças e adolescentes o amor que, por razões que a própria razão desconhece, foi negado a eles; a todas as pessoas que ajudaram na construção da Casa Abrigo, às empresas parceiras e a cada pessoa que demonstrou tanto amor por aquelas crianças.
A Casa Abrigo, nas festas, esvaziava-se; as crianças partiam para lares temporários. Um gesto de amor e fraternidade. Valeu a pena. Foram anos incríveis e que deixaram marcas em muitas pessoas, de modo especial em mim.
Enfim, fazer o bem é como plantar sementes de amor que crescem no coração.
“O verdadeiro significado da vida é descoberto na dedicação ao serviço e na caridade para com os outros” (Martin Luther King Jr.)
(Em memória do sempre conselheiro Roberto Rossi)
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