CRÔNICA: Natal 1993
POR PAULO CÉSAR CEDRAN
Do acervo · publicada originalmente em 23 de dezembro de 2023
Fonte: Paulo Cesar Cedran, mestre em Sociologia e doutor em Educação Escolar, postado por Natali Galvão
· Leitura de 6 min
Foto: Divulgação
Acervo · 2023A Missa do Galo tinha terminado por volta das 21h30. Estávamos muito felizes que os cantos do CD ‘Missa Natal de Luz’, com letra e música de José Acácio Santana, tinham sido perfeitamente ensaiados pelo grupo coordenado pela Sônia Stinatti. Foi mais de um mês de ensaios do grupo de canto na Paróquia São Francisco de Paula, para que a missa da vigília de Natal, que celebra o nascimento de Jesus, deixasse em cada um de nós, em cada de um dos presentes, aquela inexplicável sensação de que um tempo novo estava para chegar, de que a humanidade que vivia nas trevas seria redimida, porque Deus visitou seu povo e enviou, para junto de nós, Seu filho Jesus.
Com essa sensação que muitos atribuem ao espírito de Natal, após a missa, descemos pelas ruas centrais da nossa cidade para encontrar amigos que já estavam antecipando os festejos de Natal. Essa era a marca daquele grupo de canto de quando tínhamos vinte e poucos anos e, entusiasmados, irradiávamos na comunhão do cantar o nosso serviço a Deus. Saímos da Matriz, situada na Praça ‘Dr. Carlos Pinto Alves’, e na Rua Bernardino de Carvalho iniciamos nossa caminhada pela Avenida D. Pedro II; em seguida pegamos a Avenida Sete de Setembro e ficamos na Rua Batista Barbieri, na recém inaugurada Praça ‘Vicente Cimatti’, defronte à Praça ‘Dr. Marcio Alves Natel’ – a primeira construída e a outra recém reformada pelo então prefeito Sidney Paulo Cimatti. Ali pulsava o coração do centro de Dobrada.
Neste pequeno percurso, descemos cantando as músicas da época, canções de serestas que a dona Neider Scabello e a professora Nancy Nocitti nos ensinaram e, lógico, os cantos da missa que estavam na ponta da língua. O José Carlos e o Carmim no violão, a Lurdes, a Marli, a Iraci, a Marinalva e a Isaura, eu, o Carlos e o Toninho. A esse grupo se juntou mais gente na praça. Sem nenhum pudor, após os cumprimentos de Feliz Natal, descemos já cantando. A primeira parada seria na casa da dona Neider, que estava em São Paulo; passamos devagar defronte à casa da dona Lilian Barbian Comar que, junto do sr. Eugênio Comar, escutou a cantoria.
No outro dia, na missa do dia de Natal, ela iria agradecer. Logo abaixo, na casa da família Turrici Mendonça, a grande família estava reunida, já um pouco recolhida, porque os mais idosos já necessitavam de certo silêncio, e com respeito saudamos e fomos saudados. Relutamos na casa abaixo, em parar na dona Maria Rosa Morano Passerini, que estava acompanhada de sua irmã Carmela, vindo de São Paulo para passar o Natal. Mas não podíamos deixar de parar ali. Sempre animadas, eram também as incentivadoras das serestas e carnavais em Dobrada. Começamos a cantar na janela e, na porta bem próxima, elas já podiam estar dormindo. Mas que grata surpresa: a porta se abriu e, em prantos e risos que se misturavam naquele momento, elas saíram para nos encontrar. Foi difícil e não consegui conter as lágrimas.
Fazia pouco mais de três meses que o dr. Domingos Morano Neto, para nós o Nenê Morano, tinha nos deixado. A Maria Rosa, em particular, estava inconformada, pois um outro pedacinho tinha morrido junto em um luto comparável ao de seu querido esposo Olívio Passerini. Aquele gesto foi nossa maneira de dizer que elas podiam contar conosco, que estávamos ali para deixar um pouco da luz de Jesus diante da escuridão do luto e da morte. Paramos na praça e ficamos certo tempo por ali. O Toninho teve então a ideia de irmos pela Rua Inácio Alvares cumprimentar a tradicional família Scabello, a Cristina já estava na direção da escola agrupada de Dobrada, que no ano seguinte receberia o nome de ‘Professora Adreana Comar’. Ela também, no início daquele 1993, num trágico acidente provocado pela imprudência de outrem, nos deixou. Com ela também perdemos o jovem Paulo Sergio Gasparini, seu namorado. Ele tinha sido meu aluno e ela, amiga de infância, desde a nossa pré-escola em 1975.
Acatando sugestão do Toninho, fomos à casa do sr. Frederico Scabello e da dona Adelaide Leite Scabello; adentramos pelos fundos da Farmácia Santa Terezinha, a mais tradicional da cidade, para cantar junto à família. Durante o canto, o portão se abriu e, pouco a pouco, a maioria dos familiares estava lá no portão, ouvindo e cantando conosco. Quando íamos nos despedir, a Cristina e o Gilberto, o Marco e a Celina, praticamente nos intimaram a entrar e partilhar da mesa da família, à espera da ceia de Natal. Um pouco acanhados, adentramos e cumprimentamos, em especial, o casal Frederico e Adelaide, bem idosos e debilitados pelos problemas de saúde, que retribuíram com sorrisos e brilhos nos olhos que me marcam até hoje. Estavam a Tereza e seu esposo Renault, com suas filhas Adriana e Marcela, a Lurdinha e o Francisco Gimenez e os filhos; Paulo, Ana e Carlos, o Marco, a Celina e sua mãe, a Cristina, o Gilberto e os filhos Rodrigo, Roberta e Rafael. Praticamente, a família toda estava ali.
Pela primeira vez, comi figo seco, vindo da Turquia, oferecido pelo Marco, que para ele era o melhor, além de damascos, tâmaras, passas... A Celina nos fez provar a sobremesa que seria servida na ceia. Comemos salgados de entrada, que a Cristina e o Gilberto nos ofereceram. Bebemos e cantamos mais algumas músicas e pedimos licença para irmos embora. Eu passaria a ceia na casa de meu tio José Cedran, que minha prima Edna estava organizando. Na minha casa, meus pais e minha avó dormiam. Tudo estava em paz!
Meu Deus, já se foram 30 anos. Hoje, o grupo de canto apequenou-se na igreja. Ao final, todos vão embora e mais nada. As casas do centro, pelas quais passávamos, ficaram mais vazias. Já se foram dona Neider, dona Nancy, dona Lilian, dona Carmela, minha avó e minha mãe, Marco, Adelaide, Renault, Tereza, o Carlos e, em pouco menos de um mês, a Lurdinha. O que ficou? Quem ficou? Ficou a memória persistente que traz uma saudade tão profunda e cortante que faz do misto de alegria e tristeza, uma certeza de maturidade que somente adquirimos, que reconhecemos e sentimos o que significa a expressão brevidade da vida.
Deixamos naquele 1993, bem como lutamos para deixar neste 2023, o espírito de Natal, nas casas que cantamos e na nossa vida que, insistentemente, buscamos em Jesus Menino renovar. Mas como demorou para eu compreender realmente o que tão bem expressou Mario de Andrade no conto ‘O peru de Natal’, quando diz: “Nós sempre fôramos familiarmente felizes, nesse sentido muito abstrato de felicidade...”. Sim, abstratamente, hoje somos felizes? Em 1993, fomos concretamente, inocentemente felizes? Ou o passar do tempo nos ensinou como no clássico natalino ‘Boas Festas’, do compositor Assis Valente: “Felicidade é brinquedo que não tem”.
Bom Natal!
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