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Perda: Luiz Comelli deixa de cuidar de nós

Farmacêutico partiu na quarta-feira (8), após mais de 60 anos dedicados à profissão

Do acervo · publicada originalmente em 10 de novembro de 2023

Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão

· Leitura de 4 min

Foto: Divulgação

Luiz Comelli, em depoimento para A Comarca, em junho de 2016. "O que mais me alegra é quando a pessoa me abre um sorriso e diz que o medicamento curou, que fez bem; assim, me sinto mais útil em mAcervo · 2023
Luiz Comelli, em depoimento para A Comarca, em junho de 2016. "O que mais me alegra é quando a pessoa me abre um sorriso e diz que o medicamento curou, que fez bem; assim, me sinto mais útil em m

No último dia 8 de outubro, Luiz Antonio Comelli foi internado no Hospital do Amor (Barretos) para a retirada de tumor no intestino grosso, visando biópsia. Uma infecção comprometeu seus pulmões. Ele teve ligeiras melhoras, mas a recuperação não se sustentou. Luiz faleceu por volta das 4h30 da última quarta-feira (8), no referido hospital, aos 74 anos de idade. A vigília fúnebre ocorreu na Matriz Senhor Bom Jesus, onde familiares receberam uma Matão entristecida. O acolhimento religioso foi feito pelos padres Jorge Nahra e Vagner Peruchi.

Luiz Antonio Comelli nasceu em Matão, no dia 25 de janeiro de 1949. Segundo dos quatro filhos dos saudosos João Antonio Comelli e Dolly Bastia Comelli, tem como irmãos Kathlen Meyre, João Antonio Comelli Filho (Joãozinho) e Velia Gislene. Casou-se com Vera Lúcia Caldeira Comelli, no dia 15 de abril de 1983. São pais de Amanda Cristina (formada em Farmácia pela USP-Ribeirão Preto) e Giovana Cristina (formada em Psicologia pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM). Amanda se casou com Luis Eduardo André e são pais de Lívia.

Aos sete anos de idade, Luiz começou a ajudar seu pai, João Antonio Comelli, na antiga Farmácia Toriba, propriedade dele, que ficava na frente da casa da família, ao lado do extinto armazém Perez & Perez. João vendeu aquele estabelecimento para o também farmacêutico Idarineu Pires de Moraes e inaugurou a Farmácia Nossa Senhora Aparecida na esquina da Rua João Pessoa com a Avenida Campos Salles (Centro), em 1959, quando sequer havia asfalto por ali. Naquele período, Matão contava com outras quatro farmácias em seu perímetro urbano: Central, São José, Schutel e Drogaria Hamilton.

“Tão logo comecei a perceber pessoas e cenas, vi meu pai trabalhando. Ele tinha o Mazon como ajudante. O médico que atendia várias Seções da antiga Companhia Inglesa Fazendas Paulistas era o doutor Góis, sendo auxiliado por meu pai. Lembro-me bem do meu pai aplicando soro em crianças desidratadas, atendendo de madrugada, debaixo de chuva, no frio, no vento... Me vem facilmente a imagem dele sentado na charrete, se dirigindo aos atendimentos. Isso está nas minhas memórias desde os meus três anos de idade”, contou Luiz em entrevista publicada por A Comarca em junho de 2016, quando ele completava 60 anos de profissão.

Luiz gostava de ver o pai atender e começou ajudá-lo no balcão, aos sete anos de idade. “Minha irmã Kathlen também o auxiliava em Toriba. Quando mudamos para o Centro, ela tinha 11 anos e eu 10. Meu pai e nós dois atendíamos. O Joãozinho e a Velia passaram a ajudar anos depois. Nosso pai chegou a contar com os quatro filhos, por certo tempo. Em 1974, a Kathlen foi para São Paulo, retornando em 1978 e aposentando-se na extinta Caixa Econômica Estadual. Chegamos a ter sete farmácias em Matão”, disse Luiz, naquela entrevista.

Trabalhar era com ele mesmo, sem preguiça alguma. Em dias, noites, sábados, domingos, feriados, calor, frio, sol, chuva... Não havia o que impedisse Luiz de cuidar de Matão, o que fez por 67 anos, atendendo gerações de famílias. Cito como exemplo eu e familiares, pois os Comelli atenderam meu bisavô Ernesto Maccagnan (Této); meus avós, Norberto e Norma; meu pai, Norival; a mim e, por poucos meses, minha sobrinha Ana Beatriz, quando bebê. Sim, os Comelli – sobretudo João e Luiz – atenderam a cinco gerações de meus familiares. Certamente, não somos os únicos que tiveram este privilégio.

Na Farmácia Nossa Senhora Aparecida, Luiz teve a companhia de Gilvanice Ferreira de Moura (Gil, desde 1984), Ramira Aparecida Guirro (parte administrativa, desde 1985), Daniela Luiz Leopoldino (farmacêutica responsável, desde 2010) e, mais recentemente, Velia. Procurado desde os tempos de Toriba, Luiz teve clientes fiéis de todas as idades, do berço até centenários. Profissional extremamente dedicado, tratou com muito carinho a todos, indistintamente. “Quando uma pessoa é tratada por mim, ou compra medicamento conosco e não fica curada, sinto bastante. Quero o bem de todos e é por isso que vivo, fazendo o que sempre fiz”, relatou em junho de 2016.

Luiz pertence a uma finíssima casta de farmacêuticos. Ainda existem raríssimos como ele, mas os integrantes desta última geração estão partindo, infelizmente. Luiz foi daqueles profissionais que prestam muita atenção, sabem ouvir, conversar, têm paciência, oferecerem carinho, esperança, respeitam legislações e entregam ou aplicam o medicamento correto prescrito pelos médicos. Ele foi um ilustre representante daqueles farmacêuticos que atendem a domicílio de forma precisa e muito respeitosa, em qualquer situação, a pessoas de todas as classes sociais.

“O que mais me alegra é quando a pessoa me abre um sorriso e diz que o medicamento curou, que fez bem; assim, me sinto mais útil em minha honrada missão. Ofereço um tratamento muito dedicado, fiel mesmo. Explico corretamente os medicamentos. Os anos de experiência e confiança me abriram as portas de centenas de pessoas. Elas confiam em mim, como farmacêutico e amigo. Estou aqui para ajudar essas pessoas a continuarem suas jornadas”, colocou Luiz, naquela entrevista de junho de 2016, lida agora com o sentimento de perda. Sim, partiu a pessoa que mais cuidou de mim quando eu precisei de atendimento farmacêutico. Por que não, médico?

Muito obrigado, Luiz!

Deus te pague!

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