CRÔNICA: Natal em agosto
POR PAULO BERNARDI
Do acervo · publicada originalmente em 11 de setembro de 2023
Fonte: Paulo Bernardi, 'Papai Noel por um dia', postado por Natali Galvão
Foto: Divulgação
Acervo · 2023O calor de agosto – esse tempo louco de agosto – pairava sobre a cidade como uma manta pesada, mas, dentro da casa dos pais Lello e André, um milagre de Natal estava prestes a acontecer. No entanto, não era o Natal em dezembro, com luzes e árvores enfeitadas, mas um Natal inesperado, quase mágico, em pleno mês de agosto.
Maria Julia (a Maju), com seus seis anos de idade, era a estrela daquela tarde ensolarada. Seus olhos curiosos brilharam quando ela me viu pela primeira vez numa festa. Para ela, minha barba branca e minha presença fizeram de mim o próprio Papai Noel. A ingenuidade infantil é um presente, e eu não poderia negar a ela a alegria de acreditar na magia.
“É o Papai Noel!”, exclamou, e a partir daquele momento, eu era o Papai Noel para ela. E até hoje eu sou. Ela dispensou a roupa vermelha e o gorro, nada que combine com o calor tropical de dezembro. A barba branca era o símbolo máximo do bom velhinho. Ela começou a fazer perguntas, e eu respondi com um sorriso, confirmando que eu era, de fato, um dos muitos Papais Noéis do mundo.
Então veio o pedido mágico: uma casa de bonecas da Barbie. Maju desejava um lar para suas bonecas, e eu estava determinado a tornar esse desejo em realidade. Com a ajuda do ‘Papai Noel verdadeiro’, consegui a tão desejada casa da Barbie.
Antes da entrega, o pai Lello e o tio Dé cuidadosamente montaram a casinha, pois o Papai Noel, ocupado como sempre, havia esquecido desse detalhe. Isso é o mesmo que dar brinquedo a pilha... sem pilha. Quanta frustração! Finalmente, estávamos todos na casa deles, ansiosos pela chegada de Maria Julia, vinda da escola, junto com a mãe Vanda.
A tristeza que eu possivelmente carregava desapareceu assim que a vi. Seus olhos brilhavam de alegria enquanto ela corria em direção a mim, ou melhor, em direção à casinha de boneca. Em um abraço apertado, ela agradeceu ao ‘Papai Noel’ com um sorriso tão intenso que iluminou todo o meu dia, meu mês e meu ano, cuja cena jamais esquecerei.
Maju subiu as escadas com uma rapidez incrível, e logo estava mergulhada em seu mundo de fantasia na casinha da Barbie. Ela me levou em um tour detalhado por cada cômodo da casa real, comparando-os com os da casa da boneca. Com entusiasmo, ela exclamava: “Na casa da boneca também tem varanda!”, e assim por diante.
Fiquei maravilhado com a simplicidade e a alegria pura que emanavam daquela criança. O que era uma casinha de boneca para muitos, era um mundo inteiro de felicidade para ela. Aquele fim de tarde de agosto se tornou um Natal especial, não com presentes luxuosos, mas com a magia da infância e a gratidão genuína de uma criança.
À medida que me despedi, Maju correu em minha direção novamente, segurando uma sacola de supermercado. Dentro dela, três pequenos tomates e uma porção de manjericão que ela mesma colheu em sua pequena horta. Ela entregou-os com um sorriso radiante e disse: “Espera um pouco, tio Papai Noel”. Fiquei sem palavras, emocionado pela generosidade e pureza de seu gesto.
Não é preciso muito para ser feliz, percebi naquele instante. E, mais importante ainda, reaprendi algo que às vezes passa desapercebido na velocidade do mundo: que o espírito do Natal não precisa estar limitado a dezembro. O verdadeiro espírito natalino está em compartilhar alegria, amor e generosidade, não importa a época do ano.
Nesse 31 de agosto, Maria Júlia, eu, Lello, André, Vanda e o Rogerinho, que chegou no fim, experimentamos a verdadeira magia do Natal em pleno agosto. Nós todos aprendemos que a alegria está em oferecer carinho, que o amor é uma força poderosa que transcende datas no calendário e que a generosidade é uma virtude que deve ser cultivada em todos os momentos da vida.
E assim, o Natal de agosto de Maria Júlia se tornou uma lembrança eterna de como o verdadeiro espírito natalino está em compartilhar alegria, amor e generosidade, não importa a época do ano. Quando se tem o amor de uma família como a de Lello e André, e a alegria de uma criança como Maju, o Natal pode acontecer a qualquer momento do ano. E que presente maravilhoso é poder ser o ‘Papai Noel’ para tornar os sonhos de uma criança em realidade, não importa a estação.
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