ARTIGO: Somos revelados em Coro e Osso
POR SERGIO GABRIEL
Do acervo · publicada originalmente em 11 de setembro de 2023
Fonte: Sergio Gabriel, jornalista e editor de 'A Comarca', postado por Natali Galvão
Foto: Diogo Mar
Acervo · 2023‘Vem ver’.
Este é o nome certeiro do novo espetáculo do Grupo Vocal Coro e Osso, apresentado nos dias 25 e 26 de agosto e de 1 a 3 de setembro no auditório da Casa da Cultura. Certeiro porque se trata mesmo de um convite, de um chamamento para o que se revela por meio da vasta diversidade rítmica e da beleza harmônica e melódica de canções que sintetizam cada canto do Brasil. Assim como espetáculos anteriores do Coro e Osso, ‘Vem ver’ prima por um roteiro muito bem elaborado, fundamentado por um repertório primoroso que reverencia a rica tradição de nosso cancioneiro e lança luz à produção contemporânea de compositores como Douglas Germano, Sérgio Pererê e Lula Queiroga.
Após abrir o espetáculo com a canção ‘Vem Ver’ (de Sérgio Santos), que já destaca a essência das matrizes rítmicas africanas, o Coro e Osso logo dá vazão a sua infalível capacidade de nos emocionar com ‘O que é o amor’ (Danilo Caymmi e Dudu Falcão). Nesta e em outras canções é notável a sintonia entre os integrantes do coro quanto ao controle de intensidade ditado pela regência precisa do maestro Luiz Piquera, que assina todos os arranjos. São admiráveis os momentos em que o grupo vai diminuindo o volume da emissão vocal, ao final de ‘Água Doce’ (Roque Ferreira) e ‘Velhos de Coroa’ (Sérgio Pererê), até a música gradualmente desaparecer (fade out).
Destaque também para a interpretação da bela ‘Tempo Velho’ (Douglas Germano). No entanto, o ponto culminante do espetáculo é a performance arrebatadora do grupo no clássico ‘Clube da Esquina nº 2’ (Milton Nascimento, Lô Borges e Márcio Borges). O belíssimo arranjo de Luiz Piquera realça ainda mais a estrutura poética da canção ao criar nuances com variações de intensidade que ressaltam o conflito de sentimentos (Porque se chamavam homens / Também se chamavam sonhos / E sonhos não envelhecem / Em meio a tantos gases lacrimogênios / Ficam calmos, calmos, calmos, calmos, calmos). A interpretação evidencia a maturidade técnica de um grupo cujos integrantes partilham seus sonhos há quase 33 anos. E sonhos não envelhecem...
O passeio pelas formas musicais que expressam a identidade cultural em diversos cantos do país entrelaça o espetáculo do Coro e Osso, pontuado também pelos tambores tocados por Lilian Sampaio e Carol Rossi que evocam maracatus, congados, cirandas (‘Ah, se eu vou’, de Lula Queiroga) e sambas de roda. Em contraponto a toda essa tradição surge o rap ‘É tudo pra ontem’ (Emicida), em que integrantes do grupo vocal não hesitam em se arriscar no desafio de se manterem em sintonia no texto falado e sincopado dessa forma musical.
Coerente com as pesquisas que sempre estiveram presentes na trajetória do grupo vocal e com a proposta do atual espetáculo, o repertório não poderia deixar de contar com um canto indígena (desta vez, do povo Kariri-Xocó), entremeado pelo texto inspirador do escritor e ambientalista Ailton Krenak lido por Edna Gardini. Logo na sequência, a essência de nossa raiz caipira é resgatada com o clássico ‘Tristeza do Jeca’ (Angelino de Oliveira), em outro lindo arranjo de Piquera (Eu nasci naquela serra / num ranchinho beira chão / todo cheio de buracos, onde a lua faz clarão).
O arremate preciso à proposta de ‘Vem ver’, cuja essência consiste na valorização da diversidade cultural de nosso povo e na harmonia entre as diferenças, é alcançado com a sublime ‘Tomara’ (Alceu Valença e Rubem Valença), canção que traduz os anseios do Coro e Osso em forma de prece (Tomara meu Deus, tomara / Uma nação solidária / Sem preconceitos, tomara / Uma nação como nós).
O público que lotou o pequeno auditório instalado na Casa da Cultura, nas sete apresentações do grupo em cinco dias, foi envolvido por essa atmosfera de amor e arte. No entanto, como é bom (re)vivenciar as experiências proporcionadas por esse convite-chamamento do Coro e Osso: ‘Vem ver’.
Ah, se eu vou...
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