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Negócios

Investindo na criação

Produtores de frango se adequam cada vez mais às exigências do mercado

Do acervo · publicada originalmente em 24 de abril de 2023

Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão

· Leitura de 9 min

Foto: Rogério Bordignon

Edvângela Muniz, em sua Mega Granja tecnológicaAcervo · 2023
Edvângela Muniz, em sua Mega Granja tecnológica

De acordo com a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as exportações brasileiras de carne de frango – considerando todos os produtos entre in natura e processados – totalizaram 4,822 milhões de toneladas em 2022. O volume é recorde histórico e supera em 4,6% o total registrado em 2021, com 4,609 milhões de toneladas. A receita em dólares obtida com as exportações alcançou US$ 9,762 bilhões, outro resultado inédito, desempenho 27,4% maior que o obtido em 2021, com US$ 7,663 bilhões.

Entre os principais destinos de exportações, segundo a ABPA, a China seguiu como principal, com 540,5 mil toneladas importadas entre janeiro e dezembro de 2022, volume 15,6% menor que o registrado em 2021, com 640,4 mil toneladas. Em segundo lugar, os Emirados Árabes Unidos importaram 444,9 mil toneladas no ano passado, superando em 14,2% o total embarcado no ano anterior. Outros destaques foram Filipinas, com 246,3 mil toneladas (+46,5%), União Europeia, com 237,9 mil toneladas (+22,8%), e Coreia do Sul, com 185,4 mil toneladas (+62,9%).

No último mês de janeiro, a ABPA constatou que as exportações brasileiras de carne de frango atingiram 420,9 mil toneladas, quantidade recorde para o mês, superando em 20,6% o total exportado no primeiro mês de 2022, com 349,1 mil toneladas. O resultado em dólares das exportações do último janeiro chegou a US$ 856,6 milhões, 38,9% superior ao alcançado no mesmo período do ano passado, com US$ 616,9 milhões.

Aproximadamente 69% da carne de frango produzida no Brasil tem como destino o mercado interno e 31%, o internacional. O estado que mais comercializa frango é o Paraná, que – além de principal produtor – também é o que mais exporta esta carne, respondendo por 41% do total brasileiro, vendendo para cerca de 160 países. É quase o dobro das exportações de Santa Catarina, segundo lugar, com 21,6% das exportações. Na sequência vem o Rio Grande do Sul, com 17%. Tecnicamente empatados na quarta/quinta colocações estão Goiás e São Paulo.

O site Avisite mostra que, iniciado em período anterior, o grande avanço brasileiro no mercado internacional foi observado nos cinco primeiros anos da década de 2000. Dados divulgados no último dia 16 de janeiro, pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), mostram que a produção brasileira de carne de frango poderá registrar aumento de 3,1% em 2023. A ABPA perspectiva que, neste ano, o Brasil assumirá o segundo lugar de maior produtor de frango do planeta. Não está descartado novo recorde nas exportações.

EM MATÃO

“O pioneiro na criação de frango de corte em Matão foi Valter Jardim, começando em 1986, no Sítio Ana Perla (bairro da Josefina), inicialmente com um barracão de 15 mil frangos, chegando a 150 mil no sistema de integração. Permaneceu na atividade até 2013”, cita Luiz Manhani. Responsável pela Casa da Agricultura ‘Paulino Rossi’, Manhani é engenheiro agrônomo formado em 1985 pela Universidade Federal de Lavras (Ufla). No início da década de 2000, além de Jardim, existiam mais 17 criadores de frango de corte de Matão, com propriedade no município ou fora.

Naquele período, os cinco maiores avicultores no segmento de corte com propriedade no município eram Valter Jardim, Luiz Antonio Colombera (Sabiá), Oswaldo Denadai/Kiko Bergamin, Gonçalino Pereira e Urbano Regi. Dos criadores de Matão com propriedade em outros municípios destacavam-se Mário Gonçalves, Dimas/Jonas Bernichi, Luiz Antonio Gigliolli Johansen (Fritão) e Antonio Carlos Baccaro. Nos primeiros anos daquela década, a produção avícola de corte destes criadores citados atingiu a dez mil toneladas por ano.

“Por alguns motivos, dentre os quais as dificuldades exigidas na produção, a maioria dos produtores abandonou a atividade. Os que ficaram tiveram que investir muito em cuidados sanitários e tecnologia, sendo que outros iniciaram a atividade sob as mesmas exigências. Pode-se afirmar que em Matão não houve aumento na capacidade de alojamento de frangos, mas que ocorreu aumento na produção/peso/dias devido a tecnologia aplicada, melhoria na alimentação, cuidados sanitários e bem-estar animal”, resume Manhani.

MEGA GRANJA

Maria Edvângela Garcia Amorim Muniz nasceu no dia 4 de fevereiro de 1979 em Potiretama (CE), de onde seus avós paternos, Ignácia e Francisco, saíram para vir a Matão em 1975. Portanto, o município já era conhecido deles quando os pais de Edvângela, Edmílson e Fátima, decidiram voltar para cá em 1982, já trazendo ela com três anos de idade e seu irmão Francisco com quase dois. Outros dois irmãos nasceram em Matão: Marcelo e Michele.

“Retornamos todos para Potiretama. Meu pai faleceu quando eu tinha 13 anos e fui batalhar em São Paulo (Capital), onde morei com primos. Sou casada há 25 anos com José Tadeu Muniz e somos pais de Lorenzo e Bianca. Em 2014 e 2015, adquirimos duas chácaras em Matão, uma vizinha da outra: a do Ipê e a Nossa Senhora Aparecida, comprando-as de José Gonzaga de Aquino e de Gonçalino Pereira”, relata.

Na Chácara Nossa Senhora Aparecida havia dois galpões onde Gonçalino tinha criado frangos de corte. Conterrâneo de Edvângela em Potiretama, Francisco Genieudes da Silva – que havia se aposentado como prensista na Baldan Implementos Agrícolas, onde trabalhou por 21 anos – instigou-a a criar frangos de corte e em junho de 2016, em integração com a empresa Adoro S/A, foram colocados 43.500 pintinhos nos dois galpões daquela chácara.

Em maio de 2021, a parceira era a Gonzalez, momento em que já eram quatro galpões. Em novembro de 2021, a integração foi feita com a Pluma e, desde dezembro de 2022, há um contrato firmado com a JBS. Atualmente, cerca de 180 mil frangos são alojados em cinco galpões, sendo que o sexto está em reforma, prevista para ser concluída no próximo mês de junho. Todos estão na Mega Granja, sendo ‘Mega’ uma palavra formada por letras iniciais do nome de Edvângela.

Para atingir tamanho de corte, os pintinhos levam 42 dias contados a partir da data de chegada. “Do recebimento até o quarto dia, a temperatura é mantida em 33º Centígrados (ºC); do quinto ao nono dia, em 30ºC; e depois mantemos com uma sensação térmica de 26ºC a 28ºC, baixando para a temperatura de 19ºC do 35º dia até a saída para o abate”, diz Francisco da Silva. Tudo é operado de modo eletrônico: controlador de temperatura, placas evaporativas, exaustores, nebulização, sistema cortinado de ar, Túnel Door, iluminação, alimentação e hidratação. Seis pessoas controlam os seis galpões.

São de cinco a seis ‘granjadas’ por ano. Os abates são realizados pela JBS em Guapiaçu (SP) ou Limeira (SP) e a carne segue para exportação, sendo que a empresa faz constante controle da produção. “Não dá nem pra piscar”, afirma Francisco. “A JBS faz um controle extremo relacionado a cuidados com Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), higiene sanitária, de todas as atividades, até da acidez da água. Isso é necessário para produzirmos frangos livres da gripe aviária e em conformidade com o mercado”, reporta Edvângela, bacharel em Direito pela Universidade em Guarulhos (UNG), onde se formou em 2005.

CHÁCARA MARIA ANTONIA

Moacir Fernandes nasceu em Matelândia (PR) no dia 26 de novembro de 1976. Em 1981, o caçula de Fausto Fernandes e da saudosa Antonia de Lourdes Fernandes chegou a Matão juntamente com seus irmãos Roseli, Sérgio, Neide, Roberto e Reinaldo. “Nosso pai preferiu ser colhedor de laranja em Matão, sendo que fomos todos para Sorocaba em 1986”, lembra Moacir.

Em 1997, Fausto voltou para Matão, onde adquiriu a Chácara Maria Antonia. Já aposentado, montou seu primeiro aviário para 20 mil cabeças, vendendo a criação para a empresa Rei Frango. “Meu pai me convidou e juntos fizemos o segundo galpão, com capacidade para 25 mil frangos, sendo que sucessivamente vendemos a produção para as empresas Rigor, Adoro, Gonzalez”, conta Moacir. Desde outubro de 2021, os frangos são comercializados com a Santa Cecília, empresa de Itapuí (SP).

“Não tem outro jeito: é um trabalho sequente, de noite e de dia. Se algo anormal acontece, tem que levantar da cama no meio da madrugada, com frio, chuva, sob qualquer céu. Acordar cedo, trabalhar aos finais de semana e feriados... afinal, todas as exigências relacionadas à empresa têm que ser cumpridas para os frangos crescerem saudáveis e no padrão de mercado para o abate. A temperatura é o aspecto primordial”, frisa Moacir.

“Tem que aquecer certo quando pintinho e manter a temperatura ideal quando os frangos estão adultos”, ressalta. Ele e a esposa Rosana Aparecida Claro Fernandes têm a filha Karen, que estuda Medicina Veterinária na Uniara. Como Fausto sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC) em outubro de 2015, é Moacir quem cuida dos dois aviários da Chácara Maria Antonia há sete anos.

A avicultura ao longo dos tempos

No início, prática visava a subsistência

As primeiras referências a galináceos surgem em cerâmicas gregas, no Século VIII a.C., sendo que a ave começou a ser domesticada provavelmente na China. Mestiços, os primeiros frangos chegaram ao Brasil trazidos pelas caravelas de Pedro Álvares Cabral em 1500. A avicultura nacional se desenvolveu a partir de municípios litorâneos.

Um informativo da Equipe Aves/Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP/Piracicaba), identifica que os primeiros passos da avicultura brasileira foram dados por produtores familiares, presentes até hoje em várias regiões do país, na criação de aves rústicas (‘caipiras’), que juntamente a outras produções – de leite, ovos, carnes bovina e suína – eram responsáveis pela subsistência e geração de renda.

A avicultura tornou-se comercial pouco antes da década de 1930. Nesse período, o setor já se fortalecia com iniciativas privadas originadas principalmente da Região Sudeste, com destaque para a aceleração da atividade no estado de São Paulo durante a chegada dos imigrantes japoneses. O desenvolvimento se efetivou na década de 1970, com a entrada de empresas processadoras no mercado e especialistas no processo de produção do frango. As transformações tecnológicas, as técnicas de produção intensiva e o desenvolvimento de genética adaptada contribuíram para o avanço da atividade.

No estado de Santa Catarina, na década de 1970, surgiu o sistema de Integração Vertical na avicultura, uma parceria entre a indústria (frigoríficos) e os produtores, modelo no qual o avicultor integrado passou a contar com o apoio industrial no fornecimento dos principais insumos da atividade, como ração e medicamentos, além de assistência técnica, reposição de lotes (pintinhos), entre outros itens. A produção é repassada à indústria, que garante a remuneração ao avicultor.

O novo sistema de produção, considerado mais intensivo, contribuiu para o desenvolvimento da avicultura nacional, principalmente nos quesitos relacionados à biosseguridade, sanidade, qualidade dos animais e da carne de frango. A presença da integradora tornou a atividade mais organizada, estabelecendo padrões de manejo e de boas práticas, bem como fornecendo assistência técnica para os produtores, como consta no informativo do Cepae-Esalq.

Os Estados Unidos são os maiores produtores de frango no planeta, com 20.378 mil toneladas (m/t) em 2021, seguidos da China (14.700 m/t) e do Brasil (14.500 m/t), segundo informações da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). De acordo com o site do Governo Federal, o Brasil é líder na exportação mundial de carne de frango desde 2004 e detém cerca de 35% desse mercado, comercializando para mais de 150 nações e gerando receita de US$ 7,6 bilhões.

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