Entrevista: Em busca do 20º acesso
O treinador Luiz Carlos Martins tenta atingir a marca com a Matonense
Do acervo · publicada originalmente em 4 de abril de 2023
Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão
· Leitura de 10 min
Foto: Rogério Bordignon
Acervo · 2023Em 1995, Luiz Carlos Martins foi campeão da Série A-3 do Campeonato Paulista como treinador do Noroeste, ocasião na qual somava dez anos de trabalho como técnico, pois sua carreira tinha começado em 1985, no Guaçuano. Após a conquista com o time de Bauru, havia a perspectiva da renovação do contrato para a disputa da Série A-2. No entanto, seu telefone tocou. Era o presidente da Matonense, Antonio Aparecido Galli, querendo contratá-lo.
“Tinha tendência em permanecer no Noroeste, pois Bauru era a cidade da minha família e eu estava em alta com a diretoria, com a torcida. No entanto, o convite do Galli mexeu comigo e como sou movido a desafios, encarei mais um para tentar subir a Matonense da Série B1-A para a Série A-3 do Paulista, o que conseguimos no mesmo ano de 1995”, conta.
Martins também conduziu a Matonense em 1996, na campanha que fez o time ascender da Série A-3 para a Série A-2. “Fomos campeões em 1995 e 1996. Mas, para mim, ser campeão é consequência de todo um trabalho que visa a promoção para uma divisão superior”, diz o ‘Rei do Acesso’, pois são 19 destas conquistas, segundo o cômputo do treinador.
Em 1997, Martins foi para o União Agrícola Barbarense e o saudoso Luiz Carlos Ferreira foi quem levou a Matonense para a Série A-1 do Paulista, divisão na qual a equipe de Matão permaneceu por cinco anos (1998 a 2002), continuando fora dela pouco mais de 20 anos depois. Em 2015, o time disputou a Série A-2, mas foi rebaixado e agora tenta retornar a esta divisão.
No último dia 31 de janeiro, Martins iniciou sua terceira jornada como técnico da Matonense. Após ser campeão da Série A-3 com o Noroeste em 2022 e ter iniciado mal a disputa da Série A-2 com o time de Bauru em 2023, ele pensava em descansar por uns três meses, depois de atuar contínuos três anos e quase três meses no Noroeste. Porém, o telefone dele tocou e Galli o convidou para reassumir a Matonense.
“A primeira meta – a do time não ser rebaixado para a Série B – foi superada. A segunda meta – classificar entre os oito – também foi cumprida. Agora, estamos buscando a terceira meta: levar a Matonense para disputar a Série A-2 em 2024”, comenta Martins. Na entrevista que segue, a reportagem de A Comarca atendeu a um pedido do treinador: a de não informar a data do seu nascimento.
Fale sobre suas origens e sua família.
Nasci em Cafesópolis, distrito de Cafelândia (SP), cidade onde meu nascimento foi registrado. Sou o primeiro filho do saudoso casal José Martins e Maria Ferreira Martins. Meus irmãos são José Martins Filho e Lenir Aparecida. Comecei a namorar Rosimeire Mesquita Martins quando ela tinha 14 anos. Ela é a mãe dos nossos três filhos: André Luiz, Vanessa e Aline. O André e a Luana são pais da nossa neta Verônica; a outra neta, Amanda, é filha da Vanessa e do Vinícius.
Quando a família foi morar em Bauru?
Quando eu tinha uns cinco anos, nos mudamos para Bauru, onde estavam quase todos os familiares. Em Cafesópolis, meus pais trabalhavam numa propriedade dos meus avós paternos, Antônio Martins e Emília Fervoli. Em Bauru, meu pai foi faxineiro no atual Posto Graal Sem Limites, que fica na Rodovia Marechal Cândido Rondon. Minha mãe foi cozinheira no Posto e Restaurante 15. Depois, meus pais trabalharam em outros locais. Eu estudava na EE ‘Carlos Chagas’, em Bauru. Aos 14 anos, fui trabalhar como balconista no atual Posto Graal Sem Limites. Jogava futebol na rua, em campinhos.
E quando o futebol começou a se tornar sério?
Quando eu tinha 15 anos, o Noroeste fez uma ‘Peneira’ e eu fui aprovado como segundo volante. De uns 200 garotos, fiquei entre 32, depois entre os 16 que ficaram alojados no Noroeste para jogar nas categorias de base. Eu e mais seis jogadores passamos a treinar entre os profissionais, sendo que disputei parte de um Campeonato Paulista da Primeira Divisão. Depois, fui para a base do Vasco da Gama (RJ) e me profissionalizei no Matsubara (PR). Sempre joguei como volante.
E em quais times jogou?
Noroeste (de 1972 a 1974, 1977 e 1978), Vasco (1974 a 1976), Paulista (1979), Novorizontino (1979), Gama-DF (1980 a 1982), Nacional-SP (1982), Pinhalense-PR (1983), Matsubara-PR (1983), Guaçuano (1984 a 1985) e Ginásio Pinhalense-SP (1986).
Como começou a carreira de treinador?
Em 1985, eu jogava no Guaçuano e de lá fui para o Ginásio Pinhalense. Ademir Falsetti (Bibi) – que foi presidente da Câmara Municipal, prefeito em exercício e vice-prefeito de Mogi Guaçu – tinha forte atuação no Guaçuano. Desde 2021, o filho dele, Rodrigo Falsetti, é prefeito lá. Pois bem. Eu jogava em Espírito Santo do Pinhal, mas residia com minha esposa Rosimeire em Mogi Guaçu. Estávamos de malas prontas e voltaríamos para Bauru, mas o senhor Bibi me convidou para ser treinador, salientando que eles precisavam de mim, que eu sempre tive bom relacionamento com os jogadores, que fui capitão da equipe, que sempre fui uma liderança respeitada. Aceitei o desafio e comecei minha jornada como treinador em 1985, salvando o Guaçuano do rebaixamento. Em 1986, pedi a colaboração deles e fui ser treinador do Rio Branco de Andradas (MG). Deixei o Guaçuano como líder do grupo e, em Minas Gerais, fomos vice-campeões da Segunda Divisão naquele 1986, conseguindo o acesso para disputar a Primeira Divisão do Campeonato Mineiro.
Quais times treinou?
Guaçuano (1985 e de 1987 a 1991), Rio Branco de Andradas-MG (1986), Mirassol (1991 a 1993, 2001, 2004, 2007 a 2009 e 2014), Paraguaçuense (1993 a 1995), Noroeste (1995, 1998, 2008, 2019/2020 a 2023), Matonense (1995 e 1996), União Barbarense (1997, 2000 e 2001), Ituano (2001), São Caetano (1999, 2014 a 2018), Portuguesa (2002 a 2003 e 2019), Santo André (2003 e 2004), Oeste (2004, 2010, 2012, 2013, 2014), Marília (2004 e 2005), América-RN (2005 e 2006), Vila Nova-GO (2006), Remo-PA (2006 e 2007), Sertãozinho (2008 e 2009), Guaratinguetá (2010), Pão de Açúcar (2010), EC São Bernardo (2011 e 2012), Audax (2011), Paulista (2012), Juventude (2012), Fortaleza (2013), Comercial (2013). Também atuei no Joinville, Atlético Sorocaba e Bahia e fui auxiliar-técnico do saudoso Oswaldo Alvarez (Vadão) no Corinthians (2000). Estou na Matonense desde o último dia 31 de janeiro.
Quais os treinadores que o senhor destaca?
Foi Armando Renganeschi o treinador que me deu a oportunidade de disputar pela primeira vez parte de um Campeonato Paulista da Primeira Divisão pelo Noroeste. Tenho admiração também por Norberto Lopes, Mário Travaglini, mas sobretudo por Telê Santana, um técnico diferenciado em todos os sentidos, dentro e fora de campo. Muricy Ramalho também se tornou vitorioso treinador. Outro grande técnico foi Carlos Alberto Parreira, de quem ouvi a seguinte frase: “Futebol é a arte de engolir sapos e fingir que o sabor é bom”.
Como treinador, quais os seus títulos mais marcantes?
Para mim, o mais importante é o acesso; título é decorrência. Dos títulos conquistados, marcou bastante o do Brasileiro da Série C com o Oeste, em 2012. Nos classificamos em oitavo lugar e pegamos o Fortaleza nas quartas-de-final. Empatamos por 1x1 em Itápolis e vencemos por 1x3 lá em Fortaleza (CE), num Estádio ‘Presidente Vargas’ lotado. Na final, empatamos por 0x0 com o Icasa em Juazeiro do Norte (CE) e vencemos em Itápolis por 2x0. Em 2017, o São Caetano conquistou o título da Série A-2 ao vencer o Bragantino por 2x1 e voltou para a elite do futebol paulista. Este título marcou porque o São Caetano ‘bateu na trave’ para subir em 2015 e 2016. No São Caetano, me marcou muito também o fato de ter trabalhado lá em 1999 e de 2014 a 2018, numa longeva permanência de mais de 100 jogos, o que é raro para um treinador no Brasil. O mesmo ocorreu no Noroeste, onde fui treinador em 1995, 1998, 2008 e de 2019/2020 a 2023, sendo esta última uma sequência ininterrupta de três anos e quase três meses. Neste período, o Noroeste ‘bateu na trave’ em 2020 e 2021, obtendo o acesso para a A-2 em 2022, culminando com o título ao vencer ao Comercial de Ribeirão Preto no ‘Alfredo de Castilho’ por 2x1, após empate por 2x2 no ‘Palma Travassos’.
Por que o senhor se tornou o ‘Rei do Acesso’?
Acredito que seja porque eu goste de trabalhar bastante, por ser um profissional organizado, um administrador de pessoas que trabalha a parte psicológica usando essencialmente a verdade. Tomo decisões olhando nos olhos, de forma extremamente honesta. Mais vale uma triste verdade do que uma alegre mentira. Não se deve mentir para ninguém, muito menos para jogador de futebol, pois ele é criativo, é inteligente, não aceita mentira. Acredito que além dos conhecimentos obtidos, das metas atingidas, sempre fui franco, cordial, mas também sempre soube comandar, ter pulso, exigir. Cobro muito dos jogadores o aprimoramento da parte técnica e o melhor encaixe aos padrões táticos que trabalhamos. É basilar aos jogadores se cuidarem, evoluírem, respeitarem a comissão técnica, diretores, imprensa, honrarem a camisa do time e, sobremaneira, respeitarem os torcedores. Jogador tem que entrar e sair do clube como homem. Considero que honestidade é basilar a qualquer ser humano.
Quais os padrões táticos que o senhor mais usa?
Um time de futebol tem que estar preparado para usar pelo menos três padrões táticos, até numa mesma partida. Gosto de usar o 4-3-3, o 4-1-2-3, 3-5-2 e o 4-4-2, sendo que o 4-4-2 também pode ter variação para um losango no meio de campo, com um volante defensivo, um volante mais solto e dois meias; ou um volante e três meias, sendo o terceiro meia bem mais ofensivo. Gosto de transição e recomposição rápidas, eficientes.
Se erra muitos passes no futebol brasileiro, sobretudo em séries de acesso.
De nossa parte, garanto que trabalhamos e exigimos passes precisos. Fazemos a aproximação e os passes certos costumam aparecer mais quando os gramados são bons. Em gramados ruins, fica complicado querer que os passes tenham altos índices de precisão.
Que período é necessário para se preparar bem uma equipe para um campeonato?
Time de futebol é como um edifício: tem que começar a ser estruturado bem lá na base, no alicerce. Sem fundação boa, não há piso, parede, teto, não há nada que resista. Então, o trabalho começa bem antes, na escolha dos jogadores e dos membros da comissão técnica. Com o grupo definido e completo, um trabalho de preparação técnica, tática e psicológica, dois meses antes da competição começar, é suficiente para se obter bons resultados e cumprir metas.
Mudou algo no jogador de hoje, comparado ao jogador que atuou há uns 25 anos?
De uns 25 anos para cá, progressivamente, a maciça maioria dos jogadores começou a ter mais responsabilidade fora de campo. O principal motivo é a tecnologia, os ‘olhos digitais’. Desde os primórdios, os jogadores sempre tiveram responsabilidades, sendo que um ou outro ‘derrapou’. Mas a quantidade de ‘derrapadas’ diminuiu bem nos últimos anos, sobretudo devido à tecnologia que se tornou muito presente na vida deles.
O senhor fez curso na CBF Academy?
Fiz. Obtive a ‘Licença A’, que me permite atuar também em países do Mercosul. As Licenças da CBF Academy atualmente são ‘Licença C’, ‘Licença B’, ‘Licença A’ e ‘Licença Pro’, sendo que a ‘Pro’ foca trabalhos internacionais.
Sua fotografia está no ‘Hall de Personalidades’ da Câmara Municipal de Bauru.
Pois é! No dia 9 de junho de 2022, por iniciativa da vereadora Estela Almagro, minha fotografia foi entronizada neste hall. Fiquei muito feliz com a homenagem.
Para o senhor, quem é Antonio Aparecido Galli?
Um grande amigo que encontrei no futebol. Sou o técnico da Matonense e ele, o chefe; não misturo as coisas. O Galli é uma pessoa maravilhosa, coração bom, honesto, cumpre o que fala. O que ele diz vale mais do que papel assinado. Tenho um carinho e um respeito muito grande pelo Galli.
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