"Ressurgimos com mais desejo de levar cultura para todos"
Em entrevista, a atriz Claudia Abreu fala de 'Virginia' - primeira peça de sua autoria, que encenou em Araraquara - e da importância de todo artista ir aonde o povo está
Do acervo · publicada originalmente em 22 de fevereiro de 2023
Fonte: Emilio Paganin, postado por Natali Galvão
Foto: Divulgação
Acervo · 2023Nos últimos dias 9 e 10, a atriz Cláudia Abreu apresentou a peça ‘Virginia’ no teatro do Sesc-Araraquara. O monólogo é o primeiro trabalho da atriz como dramaturga, em cujo texto dá luz ao intenso turbilhão de desafios enfrentados pela escritora inglesa Virginia Woolf em sua vida – o que se refletiu diretamente em sua obra. Ao final da última apresentação em Araraquara, Claudia Abreu recebeu Emilio Paganin para uma entrevista, a qual foi gentilmente enviada pelo autor para publicação em A Comarca. Confira a seguir.
Como foi escrever seu primeiro monólogo e ‘dar vida’ a Virginia Woolf?
A Virginia Woolf é uma escritora muito importante para mim; uma pessoa que teve uma vida muito trágica, muito difícil e ainda assim conseguiu superar suas tragédias pessoais, abusos, seus desequilíbrios emocionais, psiquiátricos, e surpreendentemente construir uma obra brilhante, sendo considerada uma das mais importantes escritoras do Século XX, modernista, feminista. Sempre fui apaixonada pela obra dela, lendo-a com mais intensidade quando percebi que eu poderia levar a vida dela para o teatro, por ser – além da obra – também muito interessante.
Em qual circunstância você se tornou atriz?
No início, eu fui para o teatro para fazer uma atividade extraescolar – como vôlei, jazz, inglês. Só que eu fui me encontrando no teatro, encontrando a minha turma. Sempre me chamavam para fazer testes, para comerciais e tal; eu passava e comecei a achar que talvez desse para aquilo. Com 14 anos, fui convidada para fazer parte de um grupo de teatro profissional, que fazia peças infanto-juvenis. Nos finais de semana, eu já tinha o compromisso de largar os meus amigos na praia e ir fazer teatro infantil. Era uma prova de fogo, se quisesse fazer isso de fato, ainda tão garota. Com 16 anos, fui escolhida para fazer um teste na televisão; eu passei e a vida aconteceu.
A personagem ‘Clara’, em ‘Barriga de Aluguel’, foi uma das que mais marcou sua carreira.
Ah, sim. Foi a minha primeira novela como protagonista, uma experiência muito rica. A novela fez tanto sucesso que o período inicialmente previso foi dobrado, chegando a 243 capítulos. Quando achamos que ela estava terminando, estava recomeçando. Foi uma carga emocional muito grande, né? Pois eu tinha 20 anos e não tinha a experiência da maternidade, e ter que lidar com a intensidade de perder um filho, de gerar um filho que diziam não ser dela, e era uma personagem que vinha de uma família simples, de Testemunhas de Jeová, enfim, foi uma situação emocional muito complexa para a pouca idade e vivência que eu tinha na época. Então, me marcou muito e fico feliz que o público se lembre até hoje.
Como é ver sua filha Maria Maud fazendo sucesso como cantora na trilha sonora de ‘Travessia’.
Sou mãe de quatro filhos. A Maria sempre soube que queria ser cantora, e já o fazia desde pequena, pois acho que há uma coisa intuitiva. Ela fazia iniciação musical dentro e fora da escola, e a música sempre foi uma coisa muito importante na vida dela. Ela é compositora também; já tem várias músicas e vai lançar um single nas plataformas digitais. É só procurar Maria Maud. Eu não tenho nada a ver com isso, com essa história da trilha da novela, porque foi uma coisa feita através do empresário que ouviu a música e pediu para ela regravá-la com o João Gomes. Fiquei feliz porque ela andou com as próprias pernas; não foi uma gravação obtida através de mim, como pode parecer; foi através do talento dela.
Como se sente em voltar a se apresentar pelos palcos do país?
Estou tão feliz de poder fazer essa turnê aqui pelo interior de São Paulo, pois acho que é muito importante, cada vez mais, principalmente quando a gente tem a cultura atacada com uma tentativa de desmerecer os seus profissionais. É assim que ressurgimos, com mais desejo de levar cultura para todos e mostrar o quanto isso nos salva, o quanto inspira tantas vidas e tira um pouco esse peso da realidade. Ali na plateia, por uma hora, você consegue sonhar, se inspirar e talvez até modificar um pouco a sua vida com sonhos e tudo mais. Considero muito importante essa primeira peça que escrevi, meu primeiro monólogo. Faço questão de rodar o Brasil com ela para levar cultura a todo mundo, não somente nas capitais. Acho muito importante essa troca. Fico muito feliz por estar em Araraquara com a minha peça, que também apresentarei em Jundiaí, Ribeirão Preto, São José do Rio Preto, Piracicaba, Campinas, em várias cidades. Quero ir até vocês, levar cultura, alegria, atuar mais de perto das pessoas.
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