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Esporte

ARTIGO: O CXM é memória viva para mim

POR JOÃO FARIA

Do acervo · publicada originalmente em 28 de janeiro de 2023

Fonte: João Roberto Gomes de Faria, pós-doutor, aposentou-se como professor titular de Literatura Brasileira na USP em março de 2018, mas atua como professor sênior, postado por Natali Galvão

· Leitura de 4 min

Foto: Divulgação

João Faria é pós-doutor, aposentou-se como professor titular de Literatura Brasileira na USP, mas atua como professor sêniorAcervo · 2023
João Faria é pós-doutor, aposentou-se como professor titular de Literatura Brasileira na USP, mas atua como professor sênior

As viagens ao passado costumam ser surpreendentes. Podem ser prazerosas, podem ser decepcionantes, podem ser cheias de emoção. No último dia 21, um sábado, fui conhecer a nova sede do Clube de Xadrez de Matão (CXM), localizada na Sorema. Estavam lá alguns veteranos, rapazes e moças concentrados em seus tabuleiros. Reportei-me à minha adolescência ao vê-los todos ali reunidos.

Pediram-me para falar algumas palavras aos presentes, relembrar minha passagem pelo CXM. Comecei então rememorando fatos passados há 50 anos ou mais. Eu tinha 14 anos, em 1966, quando me iniciei no xadrez. A partir de 1968, passei a integrar a equipe de Matão nos Jogos Regionais e Abertos do Interior. Lembrei-me de alguns dos bons resultados, como as vitórias nos Regionais de 1969 e 1975, além do terceiro lugar nos Abertos de 1971. Lembrei-me também das agradáveis manhãs dos domingos em que ia religiosamente ao CXM para encontrar os amigos, jogar partidas, estudar aberturas e conversar sobre os mais diversos assuntos. Era uma segunda família que tinha ali.

A certa altura da minha fala, a emoção tomou conta de mim. A voz embargou e todo um passado veio à minha mente, ajudado pelas fotografias em uma das paredes, que me trouxeram à lembrança o convívio com os amigos que não estão mais conosco e que foram fundamentais para a minha formação: Alzir Biava, que carinhosamente chamávamos de ‘O Velho’, e Geraldino de Oliveira Simão, o Dinho.

Alzir foi uma das pessoas mais inteligentes que conheci em toda a minha vida. Era simplesmente brilhante como jogador de xadrez e homem de cultura: adorava ouvir óperas italianas na varanda dos fundos da sua casa. Era também uma cabeça política e fazia análises perfeitas do contexto em que vivíamos. Gostava muito de cinema e sabia como refletir sobre o filme a que assistira. Eu sempre ouvia os seus comentários, impressionado com as interpretações que fazia.

O Dinho foi meu professor de política. Era ele quem mais se mostrava indignado com a ditadura militar daqueles anos. Era um inconformado, o que muita gente confundia com mau humor. Sensível em relação às injustiças sociais, à miséria de milhões de brasileiros, flertou com a esquerda mais radical. Era um companheiro com quem podíamos contar o tempo todo. Amigo leal e generoso.

Naquele final dos anos 1960, início dos anos 1970, tínhamos uma forte equipe de xadrez, formada por jogadores de primeira linha, como Alzir Biava, Mario Silas Biava, Paulo Franchetti e Eduardo Victor Kfouri. Cada um de nós tinha um estilo de jogo, uns mais ‘românticos’, como Alzir, Mario e Franchetti, que buscavam complicações no tabuleiro, criando situações em que não eram incomuns os sacrifícios de peças e os ataques devastadores.

Já Eduardo e eu éramos, digamos, mais ‘clássicos’, isto é, racionais, procurando sempre o jogo menos complicado e buscando criar vantagens posicionais. Disputamos vários campeonatos e jogamos contra muitas equipes de cidades do interior de São Paulo em amistosos. Quase sempre conseguimos bons resultados, fazendo de Matão uma cidade mais conhecida. Mas tão importante quanto o jogo de xadrez era a amizade que nos unia, bem como os interesses culturais, políticos e sociais.

Como citei, esses amigos foram importantíssimos em minha formação, pois no CXM cultivávamos o xadrez e as ideias. Foi lá, no período mais violento da ditadura militar, que aprendi a desprezar os regimes de força e a valorizar a democracia; foi lá que desenvolvi o senso da cidadania e a consciência da desigualdade social que ainda hoje fere a nossa sensibilidade; lá, fortaleci o amor pela literatura, tão central em minha vida que definiu meu futuro profissional como professor universitário de literatura brasileira e teatro brasileiro, na Universidade de São Paulo (USP); foi lá que apurei meu senso de humor, alimentado pela necessidade do raciocínio rápido e de rir das mazelas cotidianas.

Mario Biava gostava dos poetas românticos e me mostrou a beleza de muitos versos de Gonçalves Dias e Castro Alves. Do segundo ele adquiriu o gosto pelas exclamações e as utilizou largamente em suas análises de partidas de xadrez. Líamos os poemas em voz alta até decorá-los, ou pelo menos parte deles. Já a poesia moderna era com o Paulo Franchetti, ele mesmo um poeta de mão cheia. Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade eram nossos preferidos. Foi no CXM que imprimimos, num mimeógrafo, o primeiro conjunto de poemas do Franchetti. Foi uma festa, uma alegria só! Esse gosto pela literatura também o levou à carreira de professor universitário na área de Letras na Universidade de Campinas (Unicamp).

O CXM é memória viva para mim.

A ida à nova sede, para conhecer a Sala ‘Alzir e Mario Biava’ – justa homenagem a quem consolidou o xadrez em Matão –, foi uma emocionante viagem ao passado. Mas um passado que carrego como presente dentro de mim, tantas as lembranças daqueles tempos em que, jovem, não podia imaginar como o CXM estava contribuindo para moldar o ser humano que eu seria no futuro.

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