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Cultura e Variedades

ARTIGO: Lágrima inaudita

POR GUILHERME FRANCO

Do acervo · publicada originalmente em 30 de dezembro de 2022

Fonte: Guilherme Athayde Ribeiro Franco, promotor de Justiça em Campinas (SP) e especialista em Dependência Química pela Uniad-Unifesp, postado por Natali Galvão

Foto: Rogério Bordignon

Guilherme Athayde Ribeiro Franco é promotor de Justiça em Campinas (SP) e especialista em Dependência Química pela Uniad-UnifespAcervo · 2022
Guilherme Athayde Ribeiro Franco é promotor de Justiça em Campinas (SP) e especialista em Dependência Química pela Uniad-Unifesp

Havia acabado de receber um envelope lacrado do laboratório. Exame clínico, realizado dias atrás, sugestivo de severas complicações hepáticas. Daí que o médico lhe pediu os complementares.  

Entre um passo e outro, lembrou-se que o primeiro gole de bebida veio aos quatorze e daí não parou mais.  Em flashes lhe vinham a propaganda, com jogadores de futebol, cantores e artistas. 

Apoiou-se na parede, suor banhando a camisa. Queria somente chegar em casa e chorar – sem que ninguém ouvisse.   Aliás, poderia derramar suas lágrimas ali mesmo na rua indiferente. Seriam invisíveis. Era Natal.

Já fazia alguns anos, na empresa na qual trabalhava, seus superiores e uma equipe da Saúde, mostraram-lhe uma folha com dez questões bem simples de serem resolvidas.

Explicaram que se tratava do teste AUDIT (Alcohol Use Disorder Identification Test/Teste de Identificação dos Transtornos relacionados ao Consumo de Álcool), da Organização Mundial de Saúde (OMS) *. 

Pedia-se a autoavaliação sincera acerca do seu consumo de bebida alcoólica.   Só queriam conscientizá-lo que o álcool é droga! E se houvesse qualquer problema em seus domínios pessoais, familiares, sociais ou no trabalho, poderiam ajudá-lo. 

Claro que o apelo da propaganda, dos círculos de amigos - só conseguiam conversar com as almas acorrentadas a garrafas e copos - do preço baixo da cerveja, da facilidade de comprar em cada esquina, fez com que o AUDIT ficasse na estante da casa, mofando e empoeirando.

Sua filha, curiosa e inteligente, aquela que sempre vinha com um sorriso pedindo atenção e brincadeiras, queria saber o que era o AUDIT. Limitou-se a responder, no seu mau humor costumeiro:  "isso não é coisa de criança".

Sua mulher baixou os olhos. Era o silêncio diário antes de sua ida ao bar. Silêncio que seria rompido horas depois com gritos, agressões, a louça se estilhaçando no chão, a cabeça escondida no cobertor, olhos cerrados com força, o corpo tremendo agarrado a um bichinho de pelúcia, a lágrima inaudita. E no dia seguinte, mesmo de ressaca, seguia ao trabalho.

Dessa vez, o silêncio era só dele.  Sua mulher e filha haviam ido a uma celebração natalina.  Uma dor profunda no peito parece que queria perfurá-lo de dentro para fora.  Deixou o envelope com o resultado do exame laboratorial sobre a mesa.

A “coragem” que o álcool lhe dava já não era a mesma - ainda que que ingerisse cada vez mais doses, o que vinha de volta era ansiedade, pânico e delírios. Suas mãos trêmulas esbarraram na estante e deixaram cair um papel amarelecido no chão.

Não soube por que, mas resolveu abaixar-se com muita dificuldade e pegá-lo. Era o teste AUDIT. Preencheu-o em minutos - crendo que eram os últimos minutos que teria (como lhe haviam dito, não era difícil preenchê-lo). Fez um inventário de sua existência.

Reconheceu-se gente - e que gente precisa de gente para tudo!  Teve um fôlego de vida - pois a Vida surpreende. Mas faltava coragem para abrir o temível envelope. Não se deu conta que as horas passaram. Abriu com o cuidado que nunca tivera antes. Abriu-se também a porta.

Sua filha e sua mulher voltavam cantando. O canto era permitido somente quando ele não estivesse em casa.  Gelaram. Ele devolveu com um sorriso sóbrio. Deu-se conta que passara aquele dia todo sem ingerir álcool. Determinado a abraçá-las, pediu-lhes perdão. Resultado do exame:  positivo para a vida!

(*) O AUDIT foi desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde como um método simples e eficaz de investigação do uso excessivo do álcool. Compõe-se de dez questões. A pontuação final indica desde o consumo de baixo risco a provável dependência. Se necessário, procure ajuda especializada.  https://sites.usp.br/acolhe/avalie-seu-consumo/questionario-audit/

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