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Cultura e Variedades

ARTIGO: A saga da Família Chrysóstomo

POR JOSÉ AMARANTE

Do acervo · publicada originalmente em 12 de dezembro de 2022

Fonte: José Amarante, presidente do Movimento Negro Quarto Centenário e presidente do Projeto Coração, postado por Natali Galvão

· Leitura de 5 min

Foto: Divulgação

José Amarante é presidente do Movimento Negro Quarto Centenário e presidente do Projeto CoraçãoAcervo · 2022
José Amarante é presidente do Movimento Negro Quarto Centenário e presidente do Projeto Coração

Eu considero ser extremamente importante levar ao conhecimento público um pouco sobre a história de vida da minha família materna – Família Chrysóstomo – que, com certeza, contribuiu de forma significativa para a construção da sociedade matonense, embora tais feitos não estejam registrados nos livros oficiais da história do nosso município.

A Família Chrysóstomo quebrou vários paradigmas. Era predominantemente matriarcal, contrariando a tradição e o padrão patriarcal daquela época. Eram negros com posses e detentores de dois grandes imóveis em Matão, sendo um rural e outro urbano. Um dos membros da família, meu tio João, quando jovem, foi aluno espetacular, dotado de pleno domínio da Matemática, sendo um dos primeiros negros daquela época com acesso a uma faculdade de Medicina. Lutaram contra todas as formas de preconceito e de discriminação racial e venceram; mantiveram as crianças nas salas de aula para que, sabendo ler e escrever, pudessem ter um futuro melhor.

Um pouco da história da minha família começa assim: conduzidos por minha avó materna, Dona Marcília, a Família Chrysóstomo chegou ao bairro do Quarto Centenário em 1961, oriunda do Sítio São João, localizado na extinta Pedreira Municipal. Mudaram-se para aquele bairro depois de terem adquirido, mediante compra, uma quadra de terra, tipo chácara, onde Marcília, junto com os filhos João, Ignácio, Maria, Ozória, Benedita, Clóvis, Leonilda e Alice, viveria e trabalharia por longos anos.

Lembro-me de que a vida fluía intensamente na Chácara dos Chrysóstomo. Havia uma harmonia perfeita em tudo que ali existia: árvores, animais, insetos e aves interagiam com as minhas tias; tudo fazia parte da família, gatos, cachorros, galinhas, patos, gansos, cabras, vacas, éguas, abelhas, porcos. Na chácara existia um casarão que era constituído de uma sala, uma grande cozinha, uma sala de jantar e quatro grandes quartos.

A imponente construção era ornamentada com um alpendre construído na parte da frente da casa, protegendo-a de intempéries. Também era um local utilizado pela família para o próprio descanso. Ao entorno do casarão existia um gramado que servia para a pastagem das criações da família, sendo muitas vezes usado para o descanso das tropas que viajavam pela antiga Estrada Boiadeira e trafegavam rumo a Araraquara. Também havia uma pocilga onde eram criados os suínos que, naquela época, eram uma das principais fontes de renda para a família.

Numa outra parte da chácara havia uma moenda metálica de cana-de-açúcar, tracionada por animais. Segundo consta, esse equipamento foi concebido e desenhado pelo meu tio João Chrysóstomo Júnior, ainda na adolescência. Primeiro ele desenhou a moenda, nos mínimos detalhes, e depois confeccionou o equipamento em madeira; somente após ter absoluta certeza do funcionamento é que ele cedeu o seu desenho a uma empresa metalúrgica para que construísse a tal moenda em ferro fundido. Toda a produção da garapa era utilizada para fabricação de rapaduras pela minha finada avó Marcília, que eram vendidas de porta a porta pela minha mãe Leonilda e por minhas tias.

Cada membro da família exercia uma forma de trabalho na chácara, responsabilidades essas aprendidas em anos anteriores, na época em que eles moravam e trabalhavam no Sítio São João. De lá é que traziam as experiências com os trabalhos agropecuários, com a produção artesanal dos doces de frutas e dos derivados da mandioca e com a produção de óleos essenciais, especialmente do óleo de mamona.

Eu via na minha tia Maria Chrysóstomo a representação de uma santa. Muito humilde, prestativa, de poucas palavras, nunca a vi reclamar de nada. Sempre trabalhou com um enorme sorriso no rosto. Colocava a paleta na cabeça e lá ia ela, ‘simbora trabalhar’. Ela era a responsável pelos tratos diários dos animais. Assim, a cada manhã, ela pegava as duas latas que tinham sido transformadas em baldes e saía em visitas a algumas casas, para recolher as sobras de alimentos que essas pessoas acumulavam, que depois eram fornecidas aos porcos. Todo trabalho da coleta da lavagem da Tia Maria era realizado a pé. Fizesse sol ou chuva, ininterruptamente, lá estava a Tia Maria, andando pelas ruas e avenidas da nossa cidade, carregando duas latas de lavagem para que os porcos tivessem provisões de comida – uma prática comum naquela época.

A chácara dos Chrysóstomo situava-se na Estrada Boiadeira, que posteriormente foi denominada de Rua José Artimonte. O endereço ficava na altura do nº 1010/1021. Atualmente, essa chácara não existe mais, pois em 2016 a área foi comercializada para uma empresa de empreendimentos imobiliários e no local foi construído um condomínio de apartamentos. O que existe é apenas e tão somente a doce lembrança e o reconhecimento para nós, descendentes da família, do quanto essa estrutura contribuiu para a formação do nosso caráter, da comunidade do Quarto Centenário e também da sociedade matonense.

Uma das maiores virtudes da Família Chrysóstomo, a ser destacada naquela época, era a solidariedade que sempre esteve presente no meio deles. Mesmo em tempos difíceis, eles se organizavam para acolher todas as pessoas que procuravam por ajuda, fosse na providência de abrigo, fosse na doação de leite às mães que pediam por esse alimento. Por todos esses feitos, acredito que todos eles eram amparados por uma força espiritual bastante expressiva que os elevava para um grau de espiritualidade superior.

Em atividade comemorativa alusiva ao Mês da Consciência Negra, especificamente no último dia 12 de novembro, ‘in memorian’, a minha tia Maria Chrysóstomo foi homenageada pelo Centro de União da Comunidade Negra de Matão com a exposição de uma fotografia dela no mural das personalidades negras matonenses, na Praça Pública ‘Presidente Tancredo Neves’.

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