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ARTIGO: Gente grande também chora...

POR ROGÉRIO BORDIGNON

Do acervo · publicada originalmente em 3 de setembro de 2022

Fonte: Rogério Bordignon, jornalista e fotógrafo, postado por Natali Galvão

· Leitura de 7 min

Foto: Rogério Bordignon

Triste lembrança. Faixa e flores no local onde Vicente Bernardi foi covardemente e brutalmente morto ? ele somente queria ter ido ao banco, ali na esquina, e voltado ao Auto Posto Estrela, logo ali, nAcervo · 2022
Triste lembrança. Faixa e flores no local onde Vicente Bernardi foi covardemente e brutalmente morto ? ele somente queria ter ido ao banco, ali na esquina, e voltado ao Auto Posto Estrela, logo ali, n

Na manhã daquela segunda-feira (dia 22), eu estava digitando matéria para A Comarca quando recebi um vídeo de minha prima, Eloisa Vidal Cavichia, me informando que tinham atirado no Vicente, mas que desconhecia o que teria acontecido na sequência. Menos de meia hora depois, eu a informava de que ele não resistiu aos dois tiros dados na altura do peito, mesmo com todo o trabalho intensivo prestado no Pronto Socorro do Hospital ‘Carlos Fernando Malzoni’.

O vídeo mostra a frieza e a crueldade com que Vicente João Bernardi Neto, o Vicentão, foi covardemente assassinado, aos 58 anos de idade, sendo que completaria 59 no próximo dia 16 de outubro. Coisa do mal agindo em mente destinada a fazer o que queria, mesmo que isso retirasse a vida de quem estava com aquilo que queriam, pois a vontade de ter o dinheiro que Vicente queria levar à agência bancária não era somente de quem puxou o gatilho.

Vicente, gente do bem, somente queria ter ido ao banco e retornado ao Auto Posto Estrela. Queria percorrer naquela manhã de agosto o mesmo ‘caminho da roça’ repetido tantas e tantas vezes por ele ou por seu irmão, guardando fora do alcance de pessoas mal-intencionadas o resultado de uma rotina de trabalho da qual os dois irmãos se dedicavam suando também.

Fui cliente do Posto Estrela; deixei de ser; recomecei a abastecer lá pela segunda vez e de novo parei. Há uns dez meses, voltei a colocar combustível no meu Uninho lá. Quantas e quantas vezes me encontrei com um ou com o outro por ali. Vicentão geralmente me chamava de ‘Burdi’, com tônica no ‘i’; Adriano Reynaldo Romanelli Bernardi (Adrianão), seu sócio e irmão, me chama de ‘Burda’.

“Quanto vai? Álcool, né!? Vai ver água, óleo? Quer que limpe o para-brisa? Um ou outro dos Bernardi – ou alguém da equipe – sempre faz estas perguntas a quem lá abastece seu veículo com quatro ou mais rodas. Quase sempre surgia uns comentários a respeito de futebol, sobretudo referente ao meu Corinthians ou ao Palmeiras deles, mas coisa rápida, porque a rotina assim impera.

Era prudente não tirar sarro dos dois quando o Palmeiras não vivia boa fase, o que não ocorre desde 2016, é verdade; tampouco zoar eles quando o time tentava sem sucesso o seu primeiro Título Mundial. Era melhor fazer isso acionando a buzina do carro, dando ‘tchauzinho’ de dentro do veículo ou com certa distância, porque os dois ‘azedavam’ um bom bocado aos revezes do time deles, mas isso logo passava.

Se ser amigo é – estando no mesmo município – fazer churrasco, sentar para conversar por horas, confidenciar algumas coisas, ir a aniversários e eventos familiares, ir a encontros festivos ou algo semelhante, considero que não sou amigo de Adriano e Vicente. Ser amigo compreende um significado muito amplo e diferenciado, por vezes, tão simples. Mas este artigo, obviamente, não aborda o que é ser amigo.

O fato é que eu, Adrianão e Vicente nos conhecemos há considerável tempo, sobretudo eu e o Drião, a quem entrevistei em 1987, cumprindo um tipo de exercício escolar relacionado a destaques comunitários, pois ele já era jogador juvenil do extinto Estoril, sendo o matonense mais novo a vestir a camisa do time, ainda com seus 13, 14 anos de idade, chegando a treinar com o ‘Adulto’. E ajudei Luiz Henrique Guizo a entrevistar o saudoso médico Flávio Raul Faria, com quem tínhamos contato no extinto – e para lá de saudoso – Clube Santa Carolina.

Estudei com o Adriano durante todo o ano de 1987 e parte de 1989 no antigo ‘Colegial’ da EE ‘Henrique Morato’. Ele foi cursar Zootecnia, seguindo o caminho do Vicente, que já era zootecnista. Possivelmente, Adriano se norteou por Vicente, pois com oito anos a mais, foi Vicente quem certamente serviu como exemplo para Adriano seguir, após a perda do pai deles, Nelson Bernardi, em 1975, quando Adriano tinha quatro anos de idade.

A partir de 1998, decidiram ser sócios do Auto Posto Estrela de Matão, onde transpiravam, sujavam botinas e outros calçados, bem como molhavam a roupa. Gente dedicada, do ‘batente’! Foi muito triste ver o corpo do Vicente – um destes de grande porte – tombando na estreita calçada entre o asfalto e a mureta que margeia o Rio São Lourenço, pela imagem de outro vídeo que recebi no WhatsApp, este oriundo de câmera instalada perto do local onde tiraram sua vida de forma exageradamente amarga. Veneno puro.

Doeu em mim e em milhares de pessoas. Ver o Vicentão tombar deu a certeza da vulnerabilidade de todos nós diante do criminoso com arma nas mãos. Com ele, tombaram no concreto rude todos aqueles que labutam, que constroem famílias, educam e formam seus filhos, que continuam amando seus entes queridos. Tombaram empregados e patrões. Vimos que a maldade não respeita ninguém. Vimos que o mal age em local muito movimentado, com câmeras, em plena luz do dia.

A crueldade não observa o outro, não respeita gente do bem que deseja ao trabalhador a continuação da sua missão, que enseja a prosperidade ao dono também se voltando aos empregados e que todos integrem a uma comunidade que evolua, mesmo que lentamente. A ganância bandida não respeita gente do bem que dá bons exemplos, que só quer continuar trabalhando e manter pessoas empregadas.

Com o Vicente tombaram todos aqueles que clamam por mais segurança pública, sendo esta uma tônica no país. Matão pede socorro às autoridades – sobretudo municipais e estaduais – com mais frequência há uns 20 anos. São reuniões aqui em Matão, em São Paulo e outros locais, ofícios, requerimentos, audiências públicas e sequer respostas condizentes são obtidas na maioria das vezes...

São baixos o efetivo humano, a quantidade de viaturas e de equipamentos das Polícias Civil, Militar e da Guarda Civil Municipal (GCM). A Prefeitura desloca servidores municipais para ajudar a Polícia Civil, mas ainda não implantou a Atividade Delegada, tampouco câmeras de videomonitoramento, que têm anúncio para implantação até o final desse ano por parte da Prefeitura.

Parabéns aos delegados Alfredo Gagliano Júnior, Marlos Marcuzzo e aos outros dois delegados. Parabéns ao capitão PM Rodrigo Adriano Lopes e ao tenente PM Israel de Oliveira Pigossi, bem como a todos os integrantes das equipes da Polícia Civil e da Polícia Militar. Parabéns ao Wanderley Rinco e aos integrantes da GCM. Parabéns sobretudo para aqueles cujas ‘olheiras’ mostram o quanto se esforçam em mil atividades por Matão, nos plantões e em afazeres até em outras cidades...

Mas esta gente precisa de apoio, de instrumentos! Ponto basilar é a mudança na Legislação Federal para que outras mudanças ‘em cascata’ ocorram também nas Assembleias Legislativas e nas Câmaras Municipais, pois há muitas ‘brechas constitucionais’, bem como nos Códigos Civil e Penal, para vários tipos de crimes. Há necessidade vital de mudanças nas leis para um melhor controle geral. Se mesmo com leis mais severas o mal age – vide o que ocorre nos Estados Unidos e em países da Europa – imaginem com leis que permitem ‘brechas’...

Claro que precisamos de mais instrumentos humanos e equipamentos para as Polícias Militar e Civil, para a GCM, mais saúde, mais educação, mais esporte, mais cultura etc. Contudo, é prioritário termos mais segurança pública, tema que sequer foi discutido como se deve nos debates entre candidatos ao Governo Paulista e à Presidência da República nos dois maiores debates da televisão aberta.

É muito triste ver um trabalhador tombar e observar gente grande chorando. Meu Deus, como chorou o Adrianão... Como choraram familiares e amigos mais próximos na vigília fúnebre e no sepultamento do corpo do Vicentão. Alguém comentou para o Drião – talvez sua sobrinha Mariana – que nunca viu tanto homem chorando e ele me disse isso, com lágrimas caindo de novo dos olhos.

Sim, homem chora... gente grande também chora...

Que a saudade retire o quanto antes as dores enfrentadas pelo Drião; pela Giovana Tomazini Bernardi, com quem o Vicente era casado desde 1989; da filha deles, a médica intensivista Mariana; das irmãs Lúcia Carolina e Mônica Luzia; dos outros familiares e dos amigos mais próximos. Fiquem todos bem e com Deus!

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