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Cultura e Variedades

Um livro com olhares indigenistas

Nimuendaju Oliveira, Eduardo Waack e Ipojucã Vilas Boas lançarão 'Os Povos Nativos' na próxima quarta-feira (3)

Do acervo · publicada originalmente em 2 de agosto de 2022

Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão

· Leitura de 9 min

Foto: Divulgação

Ipojucã, Nimuendaju e Eduardo. Livro decorre de uma antiga vontade de reunir num único volume uma produção voltada à causa indigenistaAcervo · 2022
Ipojucã, Nimuendaju e Eduardo. Livro decorre de uma antiga vontade de reunir num único volume uma produção voltada à causa indigenista

Na próxima quarta-feira (3), às 19h30, na Casa da Cultura ‘Prefeito Armando Bambozzi’, será lançado o livro ‘Os Povos Nativos - um mergulho no Brasil profundo’, que reúne texto de Eduardo Waack, ilustrações de Nimuendaju Oliveira (Juju) e design gráfico de Ipojucã de Oliveira Vilas Boas. São 16 páginas, com capa e miolo colorido, em formato diferenciado. Sobre o livro, A Comarca os entrevistou.

O que os incentivou a se unir e fazer este livro?

Eduardo - É uma antiga vontade reunir num único volume uma produção voltada à causa indigenista, que ao longo dos anos venho escrevendo. Em agosto de 2021, numa das muitas conversas com a Juju (Nimuendaju Oliveira) sobre a questão dos povos originários da América, resolvemos unir nossos conhecimentos e experiências, fruto de uma história de vida voltada a essa temática. A ideia de editar ‘Os Povos Nativos’ foi da Juju. Nosso entusiasmo contagiou positivamente seu filho Ipojucã e a equipe estava formada. Unimos ilustrações, prosa poética e um designer gráfico vigoroso para dar forma a este projeto. Foram meses de diálogos construtivos, reuniões, aprimoramento das ideias. Finalmente, nosso livro entrou em gráfica no início desse mês de julho. Agora o disponibilizaremos para o público no lançamento que acontecerá na próxima quarta-feira (3), na Casa da Cultura. Unimos nossos esforços pela conscientização das pessoas de nosso município e região, visando de modo especial alcançar o público leitor escolar com o intuito de divulgar e esclarecer sobre a situação dos indígenas no Brasil e sobre o trabalho voluntário que realizam de preservação ambiental e conhecimento ancestral da natureza. Através da poesia, de primorosas e delicadas ilustrações e das artes gráficas, apresentamos e compartilhamos de forma didática um universo ancestral, épico, lúdico e sensorial que está ao nosso redor, contribuindo para a formação de nossa identidade enquanto nação e que muitos ainda desconhecem.
 

Nimuendaju - A história dos indígenas no Brasil nos reporta a um passado de lutas ininterruptas pela sobrevivência de todas as etnias e do meio ambiente que os cercam. Os indígenas cuidam incessantemente da natureza, da biodiversidade, recursos genéticos e de muitas riquezas culturais, artísticas e sociais, patrimônio este que vem perdendo seu valor. Sofrem ao longo dos anos um apagamento da sua identidade com todo tipo de invasão, seja religiosa, da terra, do seu espaço e do seu modo de vida. Nesse contexto, o nosso encontro aconteceu naturalmente para a realização do projeto ‘Os Povos Nativos’, com a ideia de elaborar uma coleção com a temática indígena para contribuir com o processo educacional, instigar o conhecimento sobre nosso patrimônio cultural em defesa dos povos indígenas e contra o brutal apagamento que eles sofrem, historicamente, ao longo dos anos.

Contribuir com o processo educacional é a principal proposta do livro?

Nimuendaju - O livro mostra a fonte de sabedoria dos povos indígenas, sendo guardiões do nosso maior patrimônio que é a natureza. Pode contribuir no processo educacional, ao mostrar que a cultura tradicional deve ser respeitada, bem como os rios, florestas, fauna e flora.

Resuma o processo de criação.

Nimuendaju - O processo de criação já estava dentro de mim, esperando o momento certo de ganhar forma. A criação das ilustrações aconteceu como num sonho, quando uma situação é visualizada ora perto, ora longe e ao passar para o papel com simplicidade e espontaneidade, foi como ouvir, viver e contar a história dos antepassados.

Em sua opinião, qual o ponto alto do livro?

Ipojucã - O ponto alto do livro é a interação entre imagens, leitura e música, proporcionando um universo único e completo de sensações. Sua identidade visual é atraente e didática, local onde o lirismo e a realidade se encontram.

Qual sua expectativa em relação ao lançamento?

Ipojucã - As melhores. É o começo de uma grandiosa missão: divulgar a nossa cultura nativa. Tem muito trabalho pela frente. Na noite do próximo dia 3 de agosto, ofereceremos ao público esta obra que nasceu de forma espontânea, mas bastante organizada, estudada, dinâmica.

Você trabalhou neste livro com sua mãe e um amigo.

Ipojucã - É um prazer enorme trabalhar com minha querida mãe, Juju, bem como com um grande amigo da família, o Pato Branco. Estamos alinhados, empolgados e com ideias férteis para desenvolvermos muitas obras dentro deste tema, os povos nativos. Não há pressa, mas também não há tempo a perder!

Há contribuições de Ude Baldan e Marlui Miranda.

Eduardo - Contamos com dois grandes reforços neste livro, que vieram somar esforços e tornar mais didática nossa mensagem. A apresentação de ‘Os Povos Nativos’ é da professora-doutora Maria de Lourdes Ortiz Gandini Baldan (Ude), que, com seu entusiasmo, nos incentivou a seguir adiante.

Nimuendaju - Também a compositora Marlui Miranda – cujas músicas têm identidade com os povos indígenas brasileiros – participa do livro. Através de amigos comuns a contatamos e ela, de imediato, aceitou participar. Inserimos QR Codes que remetem a canções de sua autoria. Assim, a cada passagem do livro, o leitor terá uma espécie de trilha sonora que expandirá a sensação que as ilustrações e o texto proporcionam, fortalecendo a compreensão e dando unidade à obra.

Quais os próximos passos?

Eduardo - Nesse primeiro momento, queremos reunir amigos, leitores, ecologistas e simpatizantes da causa indígena no lançamento. Queremos confraternizar. A partir de então, temos intenção de levar nossa mensagem libertária e singela a um público maior, conversando com a juventude, visitando escolas e instituições, participando de eventos, debatendo e esclarecendo pontos que a sociedade em geral não tem acesso, posto que os grandes meios de comunicação tiram o foco das questões relevantes e as diluem numa programação banal e alienante.

Como se deu o seu primeiro contato com indígenas?

Eduardo - Foi através da literatura, ainda na infância, lendo os clássicos de José de Alencar e Gonçalves Dias. Em Pato Branco (PR), no início da década de 1970, próximo à casa de meus pais residia uma comunidade Kaingang, numa pequena mata remanescente. Ali, visitando-os quase que diariamente, tomei contato com a cruel realidade, observando a pobreza, o abandono e a opressão em que se encontravam, vivendo sob lonas de plástico, passando fome, sem terras ou identidade. Isso me marcou profundamente e me levou a ver os fatos históricos através da visão dos humilhados pela sociedade.

Nimuendaju - Posso afirmar que desde sempre tive relação com a cultura indígena. Crescemos ouvindo as histórias que nosso pai nos contava. Observava seu modo de vida, seus costumes, seu meigo refletir e calmo agir. Tive contato bem pequena – com quatro anos, mais ou menos – com indígenas Terenas e Guaranis, num local chamado Araribá, próximo a Avaí e Bauru. Meu pai Kaiowá nos levou. Em casa, a ancestralidade indígena era algo natural, espontâneo, a ser preservado e transmitido.

PERFIS

Nimuendaju Antonia Pinotti de Oliveira (Juju) tem dois filhos: Ipojucã e Maíra. É filha de Renato Peixoto de Oliveira (da etnia indígena Kaiowá, de Dourados, Mato Grosso do Sul) e de Maria Leonor Pinotti de Oliveira (nascida em Dobrada). Juju nasceu em Catanduva (SP), no dia 31 de outubro de 1956. É pedagoga, professora de Artes Plásticas e Educação Artística (Faculdade de Educação São Luís, Jaboticabal) com mestrado em Educação Escolar (Unesp-Araraquara) e especialização em Mídias na Educação (USP-São Paulo). Durante 30 anos dedicou-se à Educação Básica e ao Ensino Superior em escolas públicas e privadas como professora, coordenadora pedagógica, vice-diretora, diretora, assistente técnico da Diretoria Regional de Ensino-Araraquara, professora de Arte no curso de Pedagogia da UniCOC-Ribeirão Preto e tutora do curso de Pedagogia EAD Uniseb/Estácio-COC-Polo Matão. Foi diretora do Departamento Municipal de Cultura (2001 a 2004); diretora do Departamento Municipal de Educação (2017 a 2018); presidente do Centro de Referência da Mulher ‘Nica Pinotti’ (de 2018 a 2020 e de 2020 a 2022). Atualmente é conselheira para assuntos indígenas do Conselho Municipal de Cultura (2021 a 2024). Na década de 1980 foi voluntária na União das Nações Indígenas (UNI) em São Paulo (capital). Idealizadora e coordenadora do Bloco Vixe Maria! (desde 2019); do Grupo Vocal Marias (desde 2017) e do Programa Arte na Rua (1996 a 2004). Participou de exposição coletiva em Havana (Cuba), em 1997. Em 1998, ficou entre as dez primeiras colocadas no segmento de Arte Contemporânea do Mapa Cultural Paulista, participando de exposição coletiva no Hotel Brasilton.

Ipojucã de Oliveira Vilas Boas (38 anos) é filho de Nimuendaju e do saudoso cartunista Glauco Vilas Boas. Designer gráfico e músico, é formado em Comunicação e Multimeios pela PUC-SP. Top level designer na 99Designs.com, já desenvolveu mais de 500 logotipos/logomarcas e identidades visuais, com trabalhos para empresas como Burger King, Bell Aircraft, AMMA (Chocolate), capa do disco de Tom Zé ‘Danç-éh-as’; capa do disco ‘Donabá’ para a cantora africana Fanta Konate e capa do disco do ‘Trio Matiz’, grupo de jazz da pianista matonense Eloá Gonçalves.

Antonio Eduardo Waack de Almeida é filho de Rosa Maria e Antonio Maria Waack de Almeida. O popular Pato Branco nasceu em Londrina (PR), no dia 5 de março de 1964, porque seu pai, funcionário do Banco do Brasil, passava uma temporada em Apucarana (PR), onde não havia maternidade. Quando Eduardo tinha um mês de vida, sua família retornou a Itu (SP), terra de seus ascendentes paternos, junto à vizinha Porto Feliz, terra de seus antepassados maternos. Sempre transferido de uma agência a outra, Antonio Maria foi para Videira (SC), onde residiu por um ano, e depois para Pato Branco (PR), onde a família esteve por oito anos. No final de 1979, chegaram a Matão, onde Eduardo se estabeleceu e casou-se com Valéria há 34 anos; tiveram os filhos Luan José, Dora Idioma e Daniel Amós. São avôs de Gabriel, Samuel, Alice Marina e Gael. Jornalista e escritor, crê na poesia como forma de transformar o mundo e as relações humanas. Escreveu/organizou/participou dos seguintes livros: Clube do Escritor (antologia, São Paulo, 1985); Espaço Aberto (coletânea, Matão, 1986), Canções do Front (livro solo, São Paulo, 1986); Poesias Mesmo I e II, João de Deus (livros solos de cordel, Recife, 1987); Água (solo, de cordel, Recife, 1988); Aqui Poesia (antologia, São Paulo, 1992); Feira Poética (antologia, São Paulo, 1994); O Melhor d'O Boêmio (antologia, Matão, 1996); 13º Festival de Poesia, Crônica e Conto (coletânea, Imperatriz, Maranhão, 2002); Vozes e Saudades (coletânea, Matão, 2003); 6º Prêmio Missões (coletânea, Roque Gonzales, Rio Grande do Sul, 2003); Letras Contemporâneas (antologia, Roque Gonzales, 2004); Poesia para Todos - Palavras do Cotidiano (antologia, 2008); Vozes da Cidade-Cultura Matonense Contemporânea (coletânea, 2009); Poesia para Todos - Palavras do Cotidiano (antologia, 2011); A gota de orvalho suspensa na flor reflete o universo (livro solo, 2013); Os guerreiros medievais têm medo de automóvel e liquidificador (2014); Pessoas & Lugares (2015); Daquilo que se pode dizer (2017); Caderno de Viagem-Brasil, Paraguai e Argentina de Carona (com José Roberto Garbim, 2020); O Rei e Eu (2021); Corpo & Alma (antologia, Matão, 2021); Essência Poética (com Chico Silva, 2022), sendo todos os livros a partir de 2008 escritos em Matão. Desde 1979, tem publicado poemas, matérias, contos e crônicas em revistas, jornais, fanzines, exposições, sites e blogs do Brasil e do exterior, incluindo em A Comarca. Desde 1991, faz por completo o Jornal ‘O Boêmio’ - cultura popular independente e evolucionária.

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