Luiz Henrique Marquez lança o livro 'O Convidado'
É a segunda obra do autor, que usa o codinome Henri Lui
Do acervo · publicada originalmente em 11 de julho de 2022
Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão
· Leitura de 10 min
Foto: Rogério Bordignon
Acervo · 2022No sábado (2), Luiz Henrique Marquez lançou seu segundo livro no bar ‘Vitrola’. Usando o codinome Henri Lui, o autor apresentou o romance ‘O Convidado’, elaborado desde 2013, quando soube – por uma amiga – histórias de um desembargador corrupto com quem ela trabalhou. O livro tem 352 páginas e sai sob o selo da Editora Frieden. Sugerida por Henri Lui, a capa foi elaborada por Rafael Gabriel da Cruz, que é capista e reside em Porto Alegre (RS). Impresso na contracapa está o fragmento de um trecho selecionado pelo autor, oriundo do capítulo ‘Dejejum’, sublinhando o sentido do luto na ótica autoral. Sobre esta obra e também sobre seu primeiro livro - ‘J.’ -, Henri Lui foi entrevistado por A Comarca.
Quando você começou a ler?
Formada em Letras pela USP de Araraquara, minha mãe lecionou Língua Portuguesa nas EEs ‘José Inocêncio da Costa’ e ‘Padre Nelson Antonio Romão’, bem como em escolas de Araraquara e Taquaritinga. Sobretudo por decorrência da profissão de minha mãe, havia muitos livros em casa. Até meus três anos, eu não falava; mas de repente, ainda nessa idade, comecei a ler e a falar. Os anos pré-escolares foram muito difíceis porque o que as professoras ensinavam, eu já sabia; as aulas não me traziam novidades. Li a série de Monteiro Lobato, ‘O Sítio do Pica-Pau Amarelo’ e outros livros infantis; depois, exemplares da Série Vagalume e, aos 16 anos, finalmente me encontrei na literatura russa, por muita influência do meu primo Caio Gagliardi, que hoje é professor de Literatura Portuguesa do curso de Letras da USP-São Paulo. Li obras de Fiódor Dostoiévski, Liev Tolstói, Ivan Turguéniev, Nikolai Gogol, Maximo Gorki, dentre outros, bem como livros escritos no Século 19 por autores como Victor Hugo, Charles Dickens, Somerset Maugham, Oscar Wilde, Alexandre Dumas, Thomas Mann e outros. Antes do meu primeiro livro, escrevi letras de canções, contos, poemas e crônicas.
Seu primeiro livro foi o romance ‘J.’. Quando e por qual motivo foi escrito?
Comecei a escrever ‘J.’ em fevereiro de 2013 e terminei em novembro do mesmo ano. Este livro surgiu como uma forma de sobreviver a um momento de depressão, felizmente superado. Para mim, a arte é forma de me manter vivo e de suportar a vida. Preciso sair da realidade para conseguir encará-la e a literatura é a forma mais eficaz que encontro para isso. A centelha de ‘J.’ foi uma crise existencial que tive durante a depressão; por isso, o livro é bastante autobiográfico. A personagem principal é o ‘J.’, abreviatura que coloquei em homenagem ao meu avô materno, Jethro Frederico Lui. Logo na primeira página, narro a morte dessa personagem. A partir do segundo capítulo, que começa logo na terceira página, o livro traz memórias que ele teve nesse seu derradeiro momento. Estas memórias seguem pelas 223 páginas da obra, terminando e explicando, justamente, a primeira cena, de sua morte. É um livro de frases curtas, capítulos pequenos e muitos substantivos; não foi feito para agradar, mas para chocar. Não é uma sequência violenta, mas dramática, pois o protagonista sofre por toda narrativa. Foi um expurgo fazer ‘J.’; realmente tirei algo de mim.
Você começou a escrever ‘O Convidado’ ainda em 2013. Por quê?
Na mesma noite, minutos depois que terminei ‘J.’, comecei a escrever ‘O Convidado’, talvez como forma de esquecer o primeiro livro. Foi uma estória muito dolorida, que precisava extirpar de alguma maneira. Mas ‘O Convidado’ estava em minha mente ainda durante a elaboração desse meu primeiro livro, como uma nuvem. Foi natural e muito fácil a passagem de um romance para outro.
Como a narrativa deste segundo romance fluiu?
Quando abri o documento em branco no computador para começar a digitar, só tinha uma personagem em mente: a figura de um desembargador corrupto, cuja história me foi contada por uma amiga que com ele trabalhou. Criei a Família Marah tendo Ivan como seu patriarca. Não tinha meio, não tinha fim, sequer ‘fio de meada’ da narrativa, mas depois do primeiro capítulo, algo transcendental aconteceu, pois as personagens surgiam na minha cabeça, no meu apartamento, enfim, deram curso à estória e eu muitas vezes me sentia mero instrumento da vontade delas. Não era eu quem decidia o destino delas, nem o rumo do que foi contado nas dez partes do livro. Foi assim desde as primeiras linhas do texto, onde o leitor saberá que são as porcelanas da mesa de jantar – sob uma ótica reversa – que aguardam e se regozijam com as excentricidades da Família Marah. As porcelanas assumem o papel de espectadores das personagens por todo o livro.
Mas você digitava as palavras. Quais limites às personagens foram feitos por você?
Me coloquei no papel de subserviente, como se eu não tivesse livre-arbítrio no destino delas. Me senti antes um instrumento que um autor. Não consigo imaginar momentos em que a condição de autor se sobrepôs aos destinos supostamente traçados pelas personagens. Mantive esta postura alternando momentos de criação com atividades opostas, como, por exemplo, a pintura de uma parede. O trabalho braçal, a transpiração, o esforço físico, o passeio com minha saudosa cachorra Isabella, limpavam meu cérebro, abrindo espaço para novas ideias.
Os Marah protagonizam o livro até o final?
Sim, mas na segunda parte da obra surge o Xavier, filho de família da periferia de uma pequena cidade que, para salvar a mãe das agressões do pai, mata-o acidentalmente. Desesperado, foge de casa e toma trem com destino a Capital. Nesse trem, ele descobre o sobrinho de Ivan Kazúmin Marah, Fiódor, que segue o mesmo rumo, com o intuito de receber uma herança até então aos cuidados do desembargador corrupto, o seu tio. Durante a viagem, Xavier tem conhecimento de quem é Fiódor e o que ele fará. Antes de descerem do trem, ainda entre os bancos dos vagões, Xavier, premeditadamente escondido no banheiro, puxa Fiódor para dentro e toma-lhe a vida. Literalmente! Quando desce do trem, nada mais de Xavier havia em si; a partir daí, ele chega na Família Marah e a narrativa se desenvolve entre as relações que ali se estabelecem.
Quem leu o livro sabe que Xavier pratica atos condenáveis, mas em dado momento se arrepende e a culpa o atormenta. Por que tantas nuances?
Xavier traz diversos matizes da humanidade e distintas personalidades. As nuances não estão apenas nele. A ideia central é trazer para o leitor a extensa gama de atitudes que um ser humano é capaz de praticar, de causar: desde um crime violento, amor, traição, perdão, falsidades, cobiça, até a mais branda resignação.
Você terminou de escrever em 2015. Por que o lançou sete anos depois?
Conclui o livro em julho de 2015, cerca de um ano e meio depois de começá-lo. No entanto, escrevi a estória em texto corrido, sem me preocupar com a forma, com a sua natureza literária, porque ela chegava rápido demais em minha mente. Para não perder esse ‘fio’, me vi forçado a escrever sem parar para melhorar a erudição dos parágrafos. Ao revisá-lo pela primeira vez, no entanto, notei que não tinha sido uma boa ideia (risos), porque precisaria reescrever todos os parágrafos, de modo a deixá-los mais ‘literários’. Eram cerca de 500 páginas, então tornou-se um trabalho hercúleo. Depois de fazer isso pela primeira vez, foram necessárias mais uma dezena de revisões para deixar o texto minimamente literário. Essa tarefa me custou mais de cinco anos!
Mesmo com este tempo de revisão, você manteve o que as personagens lhe trouxeram?
Muita coisa saiu do texto. O Ivan Kazúmin Marah, por exemplo, tinha um caso extraconjugal na primeira versão, que foi subtraído. Nikolau, filho do casal Marah, apaixonado por uma garota de sua escola, chegou a viver essa desilusão amorosa, que também foi retirada. Agora, há somente uma menção sublime a esse amor platônico. O nome da namorada de Fiódor foi alterado várias vezes e ainda não tenho certeza se a escolha foi a mais adequada. Enfim, o livro ficou com 352 páginas, cerca de 150 a menos que o conteúdo da primeira versão.
Para qual público ‘O Convidado’ se destina?
Escrevi o livro com linguagem não tão fácil. A erudição foi uma das minhas preocupações principais, então, não é uma leitura fácil como outras são. Há palavras que as pessoas não conhecem, mas a literatura é isso: conhecimento, cultura. Ainda assim, é um livro acessível, uma estória novelesca que não deixa o leitor enfadonho em momento algum. A ideia é trazer a todos os que desejam um respiro no cotidiano, um oásis na rotina da vida, um instrumento de diversão ou ao menos de distração.
Onde seu livro pode ser encontrado?
Em Matão não há livrarias; não há tanto esse costume entre nós, matonenses. Por isso, somente em livrarias de São Paulo ele estará disponível. Num futuro próximo, haverá na forma de e-book, disponível na Amazon e em outras plataformas digitais. Há um exemplar na Biblioteca ‘Maria de Lourdes Lian’, de Matão, que pode ser retirado sem custo nenhum. E para aqueles que desejarem uma unidade, posso vendê-la diretamente. Basta me contatarem pelo Instagram: henriqueluimarquez.
Já começou a escrever o próximo livro?
Infelizmente, comecei (risos). Brinco com isso porque seria mais um trabalho hercúleo, mas, enfim, comecei. Escrevi poucas páginas, ainda. Seria um livro menor, pouco maior que um conto, com linguagem ainda mais erudita que a utilizada em ‘O Convidado’. O tema, aproveitando a pandemia por que passamos, seria o de uma personagem que percorre o mundo procurando alguém que, como ela, ainda consegue amar, porque essa pandemia retirou dos seres humanos a capacidade de amar, ou seja, retirou praticamente a sua humanidade. Acho que será sobre isso meu próximo romance, mas, sinceramente, não sei quando ou se isso um dia irá ocorrer. Certamente avisarei vocês.
Quais os agradecimentos a serem feitos?
Para todos que participaram da construção dessa obra, da edição à revisão. Um especial agradecimento ao Fabiano Flamínio, por sua paciência com minhas idiossincrasias e por toda sua dedicação. Também gostaria de agradecer à Adriana Oshiro, pelo projeto gráfico. E minha mãe, que fez uma revisão primorosa do texto. Finalmente, vale uma menção à Isabella, minha companheira durante quase todo o tempo em que escrevi o livro. Obrigado ao Jornal A Comarca pelo espaço cedido.
PERFIL
Luiz Henrique Marquez nasceu em Araraquara, no dia 10 de novembro de 1976. Matonense de berço, é o filho ‘do meio’ de Luiz Carlos Marquez e Rosângela Poletti Lui Marquez. Seus irmãos são Daniela e Felipe. Adolescente, ele foi algumas vezes ajudar a perfilar produtos de fibra de vidro na empresa que seu pai teve, a extinta Fibramark, na qual começou a trabalhar na parte administrativa e comercial aos 16 anos. Em 1997, iniciou o curso de Direito na Uniara, concluindo no final de 2001. Formado, deixou a Fibramark em janeiro de 2002 e foi para São Paulo se dedicar a um curso preparatório com o objetivo de seguir a carreira jurídica.
Obteve êxito 28 meses depois, sendo aprovado em concurso no mês de maio de 2004 para ser um dos procuradores do município de São Paulo. “Conquistei uma das 100 vagas, disputadas por 18.500 advogados”, lembra. Aguardando nomeação, ele ministrou o curso ‘Interesses Difusos e Coletivos’ no Instituto Matonense Municipal de Ensino Superior (Immes), onde proferiu palestra numa das edições da Semana Jurídica. Também foi professor convidado na Faculdade de Direito Damásio de Jesus.
Luiz Henrique foi nomeado procurador em maio de 2006, passando a atuar no Departamento Judicial da Procuradoria Geral do Município de São Paulo (PGM-SP/JUD), no bairro da Liberdade. Sempre atuando na esfera dessa Procuradoria, em 2014 foi convidado por Ricardo Ferrari Nogueira (diretor do Departamento de Procedimentos Disciplinares) para ser seu assessor. Em 2016, passou a exercer a função de coordenador da Equipe Técnica de Defensoria Dativa da PGM-SP, cargo que ocupa até hoje. Desde março de 2020, Luiz Henrique intercala sua atuação no bairro paulistano da Bela Vista com períodos de home-office em Matão.
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