ARTIGO: A nova industrialização
POR JOÃO CARLOS MARCHESAN
Do acervo · publicada originalmente em 20 de junho de 2022
Fonte: João Carlos Marchesan, administrador de empresas, empresário e presidente do Conselho de Administração da Abimaq, postado por Natali Galvão
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Foto: Divulgação
Acervo · 2022Nas duas últimas décadas, diversos choques afetaram profundamente as cadeias globais de valor. Em 2008, tivemos a quebra do Lehman Brothers e a subsequente crise financeira; passamos pelo terremoto e tsunami que arrasaram a usina nuclear de Fukushima em 2011, interrompendo a atividade de importantes fábricas japonesas; e culminamos com a pandemia de covid-19, que paralisou fábricas no mundo todo, causando insegurança e desabastecimentos.
Já a partir de 2011, nas manufaturas dos principais países produtores de bens industriais, o conteúdo importado parou de crescer e, regra geral, passou a declinar. As relações entre os Estados Unidos e a China mudaram a partir de Donald Trump, para uma atitude de rivalidade e até de hostilidade, o que abalou ainda mais a globalização e, na sequência, a pandemia confirmou os riscos da excessiva dependência das cadeias globais e mostrou a importância da produção local.
Poder contar com um nível confortável de produção doméstica – tanto em matéria de insumos e equipamentos de saúde quanto de bens de capital e outros produtos essenciais à segurança nacional – passou a ser tão importante, depois desta crise pandêmica, como sempre foram a segurança alimentar, a militar e a energética. A redescoberta da importância da indústria ocorre ao mesmo tempo que uma profunda mudança tecnológica, na própria indústria.
O surgimento de um novo paradigma produtivo – baseado na digitalização, na internet das coisas, na ampla utilização de sensores inteligentes e no uso intensivo da big data e da inteligência artificial – abre oportunidades a quem tiver vontade política para renovar seu setor industrial e torná-lo mais competitivo, condição indispensável tanto para aumentar a participação da indústria no PIB quanto para alcançar a ‘segurança industrial’.
Esta oportunidade tem sido percebida pelos países desenvolvidos mais importantes que, a partir da segunda metade da década passada, têm revisitado o papel do Estado na economia, mudando seu posicionamento e passando a defender tanto políticas públicas de desenvolvimento quanto políticas industriais, com o objetivo de aumentar a capacitação tecnológica e a competitividade de seus respectivos setores industriais e, assim, fortalecê-los.
Deixando de lado a China, onde o desenvolvimento sempre foi função do Estado, a Alemanha – com a Estratégia Industrial Nacional 2030, em fins da década passada – foi o primeiro país a declarar que passaria a apoiar ostensivamente sua indústria, protegendo-a contra aquisições externas, ajudando a capitalizá-la se necessário e criando instrumentos adicionais de apoio financeiro e de P&D para que a indústria crescesse dos 20% atuais para 25% do PIB até 2030.
Os Estados Unidos, além de perderem nas últimas décadas boa parte de sua manufatura e milhões de empregos de qualidade, exportados basicamente para a Ásia, perderam também a liderança tecnológica e produtiva em setores sensíveis como bens de capital sofisticados, insumos farmacêuticos e até na produção de circuitos integrados. A Intel, por exemplo, perdeu 2/3 do mercado que tinha há 20 anos, bem como a liderança tecnológica na fabricação de chips.
Com a eleição de Biden, o governo americano passou a defender um plano ambicioso, com um vasto conjunto de ações coordenadas pelo Estado, contando com recursos superiores a US$ 5 trilhões para recuperar a infraestrutura, gerar empregos de qualidade, investir em P&D e mão de obra, apoiar a reindustrialização do país para trazer de volta boa parte da produção exportada e recuperar e manter a liderança tecnológica nos setores chaves da economia.
O Brasil, com a adesão às regras do Consenso de Washington e com a adoção do neoliberalismo pelos governos que se sucederam, a partir da década de 1990 abandonou o modelo de desenvolvimento baseado na industrialização e crescimento econômico, que foi o projeto do país que uniu sociedade e governo desde Getúlio Vargas até os governos militares, substituindo-o pela preocupação com a inflação e com as contas públicas.
Foi a industrialização quem transformou o Brasil, ao longo de meio século, de uma grande fazenda num país relativamente desenvolvido, o que nos permitiu figurar entre as mais importantes economias mundiais, fazendo os brasileiros sonharem com a real possibilidade de virmos a ser um país de primeiro mundo. A partir da década de 1980, perdemos o caminho do crescimento e, de um país de construtores e industriais, passamos a ser um país de economistas e contadores.
O ano do bicentenário da Proclamação da Independência é uma boa ocasião para o Brasil retomar o caminho do crescimento, restabelecendo como sua prioridade o desenvolvimento, com redução das desigualdades e respeito ao meio ambiente. Entretanto, manter o câmbio competitivo, um controle eficaz do endividamento público e juros baixos são itens que, por mais importantes que sejam, são apenas meios e não fins em si mesmos.
Um plano sério para controlar as contas públicas é essencial para o Estado recuperar, desde já, sua capacidade de fazer políticas anticíclicas e retomar os investimentos em infraestrutura, essenciais para gerar empregos, criar demanda para a indústria e melhorar a competitividade da economia brasileira. Isto permitirá reduzir os juros reais básicos, abaixo do crescimento do PIB, garantindo a redução da relação dívida/PIB e eliminando pressões sobre o câmbio.
Ainda que estas condições sejam necessárias para a retomada do crescimento, não serão suficientes sem a utilização de políticas públicas de desenvolvimento, como mostram os exemplos já citados. Não se trata simplesmente de recuperar fábricas fechadas, e sim de construir uma nova indústria fortalecendo seus setores mais dinâmicos, aqueles mais intensivos em tecnologia e com mais capacidade para trazer ganhos de produtividade que se espalhem por toda a economia.
Recuperar o desenvolvimento como prioridade da sociedade e da vontade política do Estado é fundamental para se alcançar esses objetivos, como nossa própria experiência histórica já demonstrou. Uma indústria competitiva, complexa e diversificada é o caminho mais eficiente para crescer de forma sustentada a taxas iguais ou superiores à média mundial. Para construí-la, a mão visível do Estado terá que ser usada com todos os seus instrumentos.
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