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Cultura e Variedades

ARTIGO: Dando bandeira para o narconegócio

POR GUILHERME FRANCO

Do acervo · publicada originalmente em 30 de abril de 2022

Fonte: Guilherme Franco, promotor de Justiça em Campinas (SP), associado à Associação Paulista do Ministério Público (APMP), postado por Natali Galvão

Foto: Divulgação

Guilherme Franco é promotor de Justiça em Campinas (SP),  associado à Associação Paulista do Ministério Público (APMP)Acervo · 2022
Guilherme Franco é promotor de Justiça em Campinas (SP), associado à Associação Paulista do Ministério Público (APMP)

‘Recebe o afeto que se encerra
em nosso peito juvenil
querido símbolo da terra
da amada terra do Brasil’.  

O nome do local teria origem no Espanhol conchilla (concha). O mega festival Coachella - realizado na Califórnia (Estados Unidos) nesse mês de abril - teve ingressos à venda na casa de US$ 500,00 ou muito mais.

Há certa restrição ao consumo de cannabis no interior do evento. Mas como cigarros de papel e vapers são permitidos, não demorou muito para alguém descobrir que dá para consumir THC ou o que mais se desejar nos e-cigarrets, com o disfarce do cheiro de pêssego, maçã ou vanilla.

No último dia 14 (uma quinta-feira), as cores da bandeira nacional - nas vestes de uma artista tupiniquim - subiram ao palco em cima de uma moto. Cenário de fundo: uma estilizada favela com destaque a um bar e engradados de cerveja - e não uma escola ou centro cultural que existem em muitas comunidades.

A artista, afiliada ao Big Alcohol, criou um ‘shot’ (100 mililitros) com quase 14 graus Gay-Lussac. Faz parte do kit-balada para as moças. A bebida, que leva o seu nome, diz-se inspirada no beat de determinado gênero musical (???) que chega a 150 Batimentos Por Minuto (BPM).

Musical foi com três pontos de interrogação - pois nesse gênero não há a presença de todos os elementos que estão lá no ABC da arte de Betânia a Beethoven: harmonia, melodia e ritmo. A bem da verdade, nem o último elemento (ritmo) pode coexistir com uma britadeira tecnológica e seus ensurdecedores decibéis.

Mas não é só. 

A artista-empresária do ramo alcoólico é parceira e apadrinhada - naquelas paragens - de um artista-empresário do ramo canábico, que a apresentou ao público. Esse, um homem de meia idade - um pouco mais novo que eu - que vende aos yankees produtos comestíveis turbinados com THC: cereais matinais e snacks. Ah! ‘Only for adults, of course’. 

Ele apareceu no palco com um blusão escuro no qual se destacava o desenho de uma folha verde de cannabis. Se não estivesse atrás do dinheiro fácil que se lucra com a dependência alheia, poderia supor alguma crise de adolescência tardia. 

Ambos - a brasileira e o rapper - mostraram ao mundo sua ‘Onda diferente’, cuja letra é sexista e alardeia uma balada carioca movida a THC.

Outra artista costuma se agregar à dupla. Uma jovem que irá ‘plantar lá no meu quintal... uma verdinha, para vender a um Real’. Um trio que se proclama musical, a despeito da pobreza intrínseca de harmonia, melodia e ritmo. Das letras, então, melhor nem comentar pois, além de rasas, contém às vezes termos impublicáveis.

Os três grandes do narcocapitalismo (tabaco, álcool e cannabis) querem trazer à terra na qual cerveja não é álcool - cerveja é só um refri segundo nossa fake law 9.294/1996 - dispositivos eletrônicos para fumar (DEFs), algodão doce e bebidas com THC. Ampliando-se o cardápio do kit-balada, que entrará em nossas casas também por meio de aplicativos de delivery.

‘Glamurizar’ substâncias psicoativas por meio da cultura pop e da mídia em geral - com forte apelo aos mais jovens e seus cérebros em formação - é um recurso bastante conhecido. Papai Noel, bebês e camelo já anunciaram cigarro.

Décadas depois, siris animados venderam cervej... - perdão, refrigerante para nossa lei nefasta - que ninguém até hoje ousou mudar e parece de pouca importância a qualquer bandeira partidária.

Quanto mais precoce for o consumo, maior a probabilidade de dependência e a escravidão à substância química pelo resto da vida. Afora outros conhecidos males causados por essa gravíssima e complexa doença. Só tabaco e álcool matam no cenário mundial quase uma capital paulista por ano: onze milhões. 

Elementares noções da Epidemiologia e da Ciência da Prevenção indicam que a legalização de uma droga aumenta sua oferta e disponibilidade - literalmente chega no mercadinho de qualquer bairro. Por conseguinte, diminui-se a percepção de risco, aumentando por outro lado a experimentação e o consumo frequente, a partir da adolescência. 

‘O auriverde pendão de minha terra, que a brisa beija e balança’ - tradução de Castro Alves: ar puro vindo do mar e não poluído com vapers e qualquer outro fumígeno - não pode se prestar a uma terrível mortalha cerebral para nossas crianças, adolescentes e jovens.

As cantoras brasileiras poderiam bem dizer ao parceiro gringo que a verdura sem par que almejamos é a destas matas, neste céu de puríssimo azul e não de um futuro desértico, sombrio e esfumaçado.

A propósito, que falta faz a matéria de Música em nossa grade curricular, como nos tempos de Villa Lobos ou Tom Jobim. Isso talvez explique o porquê da dupla Olavo Bilac/Francisco Braga, respectivamente autor da letra e da música do emocionante Hino à Bandeira, não ser mais ouvida nos pátios escolares. 
 

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