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A terra na alma

Guru e André prosseguem a saga agrícola da família Schiavetto

Do acervo · publicada originalmente em 14 de abril de 2022

Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão

· Leitura de 6 min

Foto: Rogério Bordignon

Guru, Ivana e André. A produção de soja somada a de milho safrinha corresponde a 90% do que eles plantam; e a cana-de-açúcar, 10%Acervo · 2022
Guru, Ivana e André. A produção de soja somada a de milho safrinha corresponde a 90% do que eles plantam; e a cana-de-açúcar, 10%

Devido ao declínio do café e a outros entraves de menores dimensões, a Companhia Agrícola Fazendas Paulistas (Companhia Inglesa, do grupo bretão Cambuhy Coffee & Cotton State, cuja administradora brasileira era a Brazilian Warrant Company) loteou 22 seções distribuídas num total de 22.452,83 alqueires em Matão e outros cinco municípios da região. Eram meados da década de 1950. Formador de café na Fazenda Barreiro em Cedral (SP), propriedade que ficava mais próxima da cidade de Guapiaçu, Domingos Schiavetto soube da oferta e comprou nove alqueires. No entanto, tinha que cumprir contrato de serviços e quem veio antes dele, da sua esposa Guilhermina Castellani Schiavetto e dos irmãos, foi o filho Carlos Schiavetto Netto (Nego), para derrubar mato a machado e foice, assim como construir a casa.

Ainda em 1957, os Schiavetto estavam unidos na nova propriedade – o Sítio São Pedro – para continuar a derrubada das árvores. Naquele final da década de 1950, Matão também tinha Dobrada como distrito. No total, eram 20.551 habitantes, sendo 14.462 na sede (3.480 na cidade), 3.172 em Dobrada (529 urbanos) e 2.917 em São Lourenço do Turvo (291 na urbe). Por lá conviveram os três já citados, Maria Schiavetto Ballista (Deise), Pedro, Aldair Schiavetto Ribeiro (Vanda), Ademir (Bady), Odair (Daia), Sônia Schiavetto Scopelli, Célia Schiavetto Lazari e Silvia Schiavetto. Dos membros citados da família Schiavetto, estão vivos Daia e todas as filhas do saudoso casal Domingos e Guilhermina.

Inicialmente, Domingos e filhos plantaram café, mas depois partiram para integrar o seleto grupo dos pioneiros da citricultura matonense, pois, em 1963, o patriarca decidiu plantar laranja. Vários agricultores não compreendiam o motivo pelo qual ele se inclinava à citricultura; alguns até afirmavam que ele ‘estava louco’. No entanto, Domingos vislumbrava a perspectiva que a instalação da Citrosuco em Matão causaria e apostou suas fichas na laranja. Começou com 1.000 mudas já enxertadas. Com o passar do tempo, a família cresceu e prosperou comprando ou arrendando terras e investindo na laranja, sendo que o plantio de outras culturas era incomparável ao cenário citrícola que os Schiavetto trilharam até praticamente o final de década de 1990, início dos anos 2000, quando veio uma crise terrível na citricultura – que nunca mais foi a mesma em Matão e região.

O cheiro da terra já tinha impregnado a alma dos Schiavetto. Como herança, cada filho de Domingos ganhou seu lote. Alguns arrendaram e outros continuam na prática agrícola, como Luiz Carlos (Tutão, com soja e milho), Denílson (Tutinha, proprietário da Agricampo, cultivador de milho, soja, cana-de-açúcar e criador de algumas cabeças de gado), assim como Marcelo. Os três são filhos de Nego. Ricardo (filho de Sônia) planta soja, milho e cana. E os filhos de Bady e Ivana Maria Polegatto Schiavetto – Ivademir (Guru) e André – também cultivam milho, soja e cana.

GURU E ANDRÉ

Bady, o pai de Guru e André, tinha sete anos de idade quando chegou em Matão, com seus pais e irmãos, no Sítio São Pedro. Bady faleceu no dia 2 de março de 2019. Na terra, Bady teve a ajuda de Guru e André, ambos a partir dos 12 anos. Guru nasceu no dia 2 de dezembro de 1975. É casado com Luciane Maria da Rocha Schiavetto e tem duas filhas, Maria Eduarda e Maria Gabriela, do seu primeiro casamento com Rosimara Carmen Donda. André somente deixou a rotina diária ao lado deles por um intervalo de três anos, quando fez o curso de Técnico Agrícola na Unesp de Jaboticabal. Nascido no dia 18 de dezembro de 1978, ele é casado com Ana Paula Moris Schiavetto. São pais de Leonardo e Fernando.

A irmã deles, Lucele, nasceu no dia 10 de abril de 1981. Ela e o marido Alessandro Torres têm duas filhas, Lívia e Elisa. Lucele estudou enfermagem e hoje exerce sua função na Unidade Básica de Saúde (UBS) ‘Salvador de Toledo Galrão’ (Posto do Centro). “Ela me ajudou nos afazeres domésticos, ajudava com as criações e estudava”, relata a mãe, Ivana, que morou no Sítio São Pedro pelo período total de 29 anos, em duas etapas. É importante destacar que na divisão de herança, o Sítio São Pedro ficou para Bady e Ivana.

Guru e André estão juntos na terra há praticamente três décadas. O cultivo de café já tinha sido extinto por eles e por Bady em 1992. Como alternativa à queda do preço da caixa da laranja, os três decidiram plantar 45 alqueires de milho em 1997, ano em que também começaram a arrendar terras de outros proprietários. “Apesar da crise da citricultura no final dos anos 90, início da década de 2000, mantivemos a laranja até 2007, correspondendo esta cultura a 90% do que a terra nos dava”, lembra Guru. “No entanto, erradicamos a laranja a partir de 2008, sobretudo devido ao estrago que o Greening causou”, completa André.

O primeiro talhão de cana foi plantado por eles em 2005. “A cana tomou volume a partir de 2009, mas em 2010 começamos a nos inclinar para a soja. Progressivamente, a soja foi ocupando o espaço da cana”, reporta Guru. “De outubro de um ano ao final de fevereiro do ano seguinte, plantamos soja; e de março a setembro, o milho safrinha”, informa André. Hoje, a soja é cultivada em 90% da área, de setembro a março, e o milho safrinha em 50%, de março a agosto. A cana corresponde a somente 10% da produção. “Em 2021, a falta de chuva prejudicou muito. Desde que estamos no campo, o ano passado foi o pior em chuva. Açudes, represas e córregos secaram. Felizmente, estão voltando”, reporta Guru. “Tínhamos perspectiva de colher 100 sacas de milho safrinha por alqueire, mas conseguimos colher somente 50”, afirma André.

COLHEITADEIRA

Uma colheitadeira Massey Ferguson 3640 foi adquirida por Bady, Guru e André no dia 13 de março de 2002. A primeira colheitadeira de Matão foi a de Nelson Vicensotti – um modelo importado. “Hoje, temos uma Massey Ferguson 9695”, descreve Guru. “Fomos substituindo modelos ao longo desses 20 anos e temos esta 9695, que é ano 2020”, explica André.

EM MEMÓRIA

Em 2014, Bady plantou 50 pés de café para consumo da família. “Nosso pai faleceu cinco anos depois e mantivemos o café como memória afetiva dele e do nosso avô Domingos”, menciona André. “Do tempo do Vô Domingos, restaram as duas tuias, locais onde se armazenava o café em coco, já seco”, continua Guru. Desde os primórdios de Domingos, os Schiavetto se preocupam com o meio ambiente. No Sítio São Pedro, por exemplo, há reservas de matas com dimensões dentro da legislação vigente. “Temos que preservar! É fundamental termos respeito pela fauna, pela flora, enfim, pela terra”, coloca André.

“Nosso avô dizia que terra não estraga e ninguém leva embora. Ele afirmava que o ladrão pode dormir na terra, mas não pode levá-la embora. Nossa vida vem da terra e na terra permanece. Não penso em fazer outra coisa, porque aprendi desde muito pequeno e amo o que faço. Há décadas, a terra é tudo para nós”, encerra Guru. “Meus filhos e minhas sobrinhas estão crescendo, aprendendo, estudando, sempre presentes. Mas ainda não sabemos se continuarão nosso trabalho junto à terra. O futuro, a Deus pertence”, encerra André.

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