ARTIGO: Voa Pipa, voa!
POR JULIANO JACOPINI
Do acervo · publicada originalmente em 20 de dezembro de 2021
Fonte: Juliano Jacopini, postado por Natali Galvão
· Leitura de 4 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2021Fundada no dia 22 de dezembro de 2011, a Casa Pipa – Plataforma Internacional de Produção Artística – e? uma casa de criação e residência artística, situada na Estrada da Fazenda, em Mata?o, onde fora a antiga Escola da Boa Vista. Desde 2015, o acesso ao local é feito pela Rua Vicente Russo (Azul Ville), devido ao rompimento da Estrada da Fazenda.
Idealizada pela professora e ex-diretora de cultura Lygia Nicolucci e pelo artista iraniano Khosro Adibi, a Casa principiou seus movimentos advindos de ideários do Festival Internacional de Arte-Educação Fronteiras Brasil, que havia chegado na cidade em 2009, junto da professora Gilsamara Moura, de Araraquara, que buscou parceria para a realização do festival através do governo da época, sendo acolhido pelo saudoso Adauto Scardoelli.
A passagem de Khosro Adibi por Matão e os diálogos que estabeleceu com os artistas e pessoas que basilaram a Casa Pipa foram fundamentais, pois retroalimentaram a ideia de ser a Pipa um lugar no mundo para abrigar a práxis horizontal através do encontro da comunidade de artistas nômades que por ela pudessem passar.
Em 2010, o espaço físico da Escola da Boa Vista foi – através de lei – repassado por concessão à Associação Cultural e Ambiental para Cidadania – Ong Ocara, que é a sua responsável legal. Daí, desdobram-se anos, esforços e ações, sempre coletivas e à muitas mãos, para transformar a antiga escola no espaço em perene construção que, efetivamente, é organizado como uma casa, inclusive à nível de efeitos simbólicos, tendo em vista que quem por ela passa ou permanece em residência artística estabelece o exercício familiar, de comungar direitos e deveres que uma casa exige, afinal, todos podem e devem abrir a geladeira como podem e devem recolher e levar o lixo. E aí está a diferença cruciforme do que é o organismo vivo Pipa: uma casa para que se construa, através das relações estabelecidas, experiências éticas e estéticas.
Foi após mutirões de limpeza que aconteceram aos sábados e domingos, passado pouco mais de um ano, que foi possível a abertura da Casa Pipa para o público. De pronto, a Cia. Labirinto de Teatro foi o coletivo que tomou a Casa como sua sede desde 2011; e mais a frente, no ano de 2016, seguindo até os dias de hoje, é a responsável por produzir e coordenar toda a programação da Casa Pipa.
Muito aconteceu nesses 10 anos, tanto que se espalha à perder dos olhos pelo corredor de entrada da casa que funciona já como máquina do tempo estampando memórias dos acontecimentos que sempre reuniram uma gama diversa de público: shows, espetáculos, aulas, festas, oficinas, cursos nacionais e internacionais, recebendo artistas, eventos e pesquisadores como o Circuito Dandô, Grupo Lume Teatro, Grupo Ventoforte, Fanta Konatê, Renata Rosa, Eduardo Salzane, Suzi Sperber, Ude Baldan (orientadora do grupo de leitura Urdiduras, que existe há três anos na Casa), além de ter sido palco para artistas locais como a Cia de Santo Reis ‘Padre Marcos Pião’ e o Grupo Vocal Coro e Osso (que tem papel especial, já que desde 2016 se uniu à Casa e junto à Cia Labirinto, durante o processo criativo de ‘Cordel de Condão’, construiu o teatro da Casa Pipa).
Houve também períodos de quase impotência, porque, efetivamente, a recuperação física da casa exigia – além do esforço pessoal e/ou coletivo – dinheiro. Daí que foi através de leis de incentivo federal, estadual e municipal e de parceiros como TG3 Design e Conteúdo, Jornal A Comarca, Preá Deli, Matheus Ricci Films, e por aí se estendem muitos agradecimentos a tantas empresas que impulsionam juntamente a Casa, por acreditarem na sua força, na força do coletivo.
Dez anos se passaram e passaram tantos corações pela Casa Pipa que hoje, em uma década, sobrevivente em meio a crises culturais, municipais, mundiais, pandêmicas, crises relacionais, espaciais, simbólicas e físicas, comemora sua existência, sua resistência da maneira que mais gosta: junto de pessoas, estabelecendo encontros e diálogos com o mundo através das residências artísticas que voltaram a acontecer após quase dois anos de interrupção devido à pandemia. Treze artistas estão na Casa, vindos de diferentes lugares: Argentina, Colômbia, Venezuela, Equador, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Ceará e cidades de São Paulo, trabalhando com comunidades da nossa cidade, intercambiando cultura, porque só assim é possível sonharmos um mundo melhor: quando ouvimos mais sobre o outro, e isso tem a ver com a abertura de sentidos que só a arte nos proporciona.
Parece que foi ontem que li ‘Tecendo a Manhã’, de João Cabral de Melo Neto, na inauguração da Casa Pipa, e pode ser porque o passado está sempre atualizado no presente, e é como se o poema estivesse em pé, emoldurando nossa ação contínua nesses 10 anos, tecendo o amanhã através de gritos de muitos galos lançados pelo ar, que se cruzam em rede, em livre armação, em si, em luz balão.
Que a Pipa exista sempre para todas e todos e que seja sempre uma Casa onde se exercite, a todo tempo, a horizontalidade nas relações e a liberdade das expressões, porque, para além de incomodar, a arte existe para libertar! Voa Pipa, voa!
Juliano Ricci Jacopini, artista-produtor e colaborador da Casa Pipa, é diretor de cultura de Matão
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