Jorge Scutti é 'Cidadão Matonense'
Título foi outorgado no último dia 12
Do acervo · publicada originalmente em 19 de novembro de 2021
Fonte: Rogério Bordignon, postado por Natali Galvão
· Leitura de 12 min
Foto: Rogério Bordignon
Acervo · 2021Jorge Augusto Borin Scutti se tornou ‘Cidadão Matonense’ na Sessão Solene realizada pela Câmara Municipal na noite do último dia 12. A honraria foi prestada por meio do Projeto de Decreto Legislativo nº 6/2021, de autoria do vereador Luiz Francisco Fernandes, sendo possível porque o homenageado nasceu em São Carlos no dia 2 de abril de 1985, embora tivesse morado em Matão desde os dois anos de idade.
Conduzida em exercício presidencial pelo vereador João Silvério do Carmo Filho (Policial Carmo, vice-presidente do Legislativo, substituindo a presidente Ana Maria Freire da Silva Mondini), a Sessão Solene contou com pronunciamentos de Jorge Scutti, Luiz Fernandes e dos também vereadores Davison José Tosadori (Davison Sensei, 2º secretário) e Haroldo Fernando Gonçalves (Gago).
Outras três pessoas que integraram a Mesa Diretora também se pronunciaram: Regina Elizabeth Bezerra Galli (professora aposentada e ex-vereadora, de 1993 a 2000), Aparecido do Carmo de Souza (Cidinho, advogado, presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Matão e Região e vereador por seis Legislaturas) e o prefeito Aparecido Ferrari (metalúrgico aposentado e vereador de 1997 a 2008). Outros que se pronunciaram foram os pais do homenageado, Paulo Henrique Scutti (Paulo Bim, vereador de 1993 a 2000) e Izabel Cristina Borin (assistente social). Carmo ressaltou o nome do padre Jorge João Aparecido Nahra, presente na plateia.
Em seu discurso, Jorge destacou a professora Renata Dellalibera-Joviliano, que também o prestigiou pessoalmente. “Tive o grande prazer de ser adotado cientificamente pela doutora Renata no curso de Biomedicina em Araraquara (Uniara). Tornei-me monitor da disciplina de Imunologia por dois anos e nunca mais nos desgrudamos (risos). Ela tem enorme responsabilidade na minha trajetória”, afirma.
Presenteado pelo empresário Antonio Aparecido Galli e sua esposa Regina com uma camiseta da Matonense, o homenageado também frisou a fundamental participação de sua esposa em sua vida. “Yasmin, em todo esse período de crescimento profissional, foi essencial por todo o suporte emocional. Certamente, sem a presença dela na minha vida, eu não teria obtido tanto sucesso. Ha dez anos somos um só!”, resume.
TRAJETÓRIA
Em 2003, Jorge cursou o primeiro ano de Biomedicina no Centro Universitário Luterano de Palmas (Tocantins), transferindo-se em 2004 para a Universidade de Araraquara (Uniara). Rapidamente, ele se destacou no campo da pesquisa. Concluiu a Graduação na Uniara em 2007 e no período de 2008 a 2013, fez Mestrado e Doutorado em Microbiologia e Imunologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Em São Paulo, Jorge foi docente de Imunologia, Microbiologia, Biologia Celular/Molecular e Patologia nos cursos de Farmácia, Biomedicina e Odontologia. O primeiro Pós-Doutorado foi finalizado em 2014, no Hospital Israelita Albert Einstein, e o segundo em 2015, no Departamento de Pediatria do MD Anderson Cancer Center (MDACC), em Houston (Texas, Estados Unidos).
Autor de diversos artigos científicos e livros, após concluir o segundo Pós-Doutorado (em 2015), foi conferido a Jorge o privilégio de trabalhar na Plataforma de Imunoterapia como pesquisador sênior, na equipe liderada pelo Prêmio Nobel de Medicina/Fisiologia em 2018, James Patrick Allison, renomado pesquisador que revolucionou a ciência mundial e o tratamento de câncer.
Na posição de pesquisador sênior no MDACC, Jorge contribuiu com o desenvolvimento da pesquisa em Imunoterapia e com a publicação de artigos de alto impacto no campo científico. Em 2018, Jorge deu início a uma nova jornada científica, só que agora na indústria farmacêutica. Atualmente, ele atua como diretor e líder da equipe médica de câncer de pulmão em uma das principais farmacêuticas no campo de Imunoterapia.
Irmão de Pedro Henrique, Jorge é casado com Yasmin Fortini Cortez Scutti, com quem tem dois filhos: Catharina e Thales, de 9 e 7 anos. Desde 2015, eles moram em uma pequena cidade no interior do Estado da Pensilvânia, chamada Douglassville, perto da cidade de Filadélfia. A empresa em que Jorge trabalha fica em Princeton, Nova Jersey. O discurso do novo ‘Cidadão Matonense’, na noite de outorga do título, foi brilhante. Confira no quadro.
O discurso
“Aqueles que têm o privilégio de nascer e morrer numa mesma terra, certamente conhecem o sabor da eternidade. Os cheiros familiares da praça do bairro, de suas ruas e esquinas, guardam para essas pessoas a memória de seus ancestrais, que um dia se amaram para que estivéssemos aqui. E amaram e construíram essa pequena cidade de alma enorme.
Os deuses, queridos conterrâneos, comigo foram mais avaros. Anos depois descobri, foram também mais generosos: com dois anos de idade, nascido em São Carlos, mudei-me pela primeira vez – a primeira de muitas travessias de minha alma, marcada sempre pelo ímpeto do desconhecido e por um certo atavismo nômade.
Meus pais trouxeram-me para essa terra que generosamente me acolheu como a um filho; me cobriu com o tecido do tempo bordado pelas primeiras memórias, a vivência com os amigos e com meu irmão Pedro Henrique – como tatuagens impressas na alma de um forasteiro que aqui descobriu o real significado da terra natal.
Eu jamais me esqueci dos cheiros de minha terra. Do canto dos pássaros que, quando criança, me despertavam junto ao sol dessa Matão e que hoje tive o privilégio de ouvir novamente, no caminho até a Câmara Municipal.
Deixar sua terra significa cortar raízes tão fundas quanto estes céus brasileiros. O coração nunca realiza a viagem por completo. Uma parte fica sempre no lugar de onde, na verdade, nunca desejou sair: um pedaço derretido na sorveteria do bairro, um pedaço sombreado pelas árvores da praça, um pedaço esquecido no fundo do lago.
‘Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade’.
Esses versos de Mário de Andrade poderiam se gravar sobre minha lápide, meus irmãos matonenses. O poeta italiano Dante Alighieri criticava, em 1321, a corrupção e a ganância das famílias de Florença, que impediam a unificação do reino italiano, o que ocorreria somente no Século 19. Regiões antes prósperas, como Abruzzo, foram sufocadas por impostos que tornaram a vida impraticável. Meus antepassados enfrentaram o desafio da fome e da carência dos elementos básicos da vida humana. Eles que, certamente tão enamorados de sua terra quanto eu dessa Matão, não tiveram escolha senão abandonar seu país – um lugar em que, na verdade, não se reconhecia como um todo. Abandonando a bela Chieti, na região de Abruzzo, seguiram em direção ao Novo Mundo, mas encontraram um mundo muito velho, terra viciada pelo mau costume da escravidão, que não conhecia o valor e o preço do trabalho.
Ninguém abandona sua terra se não tiver um motivo muito forte, uma imposição e um imperativo. Eu parti com minha esposa, Yasmin, e meus dois filhos, então de colo, Catharina e Thales. Me seguiram, fornecendo o conforto e o calor familiar. Eu devia, em retribuição, dar a eles o mínimo conforto de uma vida digna em uma terra estrangeira. Com pouco conhecimento de inglês, me descobri órfão de minha língua e de minha principal qualidade: a minha capacidade comunicativa, esse presente que nós, brasileiros, recebemos de berço.
Eu iniciava meu Pós-Doutorado no MD Anderson Cancer Center (MDACC), um dos mais renomados centros de pesquisa e tratamento de câncer, no desenvolvimento de imunoterapia para um tipo de câncer pediátrico de cérebro conhecido como Glioma Pontino Difusamente Intrínseco (DIPG). Não há nada mais doloroso que assistir, impotente, ao ceifar de uma vida ainda em seu desabrochar. O mesmo impulso vital que me encorajava a buscar uma saída clínica para o câncer me fez seguir adiante, mesmo frente a tantas dificuldades, para também proporcionar uma vida melhor e digna para minha família.
Os corpos de infectados pela peste bubônica foram usados como arma biológica pelos mongóis, alastrando a doença que matou centenas de milhões de europeus, na maior pandemia que nossa espécie já presenciou. No Século 19, a tuberculose ceifou a vida de incontáveis poetas, músicos e escravos, sem distinção de raça ou classe social. A Aids – hoje uma doença perfeitamente tratável e em breve evitável por meio de vacina, assim como aconteceu com a varíola – ceifou a vida de pessoas amadas por todo o planeta, como o cantor Freddy Mercury e em nosso país, Cazuza. ‘Vita brevis, ars longa’, disse o pai da Medicina, Hipócrates. A vida é breve e a arte é longa.
E o Século 21 é o palco da batalha contra antiga doença nessa longa lista: o câncer. Nós não somos, de fato, os únicos seres sobre esse planeta a disputar a limitada energia disponível no ar, na terra e na água. O que nos faz pensar que somos melhores que as menores bactérias que habitam nosso mundo e que disputam conosco sua sobrevivência?
Mas o câncer não se trata de um vírus, nem tampouco de uma bactéria. É corpo estranho, enigmático, complexo, descrito pela primeira vez no ano de 2200 antes de Cristo, pelo médico egípcio Imhotep, que descreveu em papiro a doença de número 45: massas salientes no peito e que se espalharam pelo peito, frias, duras e densas como uma fruta. Em uma visão bioquímica, molecular e estrutural, o câncer é uma das unidades de vida mais completas que se pode ter em nível de sistema celular. Uma célula que consegue se replicar mesmo na ausência de um corpo. Uma vida que se reproduz mesmo na ausência de um corpo. Trata-se da beleza de um mecanismo único, de uma célula que é capaz de sobreviver com apenas alguns estímulos, que não morre, que se mantém viva com poucos estímulos de alimentação bioquímica.
Mas para nós não se trata de nada disso, senão de nossas mães, avós, irmãos, filhos, que servem de alimento para esse corpo esfíngico que habita os nossos corpos e de nossos entes queridos. Uma doença de natureza bioquímica, mas também psíquica e social, como desenhou a filósofa do Século 20, Susan Sontag. Acometida pelo câncer, a pensadora, que dedicou sua vida à compreensão do horror do nazismo, teve que transformar sua doença em metáfora para compreendê-la e aceitá-la.
Pois diante da impossibilidade da compreensão do real, não nos resta nada mais que a poesia para revestir de sentido aquilo que escapa pelos vãos de nossos dedos: a vida e a morte. Um trauma, a inevitabilidade do real, que nos retira de nossos sonhos e planos. Um corpo que devora a si mesmo e que por tanto tempo, desde as amputações do Século 17, a quimioterapia do Século 20, precisamos combater também machucando e cicatrizando nossos corpos.
Me pergunto: por que não a combater no berço, evitá-la? ‘Decifra-me ou te devoro’, disse a Esfinge a Édipo, na célebre tragédia de Sófocles. Eu escolhi, meus irmãos, decifrar a natureza da besta. Em minha pesquisa, desenvolvemos um modelo terapêutico pré-clínico baseado em células do sistema imune, conhecidas como células Natural Killer’s (NK), que destroem células cancerosas e infectadas por vírus. O objetivo de minha pesquisa era ter acesso a essas células NK oriundas de doadores saudáveis, compatíveis com seus respectivos receptores, modificá-las em laboratório para torná-las ainda mais potentes e injetar diretamente nos cérebros de pacientes desenvolvendo esse tipo de câncer.
Muitas vezes, despindo o jaleco de pesquisador, sofri também como um leigo frente à dor inominável. Ela levou embora amigos e familiares queridos de todos nós. No ano passado, vivi essa dor dentro do seio familiar. O câncer ceifou a vida de meu avô, Hormindo Borin, que se despediu de nós, vítima de um tumor de colorretal. Meu avô, que me deu morada e abrigo para que eu terminasse o curso de Biomedicina na Uniara, em Araraquara. Meu avô, que financiou, não somente meus estudos, mas meu sonho. E o presente que devolvo a você, Vô, é o de prosseguir sabendo que cada dia a mais vivido por um paciente lhe proporciona um abraço, uma história, uma memória que nós, como espécie, carregamos no peito. Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio. Assim, disse o poeta.
Que dinheiro pode pagar um último abraço, a última visão de um entardecer, o extremo calor humano que nos embala nessa noite estrelada de interior, meus caros conterrâneos? Que milhão de dólares pode ter valor maior que um último abraço em seu ente querido? É esse o sentimento que carrego no peito, ao pisar novamente a terra familiar: eu retorno hoje, senhoras e senhores, para buscar alguns pedaços de meu coração que ficaram por essa cidade. A busca e o reencontro do sentido que me fizeram caminhar até aqui. São sentimentos que alegram e são provas de que um jovem deseja encontrar um caminho em sua vida. Que o jovem quer vencer! E hoje, um tantinho mais velho, desejo e sei que nós possamos, como comarca, como cidade, como comunidade, ajudar esses jovens a vencer.
Por isso, reivindico a todas as autoridades que lutem pela ciência. Essa ciência tão maltratada no nosso Brasil de hoje, essa ciência esquecida e mutilada por cortes cada vez mais profundos de verba. Essa ciência que guarda, na linha de frente da batalha contra o câncer e contra o Sars-Cov-2, os verdadeiros Heróis de nossa Pátria.
Quando penso que o poeta Castro Alves, morto aos 24 anos, em 1871, poderia ter sido salvo, pelo mísero prazo de 57 anos, pela descoberta da penicilina por Alexander Fleming, relembro a importância do investimento urgente na inovação científica. É esse o exemplo que as principais nações capitalistas do planeta nos dão diariamente, quando, no último ano, países como a Alemanha e os Estados Unidos mais que dobraram os investimentos nessa esfera essencial ao desenvolvimento das democracias fortes e saudáveis. E não conclamo somente as autoridades públicas, mas também as da esfera privada. Se nos Estados Unidos a doação particular ocupa uma quantia relevante das verbas para pesquisa, no Brasil ela é ainda quase insignificante. E se sabemos que, no país onde hoje desenvolvo minhas investigações científicas, de cada Dólar investido, seis retornam para a maior democracia do planeta, que isso nos sirva de exemplo para que acreditemos em nossos jovens, para que não os percamos na fuga de cérebros, que cada vez mais nos rouba nossos gênios, aqui formados e gabaritados.
É o tempo de relembrarmos as palavras do poeta Castro Alves, que em sua época enfrentou o câncer social da escravidão. O poeta de 24 anos que conclamou, em alto e bom tom: ‘Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!’. É tempo de nos libertarmos da escravidão da ignorância, para que um dia, jovens matonenses, como fui e sou, possam desenvolver em sua Terra Pátria as pesquisas de inovação que apontem os novos rumos de nossa humanidade”.
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