Campangnollo quer subir com a Matonense
Treinador acredita que pode conseguir trabalhar em séries superiores, com a própria equipe de Matão
Do acervo · publicada originalmente em 1 de outubro de 2021
Fonte: Rogério Bordignon
· Leitura de 8 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2021Em 1993, então zagueiro do Noroeste, Marcos Antonio Campagnollo teve uma grande chance para jogar no Corinthians, ocasião em que o time do Parque São Jorge vendeu o zagueiro Marcelo Kiremitdjian para o Lyon da França. Campangnollo chegou a ter conversas preliminares, mas o Corinthians o queria emprestado por seis meses com valor do passe fixado e o Noroeste queria vendê-lo por US$ 300 mil. Outra chance de jogar em time grande aconteceu em 1992, quando também atuava pelo Noroeste. O então treinador Nelsinho Baptista o indicou, mas a contratação emperrou novamente e o Palmeiras decidiu trazer para o elenco o zagueiro Edinho Baiano.
A partir de 2010, o futebol ganhou um treinador que tem se construído no alicerce de sua experiência como jogador e também por aperfeiçoamentos, como ter concluído o curso superior de Educação Física no Centro Universitário ‘Hermínio Ometto’ e ter obtido as Licenças ‘A’ e ‘B’ da Confederação Brasileira de Futebol (CBF Academy). “Sempre fui uma pessoa intensa, focada no trabalho. Como treinador, estas características se potencializaram. Para mim, a próxima partida será sempre a última. Durmo pouco por ficar pensando em soluções e em encontrar a melhor decisão”, garante ele, que também assiste a vídeos de jogos dos adversários.
Como zagueiro, Campangnollo jogou no União São João de Araras, de 1987 a 1990; de 1990 a 1997, no Noroeste, período intervalado por passagens no Velo Clube (1990) e União de Rondonópolis (MS, 1997); Taubaté (1998), Internacional de Bebedouro (1999), URT de Minas Gerais e Londrina (2000); União Bandeirante do Paraná e Taubaté (2001); Marília (2002) e Noroeste, onde encerrou a carreira como jogador em 2003. Nascido em Araras no dia 18 de abril de 1970, companheiro de Giuvanna Alessandra Munno, ele é pai de Marcus Vinícius, filho do seu primeiro casamento com Maclaine Dias. De 2004 a 2009, Campangnollo se dedicou ao curso superior de Educação Física. A Comarca o entrevistou.
O que te motivou a cursar Educação Física?
Queria conhecer a parte teórica para ampliar meus conhecimentos, somando aquilo que adquiri como jogador. O maior proveito nesta formação acadêmica foi a montagem de ciclos de treinamentos micro, mezzo (médio) e macro, que uso sempre. Também consigo dialogar bem melhor com os preparadores físicos e de goleiros, por ter boa base teórica para estas comunicações.
Quais equipes já treinou?
Minha vida profissional como treinador é quase totalmente dedicada às categorias de base. Comecei no União São João como auxiliar-técnico em 2010, onde fui efetivado como treinador do Sub-20. Em 2012, Velo Clube (Sub-20); 2013, Mogi Mirim (Sub-20); 2014 a 2017, São Carlos Futebol Clube (Sub-20 e Profissional); 2017 e 2018, Rio Claro (Sub-20 e auxiliar-técnico do Profissional); 2019, Matonense (Sub-23) e Rio Branco de Americana (Sub-23); 2020, Rio Branco (Sub-23); e 2021, Rio Branco, São Carlos e Matonense.
Há sempre uma preferência por estudar ou prestar mais atenção em certos treinadores. Quais os seus preferidos, outrora e hoje?
Referente a outrora, cito Pedro Rocha, Telê Santana, Wanderley Luxemburgo e Émerson Leão, cada um no seu estilo. Observei-os mais quanto ao trato com os atletas, ao modo como eles se portaram diante dos elencos e pelos destaques que obtiveram. Hoje destaco Dorival Júnior, Cuca e Renato Gaúcho, pois são vitoriosos. No entanto, um treinador tem que ter sua estrutura, seu modo de trabalhar, seu padrão tático e suas variações, encontrando o seu padrão particular, o seu estilo.
E qual é o seu?
Mesmo como jogador, sempre fui uma pessoa intensa, focada demais no trabalho. Como treinador, então, estas características se potencializaram. Para mim, a próxima partida sempre assume a característica de ser a última. Durmo pouco por ficar pensando em soluções e por sempre querer buscar encontrar a melhor decisão, levando em conta muitos aspectos que envolvem o vasto contexto do futebol, antes e depois de se definir os 11 jogadores que começarão o jogo. Também considero imprescindível assistir a vídeos de jogos dos adversários para melhor definir a postura do time.
Nestes 11 anos como técnico, a maciça maioria do tempo foi treinando jogadores de categorias de base. Há intenção de voltar a dirigir jogadores mais experientes?
Não há nada de errado em cumprir a missão junto às categorias de base; afinal, cada um tem a uma missão determinada por Deus. Formar atletas mais jovens, vê-los melhorar enquanto atletas e cidadãos, é uma atividade muito digna. Porém, já acumulei vasta experiência nesses 11 anos como treinador e sei que tenho conhecimento e capacidade para assumir uma equipe com jogadores mais experientes em divisões superiores. É esta a minha vontade. Claro que continuarei me dedicando sempre ao que faço enquanto uma oportunidade definitiva – em boas condições de elenco, estrutura – não surge em divisões superiores. Confio na minha competência, no meu trabalho e no que é oferecido a mim, como aqui na Matonense. Quando aceitei o convite, vim para somar ao intuito de subir a escada do futebol paulista, quiçá brasileiro. Quem sabe isso não aconteça comigo na Matonense? Pode ser que eu e o time galguemos a escalada juntos, por que não?
O senhor tem licenças ‘B’ e ‘A’ da CBF. O que foi absorvido nestes cursos?
Isso me permite ser treinador de times da Série A do Campeonato Brasileiro. Foram bons cursos. Fiquei 20 dias na Granja Comary para a obtenção da Licença ‘A’, pois já tinha a ‘B’ em curso realizado anteriormente, ambas conquistadas em Terezópolis (RJ). Me lembro bem dos ensinamentos de um alemão, de nome Peter, se não me engano.
Os alunos aprenderam a empregar o padrão tático da Seleção Alemã?
Então... Esperávamos aulas com trabalhos de perenização tática no padrão europeu, numa expectativa decorrente daquilo que a Seleção da Alemanha fez com a Seleção Brasileira numa semifinal de Copa do Mundo, enfiando um balaio de 1x7 em pleno Mineirão. Mas sabe o que o alemão do curso nos reforçou bastante? Ele deu trabalhos analíticos sobre a essência do futebol brasileiro, sobretudo em trabalhos de base, nos trazendo os nossos fundamentos, como passe, cruzamento, toque de bola, finalização, cabeceio, transição, diagonal, ‘facão’, improvisação, realçando o talento brasileiro. Isso reforçou bastante o que eu já pensava: para voltar a reconquistar o Título Mundial, a Seleção Brasileira tem que manter nos jogadores as suas características natas, a alegria, torcer para o surgimento de novos gênios e adequar a isso um bom tanto da tática e da disciplina europeias. Para isso, todos os profissionais do futebol brasileiro têm que ter as melhores condições de trabalho possíveis, assim como ter moradia decente, alimentação balanceada, contar com os trabalhos paralelos de conhecimento e acompanhamento, seja na área da saúde, na formação humana, no conteúdo cultural.
Sua chegada a Matão se deu no dia 2 de setembro. Até o dia 29, o time venceu sete partidas seguidas, encerrando a Primeira Fase como líder do grupo e quarto na classificação geral, além de ter dado passo importante para as quartas-de-final. Poderia ser que nada disso ocorresse e a Matonense não conseguisse estes bons resultados.
Poderia. No futebol, tudo pode. Uma disputa como esta do Campeonato Paulista Sub-23 é muito rápida. Você tem que ‘trocar o pneu com o carro andando’ e em alta velocidade. Você tanto pode conseguir, como o carro pode se desgovernar, capotar. Felizmente, com meu trabalho, o da comissão técnica, o resguardo da diretoria e o grande empenho de um elenco que também quer ser vitorioso, fazemos uma grande campanha. Tenho muita fé, faço minhas orações e peço a Deus para conduzir o nosso dia a dia. Minha índole e meu caráter são irreparáveis e estas qualidades são fundamentais para que seja possível lidar com todos os tipos de pressões, como, por exemplo, para escalar este ou aquele jogador. Vale o teu olhar, a tua sensibilidade para tomar as decisões acertadas. Sua ética e proposta de trabalho são fundamentais. Sucesso é conjunção de conhecimento, sabedoria, trabalhar certinho, foco, fé, decisões acertadas e boas práticas. Afinal, os bons resultados são basilares; sem eles, tudo descamba.
Saber montar plantel, definir titulares, escalar quem vai para a reserva e saber a quem poupar também é imprescindível.
Quando possível, é importantíssimo participar da definição do plantel. Eu, por exemplo, ajudei bastante a formar o elenco do Rio Branco de Americana, que também disputa as oitavas-de-final do Paulista Sub-23. Teoricamente, é bem melhor se for possível formar um plantel e treiná-lo desde o início, mas isso nem sempre ocorre, claro, pois resultados bons podem faltar. É fundamental conhecer o adversário, pois os jogos exigem estudos e análises prévias para se definir o padrão tático, quem joga, quem comporá o banco de reservas para eventuais mudanças ao longo da partida e quem será poupado. Há anos, sempre assisto a partidas dos adversários para definir a melhor escalação e a melhor postura tática diante daquele time que enfrentaremos. Hoje, a tecnologia digital e os streamings facilitaram esse tipo de consulta, pois vários jogos são transmitidos e ficam disponíveis no site. Então, assisto a pelo menos um jogo do nosso próximo adversário para tomar decisões certas.
Cite exemplos.
No jogo contra o Fernandópolis, sabia que o ponto forte deles era o apoio pelas laterais. Então tive que neutralizar isso com atletas que conseguissem, no caso, o Paulinho e o Dênis, que têm características ofensivas, mas com muita noção de marcação. Já no jogo contra o Catanduva, a força maior deles era no meio. Então, estruturei um ‘losango’ no com Matheus, Willian, Paulinho e Wellington, sendo que o Vitor Hugo também fecha no meio. Contra o CAT, o Matheus tinha tomado o terceiro cartão amarelo e ficou suspenso. Mas provavelmente o pouparia se continuasse ‘pendurado’, pois o Matheus, Willian, Mariano e Bahia – o ‘miolo’ do nosso sistema defensivo – estavam ameaçados de ficarem de fora da primeira partida contra a Inter de Bebedouro. Felizmente, os cartões amarelos foram zerados.
O esquema tático usado é o 4-4-2.
Uso mais um 4-2-3-1 com variações para 4-3-3 e 4-4-2, com muita força, determinação, foco, velocidade. Isso tudo dependendo de como se enfrentar gramados em péssimas condições que prejudicam muito a qualquer padrão tático e a qualquer jogador. Este plantel da Matonense marca como ‘Bezinha’ e tem qualidade para jogar como time de divisões superiores.
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