Bruna Tella Guerra põe a lupa em Leonardo Padura
Jornalismo e a literatura do escritor cubano são abordados em livro da autora matonense
Do acervo · publicada originalmente em 6 de setembro de 2021
Fonte: Rogério Bordignon
· Leitura de 12 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2021Bruna Tella Guerra nasceu em Araraquara no dia 6 de novembro de 1987, mas é matonense de berço e campineira de coração, pois vive em Campinas desde os 18 anos, com um pequeno intervalo entre 2018 e 2019, quando fez Doutorado ‘Sanduíche’ em Nova York. É filha caçula de Roberto Aparecido Guerra e Rosilis Aparecida Tella Guerra, sendo irmã de Filipe e Camila.
Cursou Licenciatura em Letras na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) de 2006 a 2009, Mestrado em Teoria e História Literária (área de Teoria e Crítica Literária) de 2011 a 2013 e Doutorado em Teoria e História Literária (Teoria e Crítica Literária) de 2015 a 2019. Atua em diversas frentes: professora, pesquisadora, conteudista de material didático para Ensino Superior, corretora de provas de larga escala etc.
De 2010 a 2015 e de 2019 aos dias atuais, foi professora de Língua Portuguesa e Literatura nas redes pública e particular da região de Campinas. Hoje, é professora de uma das mais antigas escolas do Estado de São Paulo, a EE ‘Culto à Ciência’. Em 2017 e entre 2018 e 2019, Bruna foi ‘visiting scholar’ (visitante escolar) na State University of New York (Suny) at Stony Brook. De 2014 até agora, atua também em cursos de Ensino a Distância (EaD) de Letras e de Especialização em Ensino de Língua Portuguesa e Literatura, da Universidade Federal de Lavras (Ufla).
Recentemente, teve um livro publicado pela Editora Urutau (selo Margem da Palavra), intitulado ‘O socialismo e o intelectual em Cuba: negociações e transgressões no jornalismo e na literatura de Leonardo Padura’, com 228 páginas. Nesta entrevista, Bruna resume sua obra, conta como Cuba chegou ao seu conhecimento e nos dá uma síntese sobre aquela ilha que continua chamando atenção e gerando comentários.
Quando você ouviu falar de Cuba pela primeira vez? Que visão você tinha do país naquela ocasião?
Em meu livro, conto de forma ensaística as minhas primeiras memórias sobre Cuba. Uma das mais antigas é a de um livro de autoria de Fernando Morais, pertencente ao meu pai, chamado ‘A ilha: um repórter brasileiro no país de Fidel Castro’. Hoje, o livro está comigo e justamente a capa – que eu considerava enigmática –, de um Fidel Castro de boné e rosto bronzeado, desapareceu. Acredito que esse tenha sido meu primeiro contato com Cuba e ainda não sabia o que era aquela ilha, nem mesmo sua história. Por isso é difícil precisar qual era a minha visão naquela ocasião adolescente. Talvez sentisse curiosidade pelo título do livro e sua capa, nada além disso.
Quando e por que você decidiu escrever o livro?
Cuba é uma questão paradigmática para as esquerdas latino-americanas. Durante os governos Lula e Dilma, várias situações nos levavam a pensar em Cuba, principalmente pela aproximação desses governos com os Castro, como o empréstimo do BNDES para a construção do Porto de Mariel, o programa Mais Médicos etc. Foi também nesse momento que o bordão ‘Vai pra Cuba!’ passou a ser utilizado pela direita como uma forma de ataque àqueles que apoiavam ou simpatizavam com as medidas dos governos progressistas. Como consequência, as esquerdas assumiram o bordão como uma ordem positiva. O problema disso é uma dinâmica que ainda perdura. Para emprestar as palavras do professor da Universidade de Coimbra, Boaventura de Sousa Santos, isso faz com que existam somente duas posições: entender que Cuba é um problema sem solução ou que Cuba é uma solução sem problemas. Obviamente, isso escamoteia todas as tonalidades que existem entre o preto e o branco. Foi a busca por esses tons que me levou a escrever esse livro, que é a minha Tese de Doutorado. Sempre me interessei pelas relações entre literatura e sociedade, mais especificamente literatura e política. Entrei no curso de Doutorado em 2015 com um projeto em que o livro ‘O homem que amava os cachorros’, de Leonardo Padura, era um dos textos que eu pretendia analisar em busca do que o escritor chileno Roberto Bolaño denomina ‘territórios do mal’. No entanto, as inquietações que a obra de Padura me causavam fizeram com que eu mudasse completamente os rumos da pesquisa proposta e começasse a ir atrás dos questionamentos que ela me levantava, os quais colocavam em xeque minhas convicções sobre Cuba e me faziam querer entender um pouco mais das complexidades existentes no país, para além do panfletário detrator e do panfletário apoiador.
Qual a relação entre aspectos da produção literária cubana e o que a afeta ou a impulsiona?
Não me considero uma especialista em literatura cubana, mas na história intelectual do país. No entanto, posso dizer que há o seguinte impasse: há a literatura que se produz em Cuba e se comercializa fora da ilha, como é o caso dos autores Leonardo Padura, Pedro Juan Gutiérrez, Wendy Guerra, José Antonio Ponte etc, que é aquela com a qual normalmente temos contato e que, ironicamente, parece não ganhar espaço para promover mudanças e reflexões em sua própria sociedade. Há também aquela literatura que se produz e se comercializa em Cuba, com a qual nós, estrangeiros, temos pouco contato, caso de Ena Lucía Portela – excelente, por sinal. Quando estive em Cuba, quando conversava com as pessoas a respeito de Padura, poucas o conheciam. Um rapaz que trabalhava numa espécie de padaria disse ter tido contato com ‘O homem que amava os cachorros’ na edição da Tusquets – a mesma que a minha –, uma editora espanhola. Dizia ter ganhado o livro de um italiano que visitara o país, o que me parece bastante curioso: a importação do livro de um cubano.
Por que o foco em Leonardo Padura?
Ouvi falar de Leonardo Padura pela primeira vez em dezembro de 2013, quando o escritor Ricardo Lísias postou no Facebook que o livro ‘O homem que amava os cachorros’, então recém-publicado pela Boitempo Editorial, era excelente. Confesso que o que me chamou a atenção, num primeiro instante, foi o título da obra. Saber que se tratava de literatura cubana me deixou mais empolgada, já que a virada de 2013 para 2014 trouxe um recrudescimento das direitas no Brasil e isso estava tirando o meu sono. Acreditava que ter contato com a literatura cubana poderia me trazer algum insight, resposta ou alento. Porém, o romance trata de vários erros cometidos pelas esquerdas no decorrer do Século 20, como a perseguição e assassinato de Leon Trótski por Stalin, sobre os braços do stalinismo e, em Cuba, sobre as parametrizações ocorridas no chamado ‘Quinquênio Cinza’, ou ‘Pavonato’, um período de censuras e perseguições a artistas. Isso é normalmente um não-dito. Pouco se fala sobre esse assunto na América Latina que trata Cuba como totem. Além do teor do livro, comecei a ficar bastante intrigada com a recepção calorosa da obra aqui no país, sobretudo pelas esquerdas, com discursos que não condiziam com o que Leonardo Padura escrevia. Vou citar alguns exemplos. O romance é composto de três planos espaço-temporais distintos. São eles: 1) a história de um cubano, o narrador, que tem a idade da Revolução Cubana e que passa por diversos percalços na tentativa de ser um escritor em Cuba; 2) a história de Leon Trótski, desde quando é expulso da União Soviética até ser assassinado no México; 3) A história de Ramón Mercader, o assassino de Trótski, desde quando é recrutado na Espanha, durante a Guerra Civil Espanhola, pela própria mãe para cumprir uma missão para o Partido Comunista, até seus últimos dias. O prefaciador do livro em sua edição brasileira diz que o plano espaço-temporal do narrador é de menor importância, o que, a meu ver, em termos de análise literária, parece ser de um descuido tremendo. O narrador é como a câmera no cinema: através dela é que a perspectiva é criada. Como, então, o narrador cubano é o de menor importância? Outro exemplo foi um post de Facebook feito por uma pessoa bastante envolvida com a circulação de Padura no Brasil, em que se indignava com um artigo publicado pelo escritor cubano na Folha de S. Paulo que insinuava a possibilidade de Stálin ser o responsável por enviar a atriz Sara Montiel como um ‘presente’ para Mercader na prisão, no México. Ora, trata-se de uma teoria trazida pelo próprio Leonardo Padura em um dos capítulos de ‘O homem que amava os cachorros’. Além disso, o livro é praticamente uma crítica ao stalinismo e seus rizomas no mundo. Logo, essa dissonância entre a escritura de Padura e sua imagem midiática, a qual praticamente desconsiderava a dinâmica e o teor de sua escritura, foi o que me impulsionou a enfocar nesse escritor e é justamente o que analiso na primeira parte do meu livro. Além disso, tentei investigar quem é Leonardo Padura na história intelectual cubana. Para isso, visitei a ilha no final de 2015 e consultei arquivos jornalísticos na The New York Public Library, onde recolhi quase toda a produção jornalística de Padura na década de 1980 na revista cultural ‘El Caimán Barbudo’ e no diário ‘Juventud Rebelde’. Ali, Padura desenvolveu um jornalismo dentro de mídias oficiais, as únicas permitidas no país, que faziam um movimento de negociação e de transgressão com o poder. Cabe dizer que a década de 1980, no que tange às artes e à cultura na ilha, é um momento de modificações importantes na produção cultural que havia sofrido parametrizações no decênio anterior. Padura é um dos ‘homens novos’ – como Che Guevara denominava aqueles que haviam nascido e crescido dentro de um país socialista –, desenvolvendo um jornalismo literário que já indicava a construção de um projeto estético, um embrião de sua literatura policial e histórica que ficou conhecida internacionalmente a partir da década de 1990.
O título do livro foi definido por algum motivo específico?
O título é um trocadilho com o famigerado texto de Che Guevara, ‘O socialismo e o homem em Cuba’, originalmente uma carta a Carlos Quijano publicada no semanário uruguaio Marcha, em 12 de março de 1965. Este texto continuou a ser publicado em periódicos de Cuba por muitos anos. Nele, Che explica teoricamente o que se esperava do intelectual revolucionário, aquele que cresceu dentro da Revolução Cubana, o ‘homem novo’, cujas práticas e consciência comporiam a sociedade socialista em uma unidade dialética, diferentes do que ocorreria numa sociedade capitalista, em que a liberdade de criação seria uma espécie de fuga da realidade. Curiosamente, os homens novos cubanos não seguiram as previsões de Che Guevara e a questão da liberdade de criação cultural segue existindo.
Cuba está em processo de mudanças com o presidente Miguel Díaz-Canel?
Pelo que tenho visto, não há mudanças significativas. Miguel Díaz-Canel – que chefia o Estado cubano desde 2018 – representa uma continuidade do Partido Comunista de Cuba (PCC), o mesmo de Fidel e Raúl Castro.
Quais as perspectivas para a literatura e para a cultura em Cuba?
O que acompanho a respeito da cultura em Cuba me parece desolador. Em julho pudemos acompanhar algumas manifestações que levaram diversos ativistas à prisão. Na verdade, foi apenas o estopim de diversas dificuldades que os cubanos enfrentam, talvez o momento econômico mais crítico desde a década de 1990, momento nomeado como ‘período especial em tempos de paz’, após o fim do Bloco Soviético que colocou Cuba à prova. Como sobreviver ao embargo estadunidense sem o respaldo soviético e sendo praticamente uma monocultura econômica? Incrivelmente sobreviveram. O preço foi alto, mas sobreviveram. Atualmente, a crise está bem séria, mais uma vez. Desde o começo deste ano, por exemplo, as moedas do país foram unificadas, sendo que desde alguns anos havia a separação entre a moeda local e a do turista, o que gerou prejuízos econômicos aos locais. Porém, o campo sobre o qual posso abordar com mais propriedade é mesmo o da cultura, que não está bem. Em dezembro de 2018, por exemplo, foi criado o ‘Movimiento San Isidro’, em resposta ao Decreto nº 349, que regulamenta as práticas artísticas na ilha. Muitos artistas fizeram e têm feito greve de fome desde então, uma vez que o decreto parece retomar os momentos mais obscuros do período revolucionário cubano, como a perseguição a Herberto Padilla, um caso paradigmático para o país.
O que o cubano e pessoas de outros países podem esperar do que ocorre em Cuba?
Não me sinto apta para prever o futuro de Cuba. Acredito que ninguém saiba exatamente o que acontecerá nos próximos anos.
Escrever este livro te deixou mais distante da ‘esquerda’?
Embora muitos possam imaginar, esta pesquisa não me fez ter um posicionamento político de direita. O meu livro traz críticas à esquerda feitas por uma pessoa de esquerda, que considera que as mudanças só poderão ocorrer efetivamente a partir do momento em que as nuances políticas e sociais puderem ser vistas e elaboradas. Não sou do time que acredita que Cuba é um problema sem solução, nem do time que diz que Cuba é uma solução sem problema. Quando falamos de Revolução Cubana e de período revolucionário, sempre devemos nos perguntar: a qual período e aspecto da Revolução estamos nos referindo? Isso é essencial. O período revolucionário não é monolítico, mas muito dinâmico. E é isso que procuro desenvolver em meu livro. No momento em que a Revolução Cubana ocorreu, acredito que a tomada do poder pelas ‘guerrillas’ tenha sido algo extremamente relevante. A aproximação com a extinta União Soviética é que traz uma enormidade de problemas. Sem saber, grande parte da esquerda latino-americana é herdeira dos discursos de Fidel Castro. Sempre que comentava minha pesquisa, pessoas de esquerda diziam que eu deveria fazer críticas positivas. Mas o que é exatamente isso? Curiosamente, é justamente o que Fidel Castro falou em diversos de seus discursos: deve-se fazer críticas edificantes, construtivas, nunca destrutivas. Mas eu me pergunto: é possível ressignificar sem destruir?
Para quem a obra é dedicada? A quem agradecer?
A dedicatória é: “Aos meus pais, não apenas pelo óbvio, mas por todos os fios que unem nossas histórias a esta pesquisa: a década de 1950, a década de 1980 e o pensamento progressista”. Explico: a década de 1950 é a que meus pais nasceram, a mesma em que ocorreu a Revolução Cubana e que nasceu Leonardo Padura. Logo, meus pais pertencem à mesma geração que os homens novos em Cuba. A década de 1980 é aquela em que eu nasci, a mesma em que Leonardo Padura iniciou e levou a cabo sua carreira como jornalista na imprensa oficial cubana, a qual analiso em meu livro. O pensamento progressista é o que move meus pais, eu mesma, mas também é a força-motriz da pesquisa que deu origem ao livro. É preciso reinventar as esquerdas, para citar, mais uma vez, o professor português Boaventura de Sousa Santos. Cabe também um agradecimento especial a meu orientador de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado, Fransciso Foot Hardman, uma grande inspiração do ecletismo, do não-especialismo e da liberdade para pesquisar e pensar. A ele, devo muito do que fiz e faço.
Comentários
Ninguém comentou ainda. O primeiro comentário pode ser o seu.










