Artigo - Planeta água: da abundância à escassez
Por Antonio Luiz Zucolo
Do acervo · publicada originalmente em 8 de abril de 2021
Fonte: Antonio Luiz Zucolo
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2021Tratar de temas relacionados ao meio ambiente sempre gera espaço para a defesa de posições ideológicas, subjetivismo, protecionismo e a defesa do poder político ou econômico, quando a eles incomoda ou não é conveniente. Satisfazendo a todos ou não, é impossível virar as costas para as evidências e achar que essa conta nunca será paga. Um engano, pois a natureza não se defende – ela reage.
A crise hídrica já está batendo em nossa porta, e era claramente esperada face ao consumismo, desperdício e descaso com que lidamos com esse recurso de vital importância para a vida no planeta. Nesse cenário de consumo é que a gestão pública precisa ser mais efetiva. Garantir o acesso à água de qualidade a todos os brasileiros é um dos principais desafios para os próximos gestores do país. Culturalmente tratado como um bem infinito, a água é um dos recursos naturais que mais tem dado sinais de que não subsistirá por muito tempo às intervenções humanas no meio ambiente e às mudanças do clima.
Não bastasse isso, a água doce a que temos acesso – além da pequena porcentagem em relação total no planeta – tem uma distribuição muito irregular. Os números mostram que 97% da nossa água é salgada e apenas 3% da água é doce, distribuídas em 69% nas geleiras, 30% em água subterrânea e apenas 1% em água de superfície (rios e lagos), e vapor d’agua na atmosfera. O Brasil é muito privilegiado, pois cerca de 12% a 13% de toda água doce do planeta estão em território nacional. Porém, 70% estão na região Norte (onde vivem apenas 5% da população) e outros 30% servem a mais de 200 milhões de brasileiros que vivem em outras regiões.
Somos proprietários das duas maiores reserva de água subterrânea do planeta, nos aquíferos Guarany na região central e Álter do Chão no norte do Brasil. Mas com toda essa riqueza hídrica, estamos a cada dia mais pobres com relação a esse recurso. Já sofremos apagões, por baixos níveis d’agua nos principais reservatórios de hidroelétricas, torneiras secas em milhares de lares de praticamente todos os estados e em 2014 tivemos problema de abastecimento nos grandes centros – como Rio Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo –, sem citar centenas de outras cidades. O Brasil tem hoje 917 municípios em crise hídrica, ou seja, que estão em situação de emergência por estiagem ou seca. A maioria está no Nordeste do país, porém, o problema não acontece somente nessa região.
O consumo e as causas da falta d’agua
A quantidade de água no planeta não se altera – obedece sempre às etapas do ciclo da água. Com certeza, a água que já bebemos, ou vamos beber, algum dinossauro já tenha bebido. O setor do agronegócio é o que mais consome água na produção de hortifrutigranjeiros, grãos, fibras, proteína animal, entre outras. Isso corresponde a cerca de 70% do volume total de nossos gastos. A indústria fica em média com 20% e o nosso consumo doméstico com os 10% restantes.
Claro que são números médios, podendo haver diferenças em alguns locais ou estados. Gasta-se diferentes volumes de água para se produzir bens e alimentos – a chamada ‘pegada hídrica’ (waterfootprint). Uma camiseta consome cerca de 3 mil litros de água para ser produzida; um par de sapatos, cerca de 17 mil litros; um quilo de carne bovina, 15 mil litros; um quilo de carne frango 3.700 litros; um quilo de arroz, 2.500 litros; um litro de leite, 1.000 litros, etc.
As causas da escassez de água são inúmeras, mas há unanimidade em citar algumas delas.
1 – Desperdício
O agronegócio consome 70% da nossa água e tem perdas de 50%. Para cada 100 litros de água tratada para o uso doméstico, cerca de 40% são perdidos, por vazamentos e mau uso. O brasileiro tem consumo diário 45% maior do que o recomendado pela ONU (110 litros/pessoa/dia).
2 – Aumento do consumo
Com o crescimento da população, da agricultura e da indústria, o consumo de água tem crescido em proporções muito maiores – no século XX, aumentou em seis vezes.
3 – Diminuição das chuvas
Por diversas ações danosas do homem, está havendo diminuição comprovada das chuvas – que são o repositor das águas de superfície e subterrânea.
4 – Desmatamento
O mau uso do solo e a retirada da vegetação dos biomas Cerrado e da Amazônia têm contribuído muito para a falta de chuvas.
5 – Emissões de gases
São o maior responsável pelas mudanças climáticas que alteram o regime de chuvas e a reposição das águas.
Antonio Luiz Zucolo é engenheiro agrônomo
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