Pular para o conteúdo
Matão-SP · quarta-feira, 7 de outubro de 202623°Sol19° / 29°Tempo agora em Matão: 23 graus, Sol. Ver a previsão da semana.Ano 102Fundado em 1925Edição 5.361
A Comarca
Edição 5.3612 de outubroLer
Últimas
Uniara tem inscrições abertas para processo seletivo
Publicidade
Publicidade
Cultura e Variedades

"Cristo é a nossa paz": Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021

O tempo da Quaresma, neste ano, nos convida ao exercício do diálogo e do amor

Do acervo · publicada originalmente em 19 de fevereiro de 2021

Fonte: Paulo Cedran

· Leitura de 4 min

Foto: Acervo A Comarca

"Cristo é a nossa paz": Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021Acervo · 2021
"Cristo é a nossa paz": Campanha da Fraternidade Ecumênica 2021

A 5ª Campanha da Fraternidade Ecumênica, cujo tema é ‘Fraternidade e Diálogo: compromisso de amor’, tem como lema ‘Cristo é a nossa paz: do que era dividido fez uma unidade’ (Ef. 2,14ª) e propõe, nestes tempos difíceis que estamos vivendo, a retomada da característica central que fez do cristianismo a ética fundante da civilização ocidental, ou seja, a presença da unidade em Cristo, na diversidade dos povos. Esta marca indelével do cristianismo implodiu a decadente estrutura do Império Romano e de sua pax romana, ao mesmo tempo que provocou uma revolução na leitura que o judeu Jesus fez do próprio judaísmo e de todo o sectarismo que permeia o espaço religioso sob a ótica dos eleitos, apartados do mundo ou dos escolhidos por um Deus.

Num momento em que a pandemia da covid-19 vem interrompendo centenas de milhares de vidas de mulheres, homens, crianças, jovens, idosos e idosas, essa estrutura decadente do Império Romano, que hoje pode ser lida pela estrutura decadente do próprio sistema capitalista, escancarou no Brasil a estratificação social, econômica e social e nos lançou num novo desafio: como resignificar o diálogo, a união e a paz num mundo e num país tão cheio de radicalismos e polarizações. Diante deste cenário de incerteza, muitos fizeram da religião um espaço para intensificar o assombro e o medo diante de um Deus que castiga e pune num severo alerta de que “Jesus está voltando para julgar a humanidade”, nesse que seria o fim dos tempos.

Este discurso fundamentalista religioso ecoou em coro aos discursos negacionistas sobre a realidade e a fatalidade a que o mundo foi exposto diante dessa pandemia. Mas se cremos em Cristo e professamos Sua fé, devemos escancarar as portas dessa condição de desigualdade e lutar para transformar essa realidade. As tensões surgidas na sociedade e presentes em nossa comunidade e em nossa própria família impactam as relações e as respostas a elas, as quais irão contribuir para derrubarmos os muros do racismo, das desigualdades econômicas, da dificuldade de convivência com opiniões diferentes e mesmo ao ataque às instituições que garantem a ordem democrática. A busca por respostas pode nos levar ao refúgio no sagrado, tornando a vivência da fé uma possibilidade de segurança e proteção para enfrentarmos de maneira consciente estes momentos.

Nestas duas primeiras décadas do século XXI, mesmo diante de toda a luta pela garantia dos direitos humanos, a crise econômica mostrou que milhões de pessoas foram levadas à pobreza, enquanto bancos foram socorridos, num contexto sombrio de predominância do capital financeiro. A covid-19 mostrou ainda como o capital se apropria dos bens comuns e os explora para os seus próprios interesses, vide nossos rios poluídos e nossas florestas derrubadas. Apresentando as novas cruzes, o texto básico da Campanha da Fraternidade cita, de forma contundente, os efeitos da necro política e seus reflexos sobre a violência em jovens e mulheres, as reformas trabalhistas e da previdência social e a violência imposta à população LGBTQIA+, apresentando uma triste estatística: “o Brasil está entre os quatro países que, juntos, somam 80% dos assassinatos de ativistas por direitos humanos no mundo. Em 2017 foram registradas 312 mortes no mundo, das quais 212 nas Américas. Em nosso país foram 156 casos (Manual da Campanha da Fraternidade – Texto Base 2021, P.37).

Se estamos lutando para destruir muros e construir pontes, a intolerância religiosa, também tratada na campanha, deve ser nossa prioridade quando refletirmos a prática de Jesus em nossos dias, pois sempre que alguém em nome da fé cristã incentiva a intolerância religiosa, os muros que nos separam tornam-se mais fortes perante a mensagem de amor do Mestre Jesus.

Assim, o apóstolo Paulo, na carta aos Gálatas, e hoje para nós orienta: “não há judeu, nem grego, não há escravo, nem livre, não há homem e nem mulher, mas sois um em Cristo Jesus” (3,28).

Na carta aos Efésios, cujo lema a campanha se assenta, encontramos Jesus Cristo como o vínculo que une a comunidade e garante a experiência dos sinais do reino no meio de nós: amor, benevolência, perdão, liberdade e graça. Se Cristo é a nossa paz, não deve haver em nós lugar para o racismo, ódio, discriminação e violência, pois não é possível estar com Deus e ao mesmo tempo discriminar e desrespeitar outras pessoas por causa de suas diferenças étnicas, religiosas e ou de gênero.

O tempo da Quaresma neste ano nos convida a que não permaneçamos como eternas crianças na fé, mas que amadureçamos na fé em Cristo e em sua capacidade de amar cada pessoa incondicionalmente. Que possamos julgar nossas ações, à luz da palavra de Deus, para que, como o Cristo, consigamos derrotar os poderes que nos destroem e nos separam e que assim consigamos ser livres para praticar a equidade, a inclusão e a unidade na diversidade. O diálogo é o primeiro gesto para que, passando pelas cruzes da divisão, intolerância e ódio, possamos alcançar a ressurreição em Cristo, pela união, tolerância e amor, sinais de verdadeira fé.
 

  • Paulo Cesar Cedran,
    mestre em Sociologia e doutor em Educação Escolar.
Publicidade
Publicidade

Comentários

Ninguém comentou ainda. O primeiro comentário pode ser o seu.

Leia também

Publicidade