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Cidade

Matão perdeu Leyle Gorgatti Zarbin

Educadora faleceu no domingo (10), aos 83 anos

Do acervo · publicada originalmente em 15 de janeiro de 2021

Fonte: Rogério Bordignon

· Leitura de 8 min

Foto: Acervo A Comarca

Matão perdeu Leyle Gorgatti ZarbinAcervo · 2021
Matão perdeu Leyle Gorgatti Zarbin

Leyle Gorgatti Zarbin faleceu no domingo (10), aos 83 anos, após permanecer internada no Hospital ‘Carlos Fernando Malzoni’ por 26 dias devido a uma pneumonia. O corpo foi sepultado no mesmo dia, no Cemitério Municipal de Matão. Ela nasceu em Bálsamo (SP), no dia 5 de maio de 1937, e se mudou para Matão aos sete anos de idade.

Exatamente 29 anos depois (7 de maio de 1966), casou-se com Arlindo Zarbin e o casal gerou os filhos Aldo José Gorgatti Zarbin (Zezé, casado com Elisa Souza Orth) e Paulo Henrique Gorgatti Zarbin (Bozó, casado com Claudia Marino Zarbin). Os netos são Sofia Mohallem Zarbin e Vinicius Orth Zarbin (filhos de Zezé) e Juliano Marino Zarbin (filho de Paulo).

Os pais de Leyle, Aldo Gorgatti e Julia Botezzini, tiveram cinco filhos – além de Leyle, Leda, Luiz, Lauro e Laerte, dos quais estão vivos Leda e Lauro. Professora, dedicou a vida à educação, trabalhando por 29 anos como concursada no Estado de São Paulo, por 18 anos no Colégio Comercial ‘Professor Afonso Lemos’ (a Escola do Comércio) e por dez anos vinculada à Prefeitura de Matão.

Atuou como professora primária no bairro de Silvânia e em escolas rurais no Quadro (distrito de Itápolis) e no Córrego Fundo, de 1957 a 1960. Foi professora de Literatura, Língua Portuguesa, História e Educação Moral e Cívica na EE ‘Professor Henrique Morato’ (1957 a 1987), Etec ‘Sylvio de Matos Carvalho’ (1985) e na Escola do Comércio (1958 a 1976).

Foi coordenadora e professora de Língua Portuguesa e Matemática dos cursos de treinamento das seis primeiras turmas da Guarda Municipal de Matão, entre 1987 e 1989. Supervisora e assistente dos projetos especiais de educação da Prefeitura, do extinto ‘Clube do Leitinho’ e ‘Peme’, entre 1989 e 1992. Coordenou concursos públicos da Prefeitura de 1988 a 1996, sendo a responsável pela organização, elaboração, duplicação, aplicação, correção das provas e divulgação do resultado final.

Também foi coordenadora, orientadora e responsável pela implementação do Centro Municipal de Ensino Especial para Deficientes Auditivos (Cmees) ‘Edra Cristiane Chiozzini’ (1993 a 1997). Em 1990, foi responsável pela implementação do Curso e Colégio Boa Vista (Anglo), onde atuou como diretora no período de 1990 a 1995.

Além disso, exerceu um grande trabalho de voluntariado a partir dos anos 2000, em cursos de alfabetização de adultos, de formação de bombeiros, de formação e orientação a enfermeiras no Cefor/Araraquara, em oficinas pedagógicas em Matão, Araraquara, São Carlos e São Paulo.

Destaca-se ainda uma forte atividade filantrópica, em atividades individuais ou ligadas à Igreja Católica, organizando cursos e/ou ministrando aulas em cursos de batismo e de casamento, PLCs, cursos para pais, cursos de eucaristia, como ‘Filha de Maria’, ‘Dama de Caridade’, na Associação Paulista Feminina de Combate ao Câncer de Matão (APFCCM).

Foi colaboradora esporádica em diversos veículos de imprensa em Matão e Araraquara, incluindo A Comarca. Recebeu vários prêmios, honrarias e reconhecimentos por sua atuação profissional. Cantava no Coral Santa Cecília e no Coral São José e tinha orgulho em dizer que fez parte da equipe que organizava o ‘Presépio Vivo’ na Chácara Primavera, na década de 1960.

A Missa de Sétimo Dia será realizada no sábado (16), às 19 horas, na Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus de Matão.

Professora Leyle Gorgatti Zarbin

Às 07h40 do dia 10/01/2021, a cidade de Matão ficou subitamente triste, com a partida de uma de suas filhas mais dedicadas e fiéis. A Professora Leyle Gorgatti Zarbin, que nos deixou aos 83 anos nessa angustiante manhã de domingo, teve sua vida entremeada com a história dessa cidade, não só pelo que viveu – e não foi pouca coisa –, mas principalmente pelo que ouviu contar, dos antepassados das famílias de seu pai e sua mãe, pioneiros na fundação dessa Terra da Saudade. Um arquivo vivo incrível, alicerçado numa memória impressionante que lhe permitia dizer datas, fatos, acontecimentos, nomes, casos, ‘causos’, contos, cantos, cores e um não-sei-quantos-mais adjetivos sobre Matão, sempre conectados com o momento histórico do país e do planeta. Remoer suas histórias, muitas registradas em textos e notas dispersos em vários cadernos e blocos arquivados de forma totalmente aleatória em sua casa, algumas captadas em entrevistas, várias publicadas em veículos da imprensa local como nessa A Comarca, e a maioria passadas adiante de forma oral, da mesma forma com que ela as aprendeu, era um dos seus muitos prazeres.

Tenho a honra e o privilégio de ser seu filho, e a enorme responsabilidade, junto com meu irmão, minha esposa, minha cunhada, meus filhos e meu sobrinho, de levar adiante seu legado. Professora com um ‘P’ assim, maiúsculo, sua trajetória profissional, sempre ligada à educação, impressiona. Comandou salas de aula em todos os níveis, do ensino primário e fundamental ao adulto/profissional, em escolas de fazendas, da periferia ou do centro, encarando estradas de terra e carros de boi para chegar até seus alunos. Idealizou e conduziu os cursos de formação das primeiras turmas da Guarda Municipal de Matão, e tinha um orgulho imenso de ter sido a responsável pela concepção e implementação do Centro Municipal de Ensino Especial para Deficientes Auditivos em Matão. Recebeu inúmeros prêmios, honrarias, condecorações e reconhecimento pelo seu trabalho. Acostumei-me, desde criança, aos encontros aleatórios constantes, em todos os lugares dessa cidade, da minha mãe com seus inúmeros ex-alunos, que sempre tinham, orgulhosos, alguma história para contar sobre como ela os influenciou. E que recebiam de volta, entre risos e abraços, alguma boa lembrança “daqueles tempos”, que ela deliciosamente relatava.

Aqueles tempos, que teimosamente insistiam em não mais voltar, estavam enchendo minha mãe de nostalgia nos seus últimos anos de vida. Sua linda Matão fisicamente se transformara em algo que ela não mais reconhecia. As casas e os edifícios que fizeram sua história foram substituídos por prédios comerciais sem graça e sem nenhuma identidade, causando tristeza e indignação em alguém que não conseguia enxergar beleza nesse tão proclamado progresso. E embora surpreendentemente moderna nas ideias e atitudes, minha mãe era paradoxalmente de outro tempo, insistindo em quixotescamente manter características de outrora, tão incompatíveis com os dias atuais: comprometimento, retidão, palavra, ética, compaixão, empatia, simplicidade, acolhimento.

Seus olhos escandalosamente verdes (que segundo consta arrasaram muitos corações durante sua juventude), elevados sobre aquele sorriso doce e encantador, me eram a imagem terrestre da paz e do amor, e refletiam o que se passava em seu coração e em sua alma. Impossível não se deixar contagiar com sua alegria. Nunca conheci alguém que dizia “eu te amo” com tanta facilidade. Simplesmente porque era sincera. Amava, ardorosamente. Distribuía amor, sem esperar nada que não fosse também amor como contrapartida. Amava seus pais, cuja perda ela jamais superou, seus irmãos, e seus sobrinhos. Dos 54 anos de um casamento exemplar com Arlindo Zarbin, meu pai e o grande amor de sua vida, gerou uma família feliz que era seu maior tesouro, e a quem dedicou incondicionalmente sua existência. Nenhum de nós está ou jamais estará à altura de poder retribuir tamanha entrega e dedicação. O orgulho com que se referia ao marido, aos filhos, às noras e aos netos e com que descrevia cada pequena conquista de cada um de nós, tornava-a ainda mais gigante, dentro de sua humildade e simplicidade.

Católica atuante e detentora de uma fé inabalável, agia de fato e de ato como verdadeira cristã. Não havia barreira que a impedisse de fazer o bem, e de ajudar a quem quer que estivesse necessitando. De tal forma que felizmente cresci achando que esse era o normal, como de fato deveria. Esse espaço seria curto demais para descrever o número de ações concretas que vi minha mãe realizar (algumas delas tive a honra de poder ajudar) em prol de pessoas carecendo de alimento, de saúde, de educação, de pernoite, ou simplesmente de uma palavra ou um abraço de conforto.

Posso afirmar sem nenhuma hesitação que a Professora Leyle Gorgatti Zarbin, nossa querida Leyle, minha amada mãezinha, atingiu a vida eterna, pois continuará viva através das inúmeras sementes que foram plantadas nos seus ex-alunos, seus filhos e netos, seus familiares, seus amigos mais próximos, e em todas as pessoas que ela tanto ajudou. Sementes que já nasceram, cresceram, e cujos frutos contêm seu exemplo e suas lições. E se aquilo pela qual ela tanto acreditou em vida for verdade, ela já está na vida eterna celeste. Foi recebida com uma grande festa, abraçada por Jesus, que lhe deu um beijo caloroso na testa, em reconhecimento àqueles que de fato viveram à sua imagem e semelhança; já trocou um olhar cúmplice com Nossa Senhora, daqueles olhares que só as mães possuem e que são suficientes para dizer, sem palavras, tudo o que de fato precisa ser dito; já está colocando a prosa em dia e se esbaldando de felicidade nos braços dos seus pais Aldo e Julia, dos seus irmãos Luiz e Laerte, e dos tios, primos, cunhados e sobrinhos que chegaram antes dela; e já está, desde a fração de segundos pela qual fechou definitivamente os olhos, fazendo o que de melhor fez em vida: cuidando da gente. E tentando encontrar uma forma de nos fazer entender, lá de cima, que conseguiremos sobreviver ao enorme, ao imenso e tão doloroso vazio que sua ausência nos causou.

Aldo José Gorgatti Zarbin (Zezé)

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