Matão completa seis meses com apenas 72 milímetros de chuva
Quantidade ínfima foi constatada por dois pluviômetros no perímetro urbano desde abril
Do acervo · publicada originalmente em 8 de outubro de 2020
Fonte: Rogério Bordignon
· Leitura de 6 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Em plena primavera, altas temperaturas têm ocasionado transtornos em todo o Brasil. Há meses, o país vive com vários problemas como, por exemplo, os decorrentes de incêndios, sobretudo no Pantanal e na Amazônia, que causam mortes e danos a espécies da fauna e da flora. Todo ano, a seca faz estragos pelo Brasil; contudo, a percepção nos faz acreditar que ‘a coisa ficou muito mais feia’ nesse 2020.
Desde o começo deste mês, em Matão, temperaturas de 38º a 41º – mais ainda debaixo do Sol ‘estalado’ – são observadas, fato incomum a um início de outubro. Certamente, este é um dos piores períodos de seca que o município já enfrentou. Isso pode ser constatado pelos registros pluviométricos da Fazenda Citrícola (propriedade da Terral Agricultura e Pecuária) anotados desde 1914.
A falta de chuva preocupa por falta do abastecimento de água, maltrata e sucumbe o meio ambiente e causa outros problemas. Associam-se a isso os efeitos causados pelas altas temperaturas, como mal estar, inquietações, fadiga, má qualidade do ar, problemas decorrentes com a poeira e outros, tudo isso durante uma pandemia de covid-19. Sem dúvida, 2020 não deixará boas recordações...
SEM CHUVA
Pouca chuva caiu em Matão nos últimos dias 21 e 22 de setembro. No dia 21, o pluviômetro da Casa da Agricultura ‘Paulino Rossi’ mediu 1,1 milímetro e o aparelho do Sindicato Rural Patronal nada registrou. No dia 22 foram, respectivamente, conferidos 3 e 0,5 milímetros. No dia 21 de agosto, estes dois captadores de chuva marcaram quase imperceptível 0,4 milímetro e míseros 4 milímetros.
Em abril, a Casa da Agricultura anotou 14 milímetros, sendo 10 no dia 8 e 4 no dia 15. Nas mesmas datas, o Sindicato Rural conferiu, totalizando 19 milímetros em abril. No mês de maio, cada um dos pluviômetros coletou 20 milímetros de chuva no dia 26. E em junho, 25 milímetros cada um, sendo que o da Casa da Agricultura recebeu 10 no dia 8 e 15 no dia 29; e o da entidade, as mesmas quantidades nos mesmos dias.
Ressalva-se que os registros são feitos nos primeiros momentos do dia após a chuva. Assim, os 15 milímetros de chuva registrados no dia 29 de maio podem ter caído após o encerramento do expediente da Casa da Agricultura e do Sindicato Rural Patronal no dia 28 de maio e o começo do expediente do dia 29 de maio.
Como em todo o mês de agosto choveu 4,1 milímetros no Centro de Matão (onde está a Casa da Agricultura) e 0,5 milímetro na Nova Matão (sede do Sindicato Rural) e em setembro choveu 0,4 milímetro no Centro e 4 milímetros na Nova Matão, podemos constatar que a última chuva ‘considerável’ (15 milímetros) nestes locais foi anotada no dia 29 de junho, ou seja, há 103 dias. Ressalta-se também que em abril caíram 19 milímetros; em maio, 20; e em junho, 25.
São mais de seis meses (desde abril) com apenas 72,1 milímetros de chuva no perímetro urbano de Matão, quantidade próxima a da que caiu na Fazenda Citrícola, onde foram confirmados 99 milímetros de chuva entre abril e setembro. Desde 1914, somente cinco anos tiveram seus períodos mais secos com menos chuva do que esse 2020: 1921 (70 milímetros), 1940 (72), 1952 (89), 1963 (64) e 2006 (69). As altas temperaturas potencializam os transtornos provocados pela escassez de chuva.
DESDE 1914
Desde 1914, segundo dados do pluviômetro da Fazenda Citrícola, o período mais seco se deu em 1944, quando os meses de maio, junho, julho e agosto ficaram sem chuva. Portanto, foram – pelo menos – 120 dias sem água pluvial. Houve secas de no mínimo 90 dias em 1949 (julho, agosto e setembro), 1952 (maio, julho e agosto), 1963 (maio, junho e julho), 1980 (abril, maio e julho) e 2007 (junho, agosto e setembro). Secas de pelo menos 60 dias aconteceram em 1934, 1938, 1940, 1943, 1945, 1951, 1955, 1961, 1967, 1975, 1978, 1981, 1984, 1988, 1994 e 2007.
Em 2020, de 1º de janeiro até o último dia 7 de outubro (quarta-feira), choveu 792 milímetros. Provavelmente, 2020 entrará na relação dos anos com os menores registros pluviométricos desde 1914, com menos de 1.000 milímetros. O menos chuvoso foi 1963, com 871 milímetros, seguido de 1921 (873), 1941 (901), 1968 (904) e 1944 (918). Para se comparar, em 1983 choveu 2.123 milímetros e em 2009, 2.153 – este o ano mais chuvoso em Matão desde 1914, de acordo com os registros da Citrícola.
JULHO E AGOSTO
Pode-se considerar comum chover pouco ou não chover em julho e agosto. De acordo com índices coletados pela Citrícola, naquelas terras não choveu em 31 meses de julho dos anos de 1919, 1921, 1924, 1929, 1931, 1934, 1937, 1938, 1940, 1943, 1944, 1949, 1951, 1952, 1955, 1960, 1961, 1963, 1967, 1974, 1980, 1981, 1984, 1988, 1996, 1998, 2008, 2011, 2016 e 2017. Foram 27 meses de agosto sem chuva (em 1925, 1939, 1942, 1944, 1945, 1946, 1949, 1950, 1952, 1954, 1965, 1967, 1971, 1975, 1978, 1981, 1983, 1988, 1991, 1994, 1995, 1999, 2004, 2005, 2007, 2010 e 2012).
Historicamente, a média pluviométrica de agosto perde em somente um milímetro para a de julho desde 1914 (25 milímetros diante de 26). Raridade é chover mais de 100 milímetros nos dois meses mais secos do inverno. O pluviômetro da Citrícola só registrou mais de 100 milímetros nos meses de julho de 1926 (123), 1956 (114), 1957 (163), 1972 (263), 1978 (114) e 2007 (126) e mais de 100 milímetros nos meses de agosto de 1976 (115), 1986 (115), 2002 (100) e 2009 (185).
SECA E ESTIAGEM
“A seca é a ausência prolongada de chuvas, sua escassez acentuada ou sua fraca distribuição. É correspondente a um período de tempo seco, suficientemente extenso, que provoque desequilibro hidrológico (rios, lagos e reservatórios). Na nossa região, a seca ocorre de forma mais cíclica. É recorrente no outono/inverno nos meses de abril a setembro, mais acentuada nos meses de junho, julho e agosto. Provoca impactos danosos ao agronegócio”, cita o engenheiro agrônomo Luiz Manhani.
Segundo Luiz, as estiagens resultam da ausência de chuva, prevista para uma determinada temporada, ou da redução na sua quantidade. “Em geral, ao abordarmos sobre estiagem, afirmamos que houve uma queda no volume de chuvas para o período, ou seja, uma versão moderada da seca. Quando ocorre nas áreas agrícolas, a estiagem também provoca impactos que prejudicam o agronegócio”, comenta.
DANOS
Desta vez, em Matão e região também foram registrados danos para a agropecuária, frutas e hortaliças. “O principal impacto da seca é a redução da produtividade. A indisponibilidade de água no solo causa problemas de redução do desenvolvimento das plantas e de crescimento dos frutos, acarretando perdas na qualidade e no valor econômico do produto. Para a pecuária, o pasto não se desenvolve, pois com a seca prolongada o capim não vegeta. Assim, um alimento menos nutritivo é oferecido aos animais, ocasionando perda da produtividade”, resume Luiz.
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