Coro e Osso - O tempo contado com arte
Cantando me desfaço e não me canso de viver, nem de cantar
Do acervo · publicada originalmente em 13 de outubro de 2020
Fonte: Célio Gardini ? integrante do Grupo Vocal Coro e Osso
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Como contar o tempo em 30 anos? Em dias? Horas? Minutos? E se, em 30 anos, o tempo fosse contado em notas musicais, melodias, compassos, ensaios, experimentações, vivências, produções artísticas?
É deste segundo jeito que o Grupo Coro e Osso prefere contar o seu tempo, de forma que essa história de 30 anos transforme-se, inteira, em um único espetáculo: um espetáculo de bastidores, visto e vivido por seus integrantes, onde cada nota cantada, cada ensaio, cada produção faz, da arte de cantar, uma forma estimulante de “estar” no mundo.
Originado no dia 12 de outubro de 1990, à sombra de um limoeiro no quintal da Dona Lazinha e do seu José, pais do maestro Luiz Piquera, aquele pequeno grupo de amigos não teve a pretensão de cantar para tanta gente e nem tão longe dali. Mas cantou! Com dois trabalhos registrados em CD e mais uma miríade de ações como espetáculos, recitais, concertos didáticos, oficinas e vivências, o grupo já circulou por muitos lugares dentro e fora do Brasil, alastrando a voz de seus sujeitos cantantes neste jeito coletivo de cantar que, mais do que disciplina e técnica, demanda desejo e paixão.
Luiz Piquera, compositor e arranjador, regente e diretor artístico do Coro e Osso desde sua fundação, diz que “a experiência Coro e Osso nos leva à percepção de organizações sociais possíveis, horizontais, em que o viver junto é a primeira grande arte, anterior ao canto, anterior à cena, mas que, quando exercitado conscientemente na dureza do dia a dia, acaba por transbordar e invadir o palco, o ato e a música de forma que cada gesto e cada som tragam a potência do coletivo em si”. Para ele, “a gênese do Coro e Osso é a liberdade que garante sua autonomia, mas, ao mesmo tempo, exige muitos cuidados e responsabilidades para assegurar a manutenção do grupo, seus princípios e suas expressões estéticas”.
Tais cuidados, destacados pelo maestro, podem também ser percebidos na estrutura organizacional do Grupo, mantido por uma Associação Cultural sem fins lucrativos instituída por seus próprios cantores e atualmente conduzida por Carolina Rossi Palma, a quinta pessoa na sucessão de presidentes, que evidencia o aprendizado para além dos horizontes musicais em sua participação no Grupo: “Desde 1996, quando tive o primeiro contato com o Coro e Osso, foi amor à primeira vista; tinha apenas 14 anos e posso afirmar, sem qualquer dúvida, que os ensinamentos e experiências vividas contribuíram para minha formação pessoal. Chegamos aos 30 anos e tal privilégio só se deu devido à autonomia que o grupo possui, sem qualquer vinculação a outras entidades, com recursos próprios e muita batalha; temos uma organização democrática e muito rica no compartilhamento de ideias e experiências pessoais que nos fazem crescer a todo momento”.
Assim como aconteceu neste ano com tantos grupos artísticos, a urgente necessidade do isolamento social como forma de combate à covid-19 interrompeu temporariamente as atividades do Coro e Osso, que já se preparava para comemorar seu aniversário cantando em escolas, lançando espetáculo, partilhando com o público sua arte e sua alegria.
O compasso, agora, é de espera, de torcida pela ciência, de fé, de paciência, de atitudes proativas que minimizem o contágio. O Coro e Osso inclui este momento de silêncio em sua história de tanta cantoria e segue, alinhado com seu tempo de viver, relembrando e partilhando tanta coisa que viveu e conheceu ao longo do caminho e com o seu mestre, Luiz Piquera: “Aprendi que a afinação que me interessa não é exatamente a acústica, mas antes é a afinação afetiva do coletivo a que pertenço. Pra mim, esta é a mais importante. A outra é consequência”.
* (Milton Nascimento e Fernando Brant – 1981)
Célio Gardini – integrante do Grupo Vocal Coro e Osso
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