Uma cidade sem palco
Matão sente a carência de um espaço público apropriado para apresentações artísticas
Do acervo · publicada originalmente em 14 de setembro de 2020
Fonte: Ana Luiza Otrente Batista
· Leitura de 8 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Cultura possui um significado muito amplo e difuso. É o conjunto de práticas cotidianas, a organização política, social e econômica de uma sociedade, a expressão artística de um povo, é a fala, a escrita, o pensamento. Está presente nas religiões, na alimentação, na forma de se vestir, de educar os filhos, de enterrar os mortos. Ela não se restringe a determinada classe social, mas ocupa espaço em cada um coletivamente, até nos pontos mais extremos de cada sociedade; como linhas fronteiriças que se cruzam e se unem em comunhão de povos. Nas artes plásticas, na literatura, na dança, na pintura, na música, no teatro ou no cinema. Assim, os espaços culturais públicos são exemplos de locais dispostos a abraçar essas expressões e democratizá-las a todos os cidadãos.
Estes espaços também são importantes para preservar a história e honrar o presente. Em Matão, a Casa da Cultura ‘Prefeito Armando Bambozzi’, o Anfiteatro ‘Adriana Manzi’, a Casa Pipa e o planejado futuro Museu da Indústria poderiam ter esse relevante papel. Quando se adentra em um centro cultural, seja para assistir ou participar de uma apresentação, as pessoas encontram-se imersas numa troca mútua entre palco e plateia – os olhos, as mãos, os ouvidos e a alma encantados com o que assistem, ouvem ou sentem. As reflexões que nascem naturalmente nesses espaços podem transformar as pessoas. Da mesma forma que a falta de apoio e investimento à Cultura pode privar uma sociedade de conhecer a si mesma e ao mundo.
ANFITEATRO
Em 21 de julho de 1997, através da Lei nº 2.606, o espaço do Anfiteatro ‘Adriana Manzi’, em anexo à Escola Estadual ‘Professor Henrique Morato’, foi concedido para o uso e realização de eventos culturais de interesse do município – um fato importante para a cidade, pois possibilitou a integração entre os cidadãos por meio de espetáculos culturais e de eventos educacionais. Porém, o espaço precisou fechar as portas devido a inadequações quanto às normas de segurança previstas em lei. Em fevereiro de 2019, o vereador Valter Luiz Trevizaneli protocolou o Requerimento nº 71/2019 dirigido ao ex-secretário estadual de Educação, Rossieli Soares da Silva, pedindo informações sobre as providências necessárias para a reabertura do anfiteatro, pois as obras – que deveriam ter se iniciado no segundo semestre de 2017 – ainda não começaram.
O Anfiteatro ‘Adriana Manzi’ está fechado desde 2013, quando o Corpo de Bombeiros constatou que havia irregularidades em sua estrutura que impediam o funcionamento. A falta de verbas suficientes para a reforma e adequação do espaço ainda é um problema não solucionado que impede a implementação de todas as medidas de segurança, a fim de se obter o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB). As providências necessárias, assim como o requerimento para a obtenção de recursos financeiros, têm sido solicitadas desde a interdição do espaço cultural, tanto pela Prefeitura de Matão quanto pelo vereador Valter Luiz Trevizaneli, ex-presidente da Câmara Municipal. Entretanto, o processo segue há sete anos sem respostas.
A degradação desses espaços culturais pelo efeito do tempo e pela falta de manutenção por parte do poder público acarreta prejuízos à própria população. De acordo com o maestro Luiz Piquera, regente do Grupo Vocal Coro e Osso, “uma cidade que não preza pelo olhar para essas questões culturais é uma cidade que não se reconhece em si. E, para além disso, é um município que desperdiça toda a potencialidade criativa de seu povo, que poderia traduzir-se em bem-estar, harmonia e progresso social”. Investir num espaço público onde todos podem adquirir conhecimento é, além de acreditar na arte e na cultura, investir na educação e não delimitar fronteiras que fragmentam culturalmente toda uma sociedade. “Quando debatemos sobre investir em cultura, estamos falando sobre o aprimoramento da nossa capacidade de existir enquanto comunidade integrada em seu próprio convívio”, complementa Piquera.
CASA PIPA
Neste cenário surge a Casa Pipa (Plataforma Internacional de Produção Artística), um ponto de cultura providenciado com o intuito de promover o intercâmbio de vivências culturais a artistas e cidadãos. O casarão onde ela está instalada foi construído em 1925, foi sede da Escola da Boa Vista e, desde 2011, tem sido palco para muitas trocas de vivências artísticas e culturais principalmente por parte da Cia. Labirinto de Teatro, da Associação Cultural Coro e Osso (ACCO) e da Associação Cultural e Ambiental para Cidadania (ONG Ocara). Essa proposta de intercâmbio por meio da arte-educação foi idealizada por Khosro Adibi (artista iraniano que emigrou para a Holanda após exílio) e implantada na cidade por intermédio da professora Lygia Simão Nicolucci, ex-diretora do Departamento Municipal de Cultura.
Da inspiração desse encontro, foi possível implantar na cidade o Festival de Arte-Educação ‘Fronteiras Brasil’, idealizado por Khosro Adibi, que visa reforçar o intercâmbio da cultura latino-americana por meio da troca de conhecimentos e da aprendizagem horizontal. Segundo o arte-educador Juliano Jacopini, diretor da Cia Labirinto de Teatro, “a ideia do surgimento da Casa Pipa brotou da necessidade de um lugar que oferecesse abrigo às linguagens, práticas artísticas e culturais e a prevalência da diversidade. O encontro da arte com a cultura permite, além de tudo, que as pessoas se enxerguem como cidadãos políticos e participativos de uma sociedade civil efetiva, por ter um caráter emancipatório e reflexivo, e a Casa Pipa caminha no mesmo sentido”.
No entanto, em 2015, a ponte que ligava a Via Orlando José Scutti à Casa Pipa desmoronou, privando não só o acesso físico ao espaço cultural, mas também o ir e vir de famílias que moram nos arredores do bairro Boa Vista. A alternativa para se dirigir à Casa Pipa foi viabilizada por meio da Rua Vicente Russo (Azul Ville), de onde nota-se uma estada de terra improvisada em meio a uma mata que permite o acesso ao espaço cultural, visto que, até hoje, não há previsão para o conserto da ponte. De acordo com Juliano Jacopini, a falta de incentivo às necessidades básicas para as práticas culturais acarreta a desvalorização da própria cultura do município. Contudo, a Casa Pipa tende a resistir com a realização de encontros e projetos online, que se tornaram ainda mais necessários para cumprir as determinações sanitárias de isolamento social decretadas para evitar a propagação do coronavírus.
CASA DA CULTURA
A Casa da Cultura ‘Prefeito Armando Bambozzi’ também é um espaço público que se destina ao fomento das manifestações artísticas na cidade. Adriana Marangoni, secretária municipal de Educação e Cultura, explica que “a gestão atual do governo municipal tem trabalhado com a ideia de descentralização, buscando fazer com que as atividades cheguem a mais pessoas e efetuando intercâmbios culturais em diferentes locais”. Antes da pandemia do coronavírus, a Casa da Cultura oferecia aulas regulares e gratuitas de balé, violão, violino, viola, pintura em tela, pintura em tecido, instrumentos de sopro, acordeom, teclado, hip hop e teatro. “Além disso, ela é responsável por organizar o principal evento da cidade, a tradicional Festa de Corpus Christi, preservando o patrimônio histórico, artístico e cultural”, complementa.
O belo casarão, tombado pelo patrimônio histórico da cidade, já foi sede da Prefeitura e da Câmara Municipal muito antes de se tornar Casa da Cultura. Atualmente, um projeto de reforma está sendo orçado, por meio de uma parceria público-privada, a fim de conservar e revitalizar o prédio. Segundo Carlos Vicente Hasselaar, secretário municipal de Obras, “ainda não há certeza de como ou quando essa parceria irá se firmar. No entanto, pretendemos reformar o quanto antes a Casa da Cultura, que não recebe obras há mais de uma década, a fim de reestruturá-la para que tenha mais acessibilidade, por exemplo”. É de se destacar também que o Departamento Municipal de Cultura permanece sem diretor desde que Júlio César Ribeiro da Silva deixou o cargo em janeiro de 2019.
MUSEU DA INDÚSTRIA
De acordo com Carlos Neres, diretor executivo do projeto do Museu da Indústria de Matão (MIM), a concepção do espaço – ideia que surgiu da atual administração municipal – carrega o intuito de resguardar as memórias do maior patrimônio matonense: a história e a cultura de seu povo. Quando foi concebida em 2010, pelo governo municipal da época, a estrutura era destinada a outro projeto cultural: o Centro de Educação Complementar (CEC). No entanto, devido à carência de recursos financeiros, as obras foram suspensas e não havia previsão de retorno. A fim de reutilizar o espaço, um edital foi providenciado pela Prefeitura de Matão em 2018, por meio das Leis de Incentivo Fiscal, com o propósito de buscar soluções para o impasse. E a concepção de um Museu da Indústria, sugerido pela empresa ‘Neres e Vaz Consultoria e Assessoria de Projetos Ltda’, foi aprovada.
Segundo Carlos Neres, tudo o que já foi edificado será reaproveitado e aprimorado para a construção do projeto. Ele explica que, a princípio, é importante que haja toda a concepção do acervo museológico, pedagógico e científico. “Paralisamos a execução da obra física, que já havia começado, devido à pandemia do novo coronavírus, mas não deixamos de trabalhar na idealização do Museu da Indústria. Estamos entrevistando mais de 80 famílias matonenses, realizando pesquisas, estudos, colhendo muitas informações e decidindo até os ajustes mais detalhados quanto à edificação do projeto. Toda a parte imaterial continua sendo trabalhada”, informa.
Concluindo sobre a necessidade e importância de um espaço público para abrigar e incentivar a produção artística local, Luiz Piquera pontua: “Cada pessoa lida com seus temores, desejos, anseios, dúvidas, de forma altamente subjetiva, para além da razão. O campo cultural abarca tudo isso em formas de expressão, comungando os interiores de cada pessoa; e os espaços culturais públicos possuem papel fundamental e determinante para que tais interiores possam se unir”. A arte, portanto, não nasce desses espaços, mas ganha a condição de ser apresentada nestes locais. Assim se dá a importância de um espaço cultural público, por meio do incentivo, organização, planejamento e disponibilidade de receber e oferecer atividades culturais como apresentações artísticas, eventos, palestras. Cultura gera conhecimento!
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