O que a covid está fazendo
Ano de 2020 ficará marcado na história pelas consequências da pandemia do coronavírus
Do acervo · publicada originalmente em 9 de setembro de 2020
Fonte: Eliana Saraiva
· Leitura de 9 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020Coronavírus e covid-19. Esses são os nomes que marcam o ano de 2020. O mundo mudou. As relações interpessoais se modificaram, assim como os cenários da economia, da educação, da saúde, do entretenimento e do lazer. Novas políticas públicas foram lançadas na tentativa de assegurar o acesso à saúde pública e de amenizar a crise econômica. Agora, qual será o futuro após a pandemia? Essa é a pergunta que todos fazem. As análises ainda são incertas, haja vista que o novo coronavírus ainda não é conhecido por completo e a vacina para combatê-lo ainda está em experimentos. Entretanto, a necessidade de sobrevivência (inclusive econômica) se faz urgente e, diante disso, novas atitudes e condutas indicam uma nova forma de viver.
A pandemia do coronavírus, causador da covid-19, provocou abalos nas atividades econômicas em todo o mundo, ocasionando impactos na produção industrial, no livre comércio, na geração de emprego e renda, dentre outros setores. Para tentar conter a transmissão da doença – que até o dia 8 de agosto já havia levado mais de 100 mil brasileiros a óbito –, boa parte da população foi submetida às medidas de isolamento social, que incluíram suspensão de aulas presenciais, funcionamento parcial do comércio, drástica redução da produção industrial, interrupção das atividades culturais, paralisação do setor turístico, fechamento de fronteiras, dentre outras providências emergenciais.
Com o objetivo de amenizar a recessão, bancos centrais anunciam a redução das taxas de juros e promovem medidas bilionárias de socorro à população e de estímulo à economia. Governos passaram a liberar valores financeiros exorbitantes para reduzir os impactos da pandemia, bem como adotaram novas políticas econômicas com o objetivo de amparar todos os segmentos, incentivando a optarem por novos métodos de trabalho e produtividade. Outra medida adotada pelo governo federal foi a liberação de parcelas de R$ 600,00 – denominadas como Auxílio Emergencial – para atender a extensa gama de trabalhadores que tiveram suas jornadas reduzidas ou àqueles que perderam seus empregos.
O novo cenário aponta para o caminho da flexibilidade, da comunicação e da capacidade de resolver problemas complexos à distância. Isso inclui a condição de conseguir trabalhar de qualquer lugar, comumente chamada de trabalho remoto. “Para esse enfrentamento, o reequilíbrio psicológico se faz necessário; trabalhar a mente e controlar as emoções e a ansiedade são fatores cruciais para ser produtivo e não adoecer” – é o que preconiza a Sociedade Brasileira de Psicologia. Para aqueles que tiveram seus contratos suspensos ou perderam seus empregos, a instituição orienta que os profissionais se tornem vistos em mídias sociais e deixem claras suas habilidades e competências. Além disso, é preciso pensar em novas possibilidades de áreas de atuação. Portanto, a capacitação profissional é primordial e investir em cursos gratuitos on-line é uma boa opção.
A prática digital e a tecnologia são consideradas essenciais como mecanismos para a retomada dos negócios, devendo ser adotadas no cotidiano das empresas de cada segmento produtivo e até mesmo dos profissionais liberais. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) aponta que o setor de ‘delivery’ ganhou força nos últimos meses devido à demanda de muitas empresas, sendo o responsável pelo aumento de pessoas que passaram a atuar como ‘entregador’.
O QUADRO DA SAÚDE
Em março, o prefeito Edinardo Esquetini anunciou as primeiras medidas para conter a contaminação pelo covid-19. Pautado nas orientações dos governos federal e estadual, baixou o Decreto nº 5.203 para que medidas de prevenção e contenção ao contágio fossem adotadas, visando não desorganizar o sistema público de saúde para garantir atendimento à população. Também foi criado o Comitê de Contingência Contra o Coronavírus, com profissionais técnicos da Secretaria de Saúde, Vigilância Epidemiológica e membros do Hospital ‘Carlos Fernando Malzoni’ para auxiliar em tomadas de decisão frente à pandemia.
As consultas de rotina e as cirurgias que poderiam ser adiadas, sem prejuízo à saúde do paciente, foram desmarcadas e reagendadas; atendimentos em grupo, principalmente na área da saúde mental, foram suspensos e os atendimentos de urgência foram mantidos, incluindo a gestantes e serviços odontológicos. “No mês de junho, conforme orientações do Governo do Estado e Ministério da Saúde, alguns atendimentos foram retomados, principalmente a pacientes com doenças crônicas. A assistência individual na área da saúde mental também foi retomada, seguindo os devidos protocolos”, esclarece João Guimaraes, secretário municipal de Saúde.
Até a data de encerramento desta edição (10 de agosto), os registros apontavam para oito óbitos decorrentes da covid-19 em Matão, sendo todos confirmados pelos laboratórios oficiais (Adolfo Lutz e Unesp). Indagado sobre o número de casos da doença na cidade (442 até 10 de agosto), João Guimarães relatou que “o município soma os exames realizados por laboratórios credenciados pelo governo, testes rápidos realizados nas UBS’s e ESF’s (de acordo com o protocolo do Ministério da Saúde) e os resultados de testes feitos pelos laboratórios particulares da cidade. Estudos apontam que a cada paciente testado positivo, temos de 10 a 15 pessoas contaminadas, assintomáticas, transmitindo o vírus sem saber. Não temos interesse algum em esconder os casos positivos, como algumas pessoas dizem; muito pelo contrário! Queremos que a população tenha consciência da gravidade dessa pandemia e, diante disso, reforçamos a importância do uso de máscaras, do respeito ao distanciamento social, do uso de álcool 70% para limpar superfícies, uso de álcool gel para higienização das mãos e todas as demais orientações”, enfatiza o secretário.
Em reportagem publicada pelo jornal A Comarca no dia 17 de julho, o médico César Minelli (diretor técnico do Hospital ‘Carlos Fernando Malzoni’) informava que “no Brasil, a testagem não tem atingido nem 20% do que foi proposto inicialmente. Isso dificulta muito identificar as pessoas que são portadoras assintomáticas de covid-19 e que poderiam estar isoladas, contendo a propagação da doença”. Ele complementava ao salientar que há muitas dificuldades em logística para a testagem em massa ser feita, demandando um investimento muito alto. Porém, sem ela, a quantidade divulgada de casos continua sendo bem distinta da realidade.
Já em outra matéria, publicada na edição do dia 10 de julho, o médico Flávio Borsetti (coordenador da UTI do Hospital) alertava: “Se permanecermos com essa mesma velocidade de transmissão do vírus, corremos sério risco de colapso em nosso Hospital, pois as internações por outros problemas de saúde continuam acontecendo e a capacidade hospitalar pode não mais conseguir atender a demanda”. No dia 7 de agosto, o Hospital divulgou um Boletim Extra, intitulado ‘Alerta ao Povo Matonense’, em que
manifestava sua preocupação com o aumento substancial de cidadãos internados com suspeita ou confirmação de coronavirus. Dentre outros pontos, informava: “Hoje estamos com 21 pacientes internados, a UTI completamente lotada e a enfermaria com mais de 100% de leitos ocupados, situação que tem se agravado a cada dia. Se nada mudar, o colapso do sistema hospitalar é iminente”.
O COMÉRCIO SE ADAPTA
Antônio Geraldo Giannini (Toninho), presidente do Sindicato do Comércio Varejista (Sincomércio-Matão), salienta que a pandemia do coronavírus exigiu que os lojistas adotassem novos métodos de trabalho. “O jeito de fazer comércio precisou de uma nova forma de conduta, ou seja, o e-commerce tornou-se uma realidade irreversível. Agora é necessário conquistar o cliente de outra forma, pois, em razão das medidas de isolamento social, ele se tornou mais conectado ao mundo digital e seu estilo de vida se modificou. O empreendedor precisa se reinventar, buscar novos atrativos, novas tecnologias, independentemente do seu ramo de atividade”.
Giannini reitera que não teme pelo fim do comércio de rua, mas salienta que é preciso uma atenção à tecnologia para aumentar o fluxo de vendas. “Como exemplo disso cito o Magazine Luiza, que já vinha se modernizando e, no atual cenário, adotou o marketplace, ofertando um leque expressivo de produtos. Defendo a atenção às novas estratégias de marketing de varejo e a importância da capacitação. Cabe destacar que as vendas por meio de aplicativos em telefones cresceram cerca de 75% em Matão. Podemos dizer que o município não interrompeu suas atividades econômicas. O setor do agronegócio primou pela mão de obra local e fez acordos coletivos necessários para não implicar em desemprego. Estamos confiantes de que o ‘novo normal’ será promissor”.
Já o presidente do Sindicato dos Empregados no Comércio (Sincomerciários-Matão), José Carlos Pelegrini (Nei), destaca que – mesmo com o cenário econômico nacional abalado – Matão se mostra resistente. “O comércio local passou por períodos de fechamento, posteriormente adotou novos sistemas de trabalho e, com a flexibilização do horário (das 12 às 18 horas), as coisas voltam a caminhar. Importante salientar que critérios foram estabelecidos para manutenção dos comerciários em seus empregos. Os funcionários foram enquadrados na medida provisória do Governo Federal, acordando assim em 70% de redução salarial. Tivemos renovações contratuais pagando 30% do salário e o restante do montante, o Governo Federal assumiu. Quem teve suspensão contratual ou se encaixa nos 10% de demissionários está recebendo o Auxílio Emergencial. Portanto, diante das circunstâncias de pandemia, Matão não registrou demissão em massa”, informou.
INDICADORES E PERSPECTIVAS
O economista matonense Walter Baldan Neto, sócio fundador e diretor de operações na WIT - Wealth, Investments & Trust, explica que 2020 marca a história econômica mundial. “Tivemos um primeiro semestre que ficará registrado como o período de maior incerteza dos mercados financeiros globais, dos governos e da vida das pessoas. O ano de 2020 foi marcado por iniciar uma nova recessão sem ter se recuperado da anterior. Esse período também foi marcado por nossa taxa de câmbio, que atingiu níveis próximos de R$ 6,00/USD e mostra o dólar como refúgio de alocações de ativos escolhidos em todas as partes do mundo, inclusive o Brasil”, salienta.
Neto ainda aponta que o segundo trimestre do ano foi marcado pelos indicadores do nível de atividade da economia, que tiveram resultados melhores do que o esperado, sinalizando um ‘fundo do poço’ possivelmente menor do que o previsto inicialmente. “Ainda assim, a projeção de recessão é mantida na ordem de -6,5% para 2020. A incerteza persiste, o que dificulta a velocidade no ritmo de crescimento, contudo, para os dois últimos trimestres do ano, assim como início de 2021, os sinais indicam boa recuperação na retomada da economia brasileira, acompanhando bastante o ritmo global”.
Segundo Neto, “esta hipótese depende da efetividade das políticas econômicas mitigadoras que estão sendo adotadas no Brasil e no mundo, bem como de um avanço no controle da pandemia, que permitirá inclusive a retirada gradual das medidas restritivas. Entendemos que as políticas econômicas estão bastante alinhadas e que a taxa Selic, atualmente em 2,00% a.a., estimula ainda mais os investimentos no setor produtivo. A inflação permanece com projeção dentro da meta, na faixa de 1,60% a.a., o que mostra a existência de recursos ociosos na economia e permite crescimento sem pressões nos preços. Os investimentos e o consumo das famílias, que a princípio são atingidos com mais força pela crise, devem manter ritmo mais intenso na retomada do crescimento, impulsionados pela taxa de juros mais baixa e pela melhora na confiança. Que venha um cenário mais promissor”, pontua o economista.
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