Natalia Rossi tem artigo publicado em prestigiado periódico científico
Além da matonense, estudo integra outras profissionais do Brasil e de Portugal
Do acervo · publicada originalmente em 26 de agosto de 2020
Fonte: Rogério Bordignon
· Leitura de 11 min
Foto: Acervo A Comarca
Acervo · 2020No dia 31 de julho, o artigo ‘Sentence contexts and cloze probabilities for Brazilian Portuguese children and adolescents’ (‘Probabilidade de complementação de frases de contexto para crianças e adolescentes falantes do Português Brasileiro’) foi publicado no prestigiado periódico científico ‘Plos One’. O estudo, de autoria da matonense Natalia Freitas Rossi, foi conduzido no Brasil e teve a colaboração de outros pesquisadores do Brasil e de Portugal.
Natalia é docente do Programa de Pós-Graduação em Fonoaudiologia da Unesp-Marília (Mestrado e Doutorado) e pesquisadora do Laboratório de Estudos, Avaliação e Diagnóstico Fonoaudiológico (LEAD) desta universidade. Ela desenvolve estudos em colaboração com pesquisadores nacionais e internacionais com o objetivo de investigar processos típicos e desviantes da linguagem e suas associações com padrões neurocognitivos, comportamentais e neurofuncionais específicos.
Os estudos abarcam desde a investigação dos processos de desenvolvimento da linguagem no âmbito dos transtornos do neurodesenvolvimento de etiologia complexa (Transtorno do Espectro Autista), bem como etiologia genética e/ou ambiental definida (síndromes genéticas, uso de álcool na gestação, infecções congênitas). “Uma segunda linha de pesquisa do grupo inclui a elaboração de protocolos de avaliação, tradução e adaptação de instrumentos formais de avaliação da linguagem, o que compreende o artigo publicado”, cita Natalia, que foi entrevistada por A Comarca.
Quais os pesquisadores comprometidos com este estudo?
Além de mim, o estudo integra as doutoras Catarina Fernandes, Ana Patrícia Pinheiro e Adriana Sampaio (as três da Universidade do Minho - Portugal), Célia Sofia Moreira (Universidade do Porto - Portugal), Célia Maria Giacheti e Bianca Bortolai Sicchieri (ambas da Unesp-Marília).
O que é investigado neste estudo?
Investigamos o desempenho de 361 crianças e adolescentes brasileiras, com idade entre 7 e 18 anos, numa tarefa de leitura conhecida como ‘Teste de Cloze’. Esta modalidade foi proposta por Taylor em 1953 como uma ferramenta para avaliar a compreensão de leitura de frases e textos. Desde então, esta técnica tem sido amplamente utilizada tanto no contexto de avaliação quanto de intervenção em leitura e escrita. Para melhor entender no que consiste a ‘Técnica de Cloze’, podemos nos apoiar na própria definição proposta por Taylor em 1953. O autor definiu uma unidade de ‘cloze’ como uma única resposta possível e correta que o indivíduo pode dar para preencher uma lacuna num texto ou numa frase. Então, apresentamos um texto ou uma frase faltando algumas palavras e solicitamos que a pessoa preencha essas lacunas. A resposta do participante é considerada adequada quando a palavra que ele utilizou completa o texto ou frase mantendo sua coerência e inadequada quando a resposta gera transgressões ou quebra de coerência, seja do ponto de vista semântico (significado) ou sintático (gramatical).
Havia o propósito da observação.
Sim. Queríamos observar qual era a palavra correta mais utilizada para cada uma das 100 frases que compuseram o teste, e depois quais eram os tipos de erros mais cometidos pelos participantes. O tipo de resposta atribuída é o que utilizamos como parâmetro de processo de desenvolvimento da leitura e da escrita. A resposta para a tarefa é um dos indicadores da competência leitora do sujeito e da sua capacidade para lidar com a informação extraída da frase. Esperávamos encontrar diferenças nesta capacidade em função da idade dos participantes, por estarem em fases de aquisição e desenvolvimento diferentes da escrita.
Cite exemplos.
Uma das frases da tarefa era ‘O padeiro faz o...’. A palavra ‘pão’ foi a resposta adequada mais escrita pelos participantes de todas as idades. Já para a frase ‘O bombeiro apaga o...’ a palavra ‘fogo’ foi a mais frequente entre os participantes mais novos, enquanto a palavra ‘incêndio’ foi mais usada entre os mais velhos, acima de 12 anos. Isso mostra o aprimoramento do nosso sistema semântico, responsável pelo conhecimento e domínio de vocabulário, de modo que os mais velhos são capazes de utilizar palavras mais refinadas para um mesmo contexto. No estudo ainda verificamos que os participantes mais velhos eram menos propensos a cometerem erros de natureza semântica ou sintática.
Como assim?
Observamos que a maioria dos erros cometidos pelos participantes mais jovens eram de natureza sintática. Para ilustrar, posso citar uma das frases do teste: ‘As pessoas comem no...’. Muitas crianças utilizaram a palavra ‘mesa’. Semanticamente pode-se dizer que esta palavra tem coerência com o contexto da frase; no entanto, há uma violação da gramática, pois é exigido um substantivo em concordância com o gênero do artigo que antecede a lacuna final da frase (e.g., prato). Este erro nos mostra um marcador de desenvolvimento importante no processamento da leitura, que é o fato de que crianças mais novas tendem a realizar um processamento da escrita predominantemente pela via semântica da frase, ou seja, para elas o que mais importa é o significado global da frase, não se atendo muito à gramática. Esta característica do processamento da leitura nos anos iniciais deve ser levada em consideração pelos profissionais que atuam com a avaliação e intervenção ou ensino da leitura e da escrita.
Isso aponta o quê, de forma prática?
Nos mostra que, primeiramente, este tipo de erro nas fases iniciais do desenvolvimento da escrita é esperado. Segundo, que a concepção de frase pela criança em processo inicial de alfabetização pode estar mais ligada inicialmente a necessidade de combinar palavras entre si, sem levar em consideração os elementos gramaticais. Neste caso, a instrução explícita para a criança quanto ao conceito de frase poderá ajudá-la no desenvolvimento da consciência sintática – fundamental para a compreensão leitora. Por fim, a partir desta informação podemos também pensar na forma como estruturamos frases isoladas ou como parte de um texto para crianças em fase inicial de aquisição da escrita. Deve-se assegurar que estas frases sejam mais restritivas quanto ao seu contexto, de modo que não haja uma sobrecarga dos processos cognitivos da leitura – atenção, memória, inibição de informações irrelevantes ao contexto. Evita-se assim que a criança ‘gaste’ recurso cognitivo extra tentando estabelecer ou encontrar o significado da frase num momento em que ela ainda está compreendendo o princípio alfabético da correspondência grafofonêmica (regras de conversão letra-som) na leitura. Uma estratégia importante para minimizar este efeito é o uso associado de ilustrações concomitante ao material escrito, como acontece nos livros de história, uma vez que as imagens contribuem para a construção de significados.
Qual a origem deste estudo?
Uma curiosidade é que a proposta surgiu da necessidade que encontramos para lidar com um problema metodológico de outro estudo que estávamos delineando com pesquisadores da Universidade do Minho, de Portugal. O estudo em questão foi realizado no Instituto de Radiologia da Faculdade de Medicina da USP (InRad), coordenado no Brasil por Edson Amaro Júnior e em Portugal por Adriana Sampaio, e teve financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia de Portugal. O estudo, inédito no Brasil, tinha como proposta investigar o funcionamento cerebral de pessoas com e sem uma condição genética rara, que é a ‘Síndrome de Williams’. As pessoas com esta síndrome são conhecidas por apresentarem personalidade sociável e falante, mas têm problemas na interação social por apresentarem dificuldades para perceberem pistas sutis de que temos que lidar com os diferentes contextos de comunicação, como compreender frases de duplo sentido, identificar incoerências na fala do outro e tudo o que requer habilidades de inferência, ou seja, aquilo que falamos ou escrevemos mas que não está explícito. No caso, queríamos identificar as possíveis diferenças entre os padrões de funcionamento cerebral que os indivíduos com a ‘Síndrome de Williams’ apresentavam, quando comparados aos seus pares de mesma idade sem a síndrome. Vários estudos mostram que indivíduos com a ‘Síndrome de Williams’ apresentam habilidades de linguagem e de cognição social distintas de pessoas sem a síndrome. No entanto, essas diferenças ainda não estão bem esclarecidas no que diz respeito ao funcionamento cerebral durante tarefas de linguagem e de cognição social. Para isso, precisávamos de um número razoável de estímulos (frases) que pudessem ser apresentados aos indivíduos no momento do exame de neuroimagem e eletrofisiologia cerebral. Assim, ao mesmo tempo em que eram obtidas as informações relativas às áreas cerebrais ativadas também eram obtidas informações sobre a atividade elétrica do cérebro, tudo relacionado a tarefa específica de compreensão de frases. Para isso, precisávamos de um material validado para o Português do Brasil. A validação de estímulos de natureza linguística, como o banco de frases que publicamos, é fundamental para estudos na área da linguagem, uma vez que há variáveis – sexo, idade, escolaridade – que podem influenciar no desempenho do participante. Então, um material que foi validado para escolares dos Estados Unidos ou de Portugal pode não ser adequado para uso imediato no Brasil, necessitando de ajustes para nossa realidade. Assim, coube a mim aqui no Brasil a validação dos estímulos, o que resultou no estudo que publicamos no periódico científico ‘Plos One’.
Há perspectivas de continuidade deste estudo a outros segmentos?
Além da contribuição imediata que os resultados do estudo trouxeram ao próprio grupo de pesquisa, esperamos que o banco de frases que construímos e validamos também possa ser utilizado por outros grupos de pesquisa, bem como por profissionais da área da saúde e da educação que trabalham com o desenvolvimento da linguagem escrita, uma vez que todo o material está disponível para acesso no periódico ‘Plos One’. Embora o ‘Teste de Cloze’ seja amplamente utilizado na literatura nacional e internacional, poucos estudos foram conduzidos no Brasil com amostras de crianças e adolescentes, principalmente no contexto de avaliação. A maioria dos estudos está voltada para a população adulta ou para a intervenção em leitura e escrita.
Qual o significado de ter este artigo publicado na revista ‘Plos One’?
O aceite desta publicação foi uma notícia que recebemos com muita alegria, especialmente pelo momento vivido pela pesquisa no Brasil, de descrença e desvalorização da ciência, com cortes sistemáticos de verbas. Delinear, implantar, executar e publicar um estudo é um processo árduo e muitas vezes oneroso, principalmente em periódicos de acesso aberto, como é o caso da revista ‘Plos One’. Os periódicos de acesso aberto são aqueles que qualquer pessoa pode acessar e ler o artigo de forma gratuita. Deste modo, o produto do conhecimento científico estará acessível a um maior número de pessoas, não somente pertencente à comunidade científica. Assim, é uma imensa satisfação poder prestar contas à sociedade do investimento que recebi para realizar este estudo, que teve financiamento da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), uma fundação do Ministério da Educação (MEC) que tem papel fundamental nos Programas de Pós-Graduação Strictu Sensu (Mestrado e Doutorado) do país. O tipo de estudo que realizamos não tem uma despesa tão onerosa na fase de coleta e análise de dados, pois não foi necessário o uso de tecnologia de ponta e muitos recursos humanos para conduzi-lo; mas, ainda assim, há gastos com serviços de revisão do inglês e taxa de publicação, que a depender da revista podem variar de US$ 150 a US$ 6 mil. É oportuno afirmar que, em pesquisa aplicada, frequentemente precisamos de uma contrapartida da sociedade para que possamos retornar com o conhecimento produzido. O momento que vivemos com a pandemia da covid-19 é um bom exemplo disso. Atualmente, pesquisadores trabalham para o desenvolvimento de uma vacina que possa ser segura e eficaz para combater o vírus. Para isso, sucessivas etapas são necessárias até chegar a testagem com humanos. E é neste ponto que entra a contrapartida da sociedade, uma vez que serão necessários voluntários. Claro que por caminhos e escalas proporcionais diferentes, mas isso foi necessário para a realização do estudo que publicamos. Primeiro precisamos estabelecer o que se denomina de referência à norma, ou seja, os parâmetros de crianças e adolescentes que tenham desenvolvimento dentro do esperado para a idade e escolaridade; para então, num segundo momento, estudar grupos específicos que apresentam alterações desenvolvimentais. Inclusive, expresso minha gratidão à Emef ‘Benta Maria Ragassi Scutti’ (Caic ‘Maria José Mendonça Gimenez’) de Matão. Grande parte da amostra do estudo é originária de alunos do Caic. Para não cometer injustiça, não me aterei a nomes, pois a escola – desde a direção até os professores – sempre foi muito acessível para ouvir minhas propostas. Outros estudos já foram realizados com a colaboração de alunos do Caic. Em 2016, publicamos os resultados da tradução e adaptação de um teste norte-americano, ‘Test of Narrative Language’ (‘Teste de Linguagem Narrativa’), que foi concebido para avaliar habilidades de narrativa oral de crianças e adolescentes. Depois, em 2017, os autores originais do teste publicaram outra versão dos instrumentos, exigindo novas adaptações para a versão brasileira. Novamente, o Caic fez esta parceria conosco da Unesp-Marília, viabilizando o contato com os pais por meio dos termos de consentimento. Toda pesquisa realizada com pessoas deve ter aprovação de um Comitê de Ética para garantir direitos e cuidados com os participantes.
ACESSE
A publicação pode ser acessada pelo link https://journals.plos.org/plosone/article?id=10.1371/journal.pone.0236388
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